felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre Rotinas Emocionais

Nosso inconsciente prefere o sofrimento conhecido do que a felicidade com a qual não estamos acostumados.


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É difícil prever como um jeito de agir com o outro vai impactar aquela pessoa.

Uma boa mãe acaba sabendo muito bem o que o filho quer. Sem ele ter que dizer, ela sabe a hora de dar isto ou aquilo, sabe ver quando ele está chateado e dá um abraço, diz coisas doces, prepara um lanche e respeita o tempo dele vendo desenhos logo em seguida. Ou percebe que ele ficou frustrado e deixa o menino jogar mais videogame e ir dormir sem tocar no dever de casa. Ela sabe criar expectativa, fazer uma surpresa, dar um presente legal e nem se incomoda com a falta de reconhecimento. Ela ama o filho e quer dar o melhor pra ele. O filho se acostuma a isso, a viver esses momentos e nem percebe o quanto existe alguém orquestrando tudo nos bastidores. Do ponto de vista dele, as coisas simplesmente acontecem, são assim.

Cada pessoa tem suas rotinas emocionais, muitas criadas na infância, mas não percebemos isso. O fato de não sabermos exatamente como e quais são, explica porque quase sempre somos péssimos em comunicar isso aos outros.

Esse menino vira um homem, se casa, e de repente percebe que não está satisfeito com a relação, existem pequenos atritos, pequenas frustrações. Nada absurdo, difícil até colocar em palavras, mas a verdade é que a esposa não conhece a rotina que ele está acostumado a viver quando fica chateado (e tantas outras). Pior, a esposa foi acostumada com outras rotinas, na casa dela se alguém estava triste eles ficavam tentando alegrar a pessoa, chamando pra brincadeiras e fazendo piadas com a situação. Sem perceber, a esposa busca fazer o mesmo com o marido, que fica só mais irritado, pois o que ele queria mesmo era um abraço, um aconchego e depois espaço pra ficar sozinho, vendo talvez uma boa série (o desenho dos adultos). Nessa ordem. Mas ele não sabe disso, muito menos ela, e é difícil argumentar quando não se sabe a causa raiz do sentimento, pois racionalmente, ele sabe que ela não fez nada de errado.

– O que foi amor? Ficou chateado com o seu sócio que não te consultou pra fechar o contrato? Ah, deixa isso pra lá, vamos sair, vamos no cinema ver aquele filme que você queria, que tal?

– É… não sei se quero ir hoje..

– Ah, vamos! Vem cá, esquece esse sócio, ele é narigudo e careca, não dá pra se preocupar com alguém assim né?

– Não, vai você no cinema, eu to meio cansado, não quero sair agora.

– Tá com fome? A gente podia ir naquele japonês que você gosta hein, encher a cara de sashimi, que tal?

– Pode ir você, se ta querendo sair pode ir, eu não to com cabeça pra isso, é bom que eu aproveito e assisto alguma série dessas que você não gosta.

O marido não compra a brincadeira, ele não quer entrar nesse clima. Ele quer viver outro estado de espírito. Ao mesmo tempo, ele entende que a mulher está tentando dar apoio, está querendo ajudar, ele percebe isso, mas ainda assim a coisa não encaixa, e ele fica ainda mais mal pela falta de sintonia, além da questão com o sócio. A esposa percebe que não está funcionando, se sente triste por não conseguir uma sinergia alí, usa toda sua criatividade e bom humor e nada, suas tentativas escorrem pelo ralo, nada parece funcionar.

Ela se sente mal e triste, sozinha.

E quanto mais incomodado cada um fica, menos claro é o pensamento, e em algum momento alguém toca numa ferida, diz algo num tom errado, e trocam-se comentários mais ríspidos, alfinetadas e, sem perceber, o marido foi bem mais grosseiro do que gostaria, numa tentativa inconsciente de conseguir o que ele estava acostumado a ter nessas situações: um tempo sozinho. O preço emocional foi alto.

Mais do que a felicidade, buscamos o conhecido. Eu quero sofrer do jeito que fui acostumado, meu subconsciente gosta disso, do que é sabido, pois é seguro, e está disposto a ir bem longe pra tal. Posso dizer que prefiro estar feliz, ou contente, mas o subconsciente não é exatamente racional. Ele funciona por gatilhos. Se reconhece os gatilhos da frustração ou tristeza sendo acionados, só tem uma coisa a fazer: a rotina.

O que ele quer é, simbolicamente, o abraço da mãe, seguido do carinho (palavras e comida) e um tempo sozinho, quiçá um desenho que o entretem enquanto a dor vai passando. E ele vai dar um jeito de chegar o mais perto disso possível. Essa é a rotina com a qual ele foi acostumado, ela que reina até segunda ordem. No entanto, enquanto ela permanecer fora do alcance da mente racional, fica intocável e exerce sua influência sem maiores interrupções.

Aos poucos esses pequenos desentendimentos se somam, e podem ir gerando ressentimento, distância, uma sensação de que o outro não te entende, que não é mais como era, não existe mais aquela conexão. Mas a história é mais complexa, os dois tem muitas coisas positivas também, e os pontos fortes escondem uns pontos fracos, o que faz a coisa ir se estendendo mais e mais.

Esse tema é muito mais complexo e toca em profundas questões nossas, mas chamo a atenção agora para a importância de perceber como nos sentimos e depois sobre como comunicar isso ao outro.

O menino não aprendeu a fazer isso, pois nunca precisou. Até estranharia pra ele dizer que gostaria de um pouco de carinho, de colo mesmo, e de um tempo sozinho vendo alguma coisa, talvez com um sanduíche e uns biscoitos. Ele se vê como um adulto, e essa não é a necessidade de um adulto, que ridículo, quem precisaria disso pra superar um incômodo com o sócio?

Todos somos mais ou menos maduros do que aparentamos. Fisicamente é muito evidente quão desenvolvida a pessoa é, mas emocionalmente, psicologicamente, escondemos grandes questões, avançamos numa área à custa de outras, deixamos coisas pra trás, fechamos os olhos pra não ver.

O primeiro passo é quebrar essa redoma, essa sensibilidade com a necessidade de se ver como uma pessoa completa, madura, perfeita. Não, não somos. Ninguém é.

Depois, analisar com calma nossas emoções e sentimentos. Olhar um pouco pro passado e perceber o que é o nosso normal, o que me é conhecido, quais as rotinas emocionais que me agradam pra cada situação. E é possível mudar, não estamos fadados a reviver os roteiros da nossa infância, mas mudar pede atenção, determinação.

Mudando ou não, é uma faceta de nós mesmos que exerce grande influência sobre nossas vidas, mais do que gostaríamos de admitir, então vale um tempo investido ai.

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Esse assunto é muito amplo e complexo, não pretendo de nenhuma forma me propor a esgotar o tema, muito pelo contrário, estou apenas arranhando a superfície. Mas de grão em grão sinto que as vezes é uma boa forma de ir pensando sobre certas coisas, descobrindo pontos em mim e nas pessoas próximas. Parto sempre da premissa que quem tiver interesse vai encontrar outras fontes e recursos. O pouco que tenho, compartilho com prazer, mas sou obviamente limitado pela minha própria ignorância. Até onde pudermos ir juntos, será um prazer sentir que fui útil de alguma forma.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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