felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre ser Massa de Manobra


“Whenever you find yourself in the side of the majority, it's time to pause and reflect”. - Mark Twain


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Quando vc está junto com a maioria, quando sua opinião é a mesma de um grande número de pessoas, existe uma boa chance de vc estar sendo massa de manobra de alguém.

A maioria é ignorante, é boiada, manobrada, conduzida. Não digo isso me excluindo, como se alguém fosse ou maioria ou um indivíduo com ideias próprias. Todo mundo é maioria em alguma coisa, todo mundo segue a boiada em alguns assuntos.

Eu sou maioria quanto à saúde por exemplo. Sou leigo no assunto, sei quase nada, e quando passo mal, vou no médico e vou seguir o que ele falar. Pode ser que no processo eu seja massa de manobra de grandes conglomerados farmacêuticos que influenciam médicos a receitar mais do remédio A que do B, que eu faça mais exames que o necessário pois a indústria de seguros impõe um ritmo de atendimento que estimula o medo de errar, e os médicos pecam pelo excesso, e eu pago um pedacinho dessa conta. Sou massa de manobra quando vou no supermercado. Tirando uns poucos ítens que eu realmente conheço, na média compro o que está disponível. Dou preferência a produtos orgânicos e tal (talvez por ser massa de manobra da conta-cultura do orgânico), mas uma vez conversei com um amigo que trabalha com isso e ele me explicou que muitos selos orgânicos são furados. É, eu disse, sou massa de manobra ai, sou vítima de algum marketing verde de alguém que pode estar ganhando a mais com a minha ingenuidade nesse assunto.

Pego ônibus, pago meu riocard pelo site, uso o banco, entro e saio, sento onde pode sentar, uso estruturas como algum arquiteto definiu, sigo as burocracias que alguém criou, assisto filmes e séries, e gosto delas, tudo exercitando apenas parte do meu livre arbítrio. Eu que escolhi assistir “House”, por exemplo, mas tem mais que isso. Escolhi dentre as opções que estavam disponíveis. Eu aceitei o cardápio, aceitei que essa forma de entretenimento é válida, aceitei muita coisa. Coisa que eu nem cogitei decidir, alguém ofereceu assim, alguém decidiu por mim entre o que e o que mais eu poderia escolher.

Tem muita gente envolvida em decidir que séries vão ser feitas, sobre quais assuntos, quais vão receber dinheiro pra publicidade, que fez essa estar disponível num canal que eu tinha, e num horário que encaixava com o meu. Até mesmo quando eu devo estar livre e quando não. Tudo isso foi pensado por alguéns, não necessariamente pra mim, mas pra diversos grupos nos quais eu vou me encaixando, querendo ou não.

E em cada etapa tem alguém reparando como tem coisa errada e que tem que mudar. Só nesse exemplo, essa série é americana, e tem toda uma galera mostrando como a indústria do entretenimento está desequilibrada, como a atenção desproporcional a produtos de origem americana, que se passam nos EUA e etc. Ok, realmente, é uma forma da imagem americana se propagar e ficar mais forte no mundo, não exatamente uma teoria da conspiração, mas ainda assim reconheço que pode ser interessante investir mais em outros países, mostrar outras culturas. Concordo com a importância da diversidade. Esquecendo o país, outras pessoas trazem outros pontos à tona. Uma palestrante do TED mostrou quantos filmes tem protagonistas do sexo feminino, ou negros, ou com deficiências, comparado com seu percentual na população, explicando os diversos problemas de termos uma representação deturpada da realidade no que assistimos, e falou de todo um movimento pra mudar isso. Segundo ela, devíamos assistir mais filmes e séries nas quais uma mulher é protagonista, ou que uma mulher dirigiu, e uma série de outras condições, todas válidas e que na minha opinião merecem sim mais atenção. Quando assisto House, estou sendo massa de manobra de muita gente, sendo mediano, boiada, maioria. E sou isso sob infinitas óticas. Só o fato de estar vendo televisão, sentando, consumindo esse tipo de produto nesse formato, usando minha atenção assim e não fazendo outras coisas.

E meu ponto é que tudo bem, pelo menos de forma prática, não dá pra comprar todas as brigas.

Todo mundo acha que o seu problema é o maior do mundo, e que é um absurdo as pessoas não perceberem isso. Toda profissão acha que devia se aposentar mais cedo que as outras. Os policiais pois vivem num clima de risco e tensão, as professoras pois há um peso psicológico e stress enorme em lidar com turmas de 50 crianças o dia inteiro, os garis pelo esforço físico e risco à saúde, assim como o pessoal da construção civil, os motoristas de ônibus, as enfermeiras porque… Não to dizendo que essas pessoas não tem razão, meu ponto é que o nosso problema sempre nos parece maior. E isso é um problema.

E ser massa de manobra não é necessariamente ruim. O fato de alguém estar te conduzindo, de você seguir a opinião de outro, isso pode ser bom (e, obviamente, pode ser ruim). Temos essa ideia de que apenas nossa própria opinião tem valor, e se você não tem a sua, que você mesmo criou, está sendo o fantoche de outra pessoa. Essa visão purista de que seria possível ter uma opinião realmente própria, livre de influências externas, isso é em si uma grande ilusão.

Quando eu disse que prefiro comprar produtos orgânicos, admito que estou sendo massa de manobra. De quem? De uma galera que percebeu que a indústria dos alimentos tem diversos problemas, não só socioeconômicos em termos de concentração de renda e poder na mão de magnatas agricultores, que influenciam a lei de diversas formas como pela bancada ruralista, mas mesmo se só focarmos na forma de produção, grandes monoculturas são prejudiciais pro meio ambiente, o uso de agrotóxicos é, em muitos casos, danoso à nossa saúde, além de diversos outros pontos. Teve um pessoal que percebeu isso. Essa percepção não foi fácil nem imediata, e só é assim pra mim agora pelo trabalho desse pessoal. Eles iniciaram um movimento contra a “maioria” naquele meio, o dos orgânicos, dos pequenos produtores, que é a solução pra tudo (ou quase tudo) que eles perceberam de errado ai. O movimento que eles começaram virou uma onda, e foi crescendo conforme mais pessoas aderiram. Mas não dá pra todo mundo estudar a fundo o porquê de cada ação, e quão menor for o seu envolvimento, mais você é massa de manobra de alguém.

Mesmo minhas opiniões não são exatamente minhas. Nada se cria, de fato. Elas são adaptações baseadas em tudo que vi, li e ouvi. Algumas vezes absorvo completamente a opinião de outra pessoa, em outros casos apenas parte, ou posso ser firmemente contra, pois essa ideia vai de encontro a outra a qual já estou mais apegado. Mas eu mesmo não criei nada, ou criei por remendos. Desde que nasci foram me alimentando com informações e conhecimentos, regras e valores, e com o tempo eu aceitei alguns e rejeitei outros de forma a criar o que chamamos de “minha individualidade”.

E eu posso estar do outro lado também, querendo ser manobrista de massa. Estudo e trabalho com Gestão de Empresas, e percebo as falhas dos sistemas tradicionais de gestão, o custo psicológico para tantos funcionários, e muito mais. Realmente quero fazer tudo a meu alcance pra melhorar a vida das pessoas e a eficiência das empresas. A conclusão que chego, a proposta de solução, é resultado de anos de experiência, conversas, livros, cursos, vivências e etc. Realmente, não dá pra esperar que todo mundo se dedique tanto a esse assunto. Então eu crio um slogan, busco uma forma de comunicar o essencial, e passo a influenciar as pessoas para uma mudança na direção que eu acho melhor. Viro manobrista. O que, de novo, não é necessariamente ruim. Quando estamos estacionando um manobrista pode ajudar, pois o interesse dele está alinhado com o seu - colocar o carro na vaga sem bater em nada.

Dado que vamos, inevitavelmente, ser massa de manobra de alguém, o máximo que podemos fazer é garantir que nossos objetivos estejam alinhados com o do manobrista. E ficar atento ao preço. As vezes é 5 reais, adiantado, a noite toda.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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