felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Jogo Sujo e Jogo Limpo

na capoeira, na política e na vida temos sempre a opção de fazer o fácil ou o difícil, de jogar limpo ou sujo. Cada uma tem seu preço, ônus e bônus.


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Na capoeira, como em qualquer luta, existe a possibilidade de um jogo sujo. A luta tem regras, e o seu oponente pode burlar algumas delas pra tirar uma vantagem. Nesse caso você tem 2 opções: Sair por cima ou sair por baixo.

Sair por baixo é descer ao nível do outro, é resolver você também burlar as regras pra estar em pé de igualdade e tentar assim revidar. Nesse caso você já perdeu. Não a luta em si, mas você mesmo. Aceitou quebrar os seus valores e jogar sujo, se permitiu dominar no jogo mental e abandonou seus princípios pra ter alguma vantagem. Usou a raiva, um poderoso combustível que dá uma enorme energia no momento, mas corrói o motor e consome o veículo que ela mesmo impulsiona.

Sair por cima é vencer o outro dentro das regras. É ser ainda mais correto e elegante, encontrar jeitos de lutar mais, com mais foco e criatividade e vencer respeitando ainda mais os valores da luta. Essa postura é mais difícil, e nem sempre é possível no curto prazo. Se o oponente é mais forte e ainda tá disposto a jogar sujo, no momento eu vou segurar e me proteger como der, dentro das regras, posso até "perder" essa batalha, mas não a guerra. Pois a guerra aqui é um posicionamento moral. Quanto estou disposto a manter meus valores e quando vou descer frente a um obstáculo? Se na primeira dificuldade eu abandono o que acredito e pego um atalho, eu perdi.

Assim a solução é treinar mais, focar nos meus pontos fortes e fracos e me tornar o capoeirista que vence o outro mesmo se ele jogar sujo. Eu não desço ao nível dele, eu mostro pelo meu exemplo que dá pra ser melhor que isso, que ele mesmo pode subir e jogar comigo um jogo bonito e honesto, no jogo de dentro e no jogo de fora, nas habilidades dos movimentos e na mentalidade pra vida.

Atualmente a maioria dos jogos de capoeira são jogos e não lutas, não existe um vencedor e um perdedor, mas acontece em alguns momentos e como exemplo serve bem pra ilustrar o ponto.

Em quase tudo o que fazemos temos a possibilidade de tirar vantagens se toparmos descer de nível. É uma bonificação instantânea que cobra o seu preço depois, com juros. Como usar um cartão de crédito moral. Você mente agora e a sua esposa não vai saber que você transou com outra, assim você, nesse momento, aproveita o que na ótica míope seria o melhor dos mundos. Tem duas mulheres quando a sua só tem você (até onde você sabe), e na visão machista clássica você se deu bem, ta comendo todo mundo e sem a consequência.

Só que não né. Não existe imunidade à consequência. Anestesiado com a euforia do momento você pode não sentir, mas com o tempo ela chega, e chega forte. A culpa de trair vem aos poucos, mas mais que isso, é a impossibilidade de viver uma relação de verdade vem a ser a maior punição. A partir desse momento pra sempre existe uma parte sua fechada a essa pessoa, e isso se mostra querendo ou não, esse distanciamento vai acontecer de forma consciente e inconsciente em outros locais e você nunca vai viver um amor de verdade. Vai se tornando esses caras amargurados com a vida, que fazem piadas sobre a mulher do vizinho, sobre como mulher é ciumenta/consumista/neurótica e etc pra extravasar a insatisfação que (mal) esconde a profunda dor interna.

Descer de nível é fácil, é que nem comprar algo com um cartão sem limites. Você dá o cartão e o item é seu, na hora, fácil fácil. Mas a conta chega depois, e os credores são persistentes e indomáveis.

Hoje estamos em época de eleição, uma eleição marcada pela rejeição. Os dois lados lutam contra o outro, mais do que a favor do seu. Se o outro lado desce de nível, o que você faz? Se o outro lado usa fake news, mente, agride física ou verbalmente, o que você faz? Se o outro lado te parece intolerante, o que você faz?

O mais fácil é descer de nível e jogar sujo também. É criar uma caricatura perversa e debochada do outro, criar apelidos e reforçar a imagem do outro como um imbecil, inculto, ignorante e incapaz de reconhecer a verdade que só você (e seu grupo) ó tão sábio consegue ver. É usar a foto mais ridícula do outro candidato, os piores exemplos do que ele falou fora de contexto, o mesmo que você acha manipulação quando fazem com o seu candidato. É ter dois pesos e duas medidas. Pra você é óbvio que não é assim, mas ai que mora o problema, né. É combater intolerância com mais intolerância, sendo intolerante com quem o é com você.

Jogar limpo é subir de nível. É ouvir em primeiro lugar, com calma e respeito, empatia mesmo se possível. É contra argumentar o ponto central no discurso do outro, de forma educada e clara, sem falácias, sem exageros ou deboches e alfinetadas. É partir da premissa que ninguém ta de sacanagem, que ninguém vota pra foder o país, que todo mundo quer educação, segurança, um país melhor. Que se o outro tem uma posição radicalmente oposta a sua ele deve ter os motivos dele, e que ninguém muda de ideia com o dedo na cara. Que acusar, debochar, demonizar é criar mais distância, que antagonizar é a pior postura possível.

"Ah, mas o outro lado é (X), e pra mim é impossível conversar com alguém que seja a favor de (Y)". O outro lado se vê assim? Ele concorda com a sua opinião? Se não, é um roubo de identidade. É ser paternalista e arrogante e nem considerar a possibilidade de estar errado (ou enganado), de que alguém possa ter uma percepção da realidade diferente da sua.

Em questões polêmicas, políticas, que tocam nos nossos valores centrais, é natural nos sentirmos atacados no nosso âmago. E a reação instintiva é lutar contra, é sentir raiva e querer usar esse potente combustível. É querer pegar o caminho mais rápido, o atalho, que é descer de nível e bater de frente, fogo contra fogo. Pra mim esse é o maior erro. É jogar sujo, e gastar mais do que se pode no cartão de crédito.

Jogar limpo é mais difícil, mais trabalhoso, pois nos força a subir de nível. Isso é lento, é fora da zona de conforto. Eu tenho que ler mais, estudar mais, me controlar mais e gastar mais energia. Se uma postura é usar um crédito, essa é fazer um investimento. Eu fico sem o que eu queria agora, mas lá na frente os rendimentos chegam. Creio ser esse o melhor tipo de investimento possível, a melhor postura, na capoeira, na política e na vida.

Axé!

(ps. Na capoeira, "axé" representa força, ânimo e energia. É usado como saudação de chegada ou saída, e como uma forma de desejar energia ao próximo).


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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