felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre Atenção Política

Porque falar sobre o candidato a presidência pode ser parte do problema


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Premissa: A atenção ou interesse pela política é um recurso escasso.

Ele não chega a ser ‘não renovável’, e pra um único indivíduo certamente a regra pode não se aplicar, mas acredito que para um grande número de pessoas, em particular o eleitorado brasileiro, esse recurso é limitado, e quanto mais se consome, menos sobra.

Como um músculo, que ao ser utilizado se esgota e fica incapaz de realizar a mesma atividade até se recuperar. E, assim como o músculo, é possível que o uso repetido o fortaleça, mas apenas se feito corretamente. O mal uso tanto da atenção à política quanto dos exercícios físicos pode gerar o resultado oposto ao esperado. Maior alienação e ser manipulado no caso da política, pouco desenvolvimento ou até lesões no caso do corpo.

O interesse na política pelo eleitorado brasileiro é um recurso valioso, a base da democracia, e o mal uso desse recurso resulta em péssimos políticos (incompetentes e/ou corruptos). Péssimos políticos acarretam numa má gestão e todas as mazelas sociais possíveis e imagináveis (falta de educação, saúde, segurança, saneamento, etc).

O bom uso desse recurso resulta em bons políticos, boas propostas de governo e uma gestão eficiente. Simplificando muito, é claro.

Assim sendo, toda e qualquer ação que melhora o uso desse recurso é positiva, e toda e qualquer ação que estimula ou potencializa o mau uso desse recurso é danosa.

Se aceitarmos outra premissa, de que para o grande público esse recurso é quase inexistente ao longo dos anos exceto em períodos de eleição, vemos uma causa raiz do problema. Outro problema, menor mas ainda assim consideravelmente grande, é o direcionamento desse foco ou interesse político. Sendo um recurso escasso (ou semi-escasso), o seu uso incorre num custo de oportunidade. Prestar atenção em algo exige necessariamente não prestar atenção em outro algo. Como um aluno na véspera da prova com mais matéria pra estudar do que tempo hábil. Cada assunto estudado significa que outro ficou de fora.

Como o aluno, temos que escolher o que priorizar, o que merece a nossa atenção e o que é menos importante. Diferente do aluno, esse processo não é individual, uma vez que vivemos em sociedade (o que no caso de decisões políticas é auto-evidente). Assim, o que decidimos focar, ler, falar e agir sobre influencia - e é influenciado - pela sociedade em larga escala. Assim como o voto, cada pequena ação é um mini-empurrão na importância daquele assunto.

A máxima “não existe publicidade ruim” existe por um motivo - ela é real. Falar mal é falar, é trazer atenção a esse assunto e muitas vezes com o resultado oposto ao esperado: a pessoa argumenta contra o ponto A, mas em muitos casos o ouvinte acaba ainda mais convencido a favor do ponto A.

Assim cada assunto ou tópico deveria receber a nossa atenção na medida da sua importância. Se um assunto passa a receber atenção demais devemos agir de forma a reduzir isso, e se recebe de menos, devemos agir de forma a aumentar - na medida da nossa capacidade e na premissa de que a ação mais eficaz para a sociedade é mais importante pra nós do que outras motivações para dar atenção ao assunto. Ou seja, mesmo se eu aceitar que falar sobre um assunto pode ser pior no panorama geral, eu posso preferir falar pelo prazer imediato que sinto. O pequeno custo no nível da sociedade me é menos importante que o prazer no nível pessoal, que tenho em sentir que respondi fulano, desmoralizei ciclano ou dei vazão a alguma emoção.

Outra premissa é a de que nossa percepção da realidade é uma função do que vemos. O tipo de notícias, opiniões e informações que nos chegam (em quantidade e qualidade) influenciam fortemente a nossa posição e o nosso interesse em todos os assuntos.

Vivemos todos numa bolha de informação, e isso não é teoria da conspiração. Os anúncios, artigos e publicações que aparecem pra vc são definidos de acordo com o que vc clica ou não (no universo virtual). A mídia funciona em um ciclo que se retro-alimenta. O que gera mais cliques gera mais receita, logo, independente da qualidade do conteúdo, é isso que será criado e divulgado pelos canais. Isso alimenta a desinformação e cria um ambiente propenso a fake news, manipulação e uma percepção distorcida e/ou incompleta da realidade. O grosso da nossa informação ocorre de forma reativa, a partir do que nos chega.

Quando vc está no seu carro ou ônibus vc não está preso no trânsito, vc é o trânsito. Vc faz parte dessa realidade. Digo o mesmo da distribuição do valioso recurso “atenção”. No caso da política, essa atenção define o tipo de político que teremos.

Elegemos os políticos com base nas informações que temos deles. Ninguém vota em um político que acha que vai ser ruim, então se elegemos maus políticos é por estarmos desinformados ou mal informados a respeito deles.

Podemos estar mal informados por não termos acesso à informação - pois esse recurso foi consumido em coisas menos importantes, ou por termos aceitado uma informação ruim - informação parcial, mentirosa ou manipulada.

Acredito firmemente que nosso dever cívico cada vez mais pesa sobre o tipo de informação que consumimos e regurgitamos, o que entra e o que sai. Cada meme, cada textinho e textão, cada conversa de bar e piada contam. O que escolhemos prestar atenção, o que escolhemos falar é tão importante quanto o que escolhemos não falar. O silêncio ativo é muitas vezes mais eficaz do que a contra-argumentação. A forma do diálogo, a mídia que usamos e o espaço no qual a troca de informações se dá também é de fundamental importância. Não se pode ter uma conversa profunda aos gritos, não se pode falar sério apenas com manchetes. Não se combate intolerância com intolerância.

Somos motivados mais facilmente pelas emoções negativas. Notícias que nos geram raiva, asco, revolta e indignação são mais eficientes em nos roubar uma resposta, um clique, um comentário do que algo mais comedido e ponderado. Como a realidade nem sempre é polarizante, a mídia adapta, manipula, força outro ângulo (e muito mais). O ambiente virtual em que vivemos depende de cliques e envolvimento - é a forma que são pagos, é a métrica de sucesso. Assim, o sistema tem toda a motivação pra ser superficial e polêmico, falar mais do que já sabemos e ser curto o suficiente pra envolver apenas o mínimo necessário. São eles que de forma mais imediata capitalizam esse recurso, que transformam ‘atenção’ em dinheiro. Mas todo mau investimento cobra seu preço, e no caso da mídia esse custo é externalizado, e nós, enquanto sociedade, pagamos pela atenção mal investida da forma mais cara possível - péssimos políticos.

Dito isso, acho mais importante dedicarmos atenção aos deputados e senadores do que ao presidente, por exemplo. Então cada minuto falando de candidatos à presidência são minutos perdidos (que nunca serão recuperados) pra se falar de deputados e senadores. Cada artigo sobre a nova barbaridade dita por um candidato é um artigo não lido (e não escrito em última instância) sobre as propostas de leis para a educação, da saúde, sobre o uso de agrotóxicos, privatização ou estatização de recursos. Isso se aplica ao período de eleições tanto quanto ao resto dos dias e assuntos. Naturalmente, cada um deve julgar o quanto acha que é o "falar demais" em cada caso.

A política é um jogo longo, vence quem persiste e consegue manter o foco míope da população - assim erros passados são esquecidos e o processo de desinformação mantém o poder na mão dos que melhor enganam.

Uma última arma a favor da apatia é a Disfunção Narcotizante - o fato de confundirmos conhecer os problemas cotidianos com o fato de atuar sobre eles. O uso da “atenção” dá uma sensação de dever cumprido, e diminui a necessidade interna de outras ações. Mais um motivo pra reconhecermos o poder e a força desse recurso tão escasso, valioso e mal utilizado.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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