felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Um mês dando dinheiro a todos que pediam

Sobre dar esmolas, a visão micro e macro, empatia e racionalizações.


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Eu fiz um experimento de dar dinheiro pra todos que pediam por 30 dias. O que inclui todas as pessoas fazendo performances (os artistas pedintes), moradores de rua, amigos com projetos em crowdfundings, gente precisando de apoio para um festival ou que fosse. Não consegui cumprir 100%, houveram pessoas pra quem não dei, em alguns casos pois estava sem dinheiro na hora, ou a pessoa estava muito longe e eu com pressa, e diversas pequenas variações que, se eu estivesse mais comprometido, poderia ter superado. Ainda assim, achei o experimento extremamente interessante e revelador. Aprendi um bocado sobre mim.

A minha maior motivação pra fazer isso foi a minha própria pão-durice. Não me acho excepcionalmente pão duro, mas mais do que gostaria de ser. Objetivamente, não acho que é essa a imagem que passo. Não tenho problemas em gastar, nem comigo, nem com os outros. Se saio com amigos prefiro prefiro pagar um pouco mais do que consumi, sei dar bons presentes, gosto de coisas eficiente e boas, e de ajudar as pessoas, financeiramente ou não.

Mas ainda assim, sou mais pão duro do que gostaria de ser. E a forma como percebo isso é na pequena felicidade quando economizo mais do que esperava, e no pequeno desconforto em gastar, especialmente quando é um gasto inesperado. Na pequena trava que tenho em dar dinheiro. Usei a palavra “pequena” várias vezes, pois acho que é algo assim mesmo, não é tão notável, mas é o suficiente pra eu perceber que existe. Me peguei várias vezes racionalizando motivos pra não dar dinheiro pra alguém. Depois eu pensei bem e, por mais que ainda concorde com a racionalização, sabia que tinha uma motivação diferente por trás. Então fiz o teste. Decidi que ia dar dinheiro pra todos, todo mundo, sem excessão. Assim eu tinha uma variável a menos e podia analisar o resto, ver o quanto era a minha pão-durice racionalizada.

O resultado foi bem revelador sobre mim mesmo. Em nenhum caso eu me arrependi de ter dado o dinheiro. Muitos eu senti uma boa resistência na hora. Especialmente pra pedintes que não eram evidentemente pobres, como músicos e outros “brancos e bem vestidos”. Meus próprios preconceitos se mostraram, e isso foi importante pra mim. A minha lógica final é que se a pessoa está pedindo, ela tem os motivos dela. Se ela mente pra tentar me enganar ou se é a forma dela de lidar com a realidade, ok. As vezes ela ta precisando se achar melhor do que eu, me enrolar e tirar um dinheiro de mim. O morador de rua que diz que quer a fralda pro irmão, se estiver mentindo, beleza, ele não vai ficar milionário assim, na verdade, vai dormir num papelão no fim do dia, tomar dura de policial, ser esculachado por tantos outros. Se ele ganhou, 10, 20, 100 reais a mais assim num dia, mesmo que gaste com besteira, drogas, bebida, quantos amigos meus, de uma escola particular com carro e motorista não faziam o mesmo com suas mesadas?

Eu gastei muito dinheiro mal. Vi muito amigo fazendo cada burrada que até hoje me impressiona. Mas os pais ajudaram, encheram o tanque de novo. Lógico que muitos casos com um sermão, algumas famílias eram menos levianas que outras, mas ainda assim, gastamos de forma supérflua e agora acho que errando pude aprender a ser mais consciente com o dinheiro. Felizmente eu pude ter essa fase de aprendizado. Pude errar e ter meus erros amortecidos e suavizados, passaram a mão na minha cabeça e disseram que tudo bem, errar é humano. E os que ainda gastam mal, é isso, eles têm, podem se dar esse luxo, em algum momento cada um vai colher o que planta. Mas meu ponto é que quem ta pedindo entende que ta precisando, e ta tentando da forma que lhe compete. Um mendigo tem os mesmos direitos de gastar mal o dinheiro, sofrendo literalmente na pele as consequências dos seus erros.

O meu maior dilema é entre o macro e o micro. Na visão macro, que quase sempre dominou minha forma de pensar nesse assunto, tem vários casos onde não ajudar é mais coerente, pois ajudar é premiar aquele comportamento, de pedir, de morar na rua, é facilitar esse estilo de vida de alguma forma, e, portanto, estimular a sua continuação. E eu não quero compactuar com isso.

No caso micro, é ver aquela pessoa, aquela excessão. Ele ta com fome, to vendo que ta sem nada, ferrado, fodido. Ajudar essa pessoa é tem empatia, é ver o indivíduo e não a classe, a pessoa e não só o grupo ao qual ele pertence. É ver o Humberto, a Gleice, a Gislaine e não “mais um pivete”.

Quando vemos algo de longe conseguimos ver mais, vemos mais longe, vemos o “panorama geral”. Mas vemos menos também, pois tudo fica menor, menos importante. Do avião vemos a cidade inteira. A pé vemos as rachaduras da estrada e as conchas na areia. Nenhuma visão é boa ou má, são ambas diferentes, ambas retratos incompletos da realidade.

Participei ativamente do Ruas, uma ONG, e toda terça à noite eu conversava algumas horas com moradores de rua. Com o tempo eles foram ganhando intimidade e confiança (eram quase sempre os mesmos), e pude conhecer mais a história de cada um. Algumas bizarramente tristes e surreais, outras mais de azar e preguiça, muita droga e fortes questões familiares. Não é meu objetivo entrar em detalhes aqui, mas a grande mudança em mim foi, em relação a moradores de rua, ir do macro ao micro. Sair da minha mente intelectual que entende ou pensa no problema pelos aspectos sócio-econômicos, como questão de política pública, de saúde, de segurança, aquela visão racional e de longe. Mesmo quando eu me preocupava com os moradores de rua, antes, eles sempre foram em grande medida um bloco na minha mente, uma caixinha só com todos eles. Velho, criança, pivete, flanelinha, deficientes físicos e mentais, se ta morando na rua, se ta pedindo esmola, é mendigo, é morador de rua.

Depois de um tempo conversando com muitos deles, vi que cada caso é um caso. Muitos podem ser mais gerais, existem coisas em comum, mas agora existem bem mais caixinhas na minha mente quando penso neles. Não generalizo tanto. Tem ex-presidiário, um grupo com características e dificuldades próprias. Tem os dependentes químicos brabos (pois usuário quase todos são). Tem os que fugiram de casa, ou foram expulsos pelo tráfico e não podem voltar. Os que já tiveram boas condições e perderam tudo, tem os mais velhos, que estão na rua a vida inteira, os que tem uma casa pra voltar mas que preferem a rua, os que estão revoltados e perdidos.. são muitos grupos, muitas categorias. Não é tudo a mesma coisa, e não dá pra lidar com todos da mesma forma. Quando permito minha cabeça voltar pro macro, vejo que nenhuma política que seja cega às essas diferenças vai conseguir ser útil, eficaz, ou mesmo humana. Mas, novamente, essa é outra conversa.

Eu achei curioso como nos momentos que a pessoa que me aparecia na posição de pedinte e não encaixa com o meu preconceito, quando ela não parecia extremamente necessitada, eu tinha uma trava. Como tinha me comprometido a doar eu fazia, me forçava a superar a barreira inconscientemente auto-imposta, e em muito pouco tempo já estava achando que tinha feito a coisa certa, ou vendo pontos positivos dessa doação.

No final, descobri que o tipo de doação com o qual eu mais concordo de forma racional e emocional é doar para pessoas que estão em situação de necessidade e não estão pedindo. Em geral, moradores de rua que estão catando lixo, catadores de latinha ou pessoas que estão apenas andando, mas claramente numa situação de extrema pobreza e que não se sentem à vontade para pedir esmola. Nesses casos a pessoa sempre fica muito surpresa com a ajuda, bem feliz, e a grande maioria me explica o que vai fazer com o dinheiro - apesar de eu nunca ter perguntado e nem dar a entender que quero conversar. Inclusive, nas primeiras vezes fiquei bem surpreso com essa prestação de contas não solicitada.

Um rapaz pra quem dei 20 reais parou na hora de catar papelões, disse que não precisava mais pois tinha dinheiro pra ir pra casa. Ele parou, os olhos encheram de lágrimas. Me disse que era o aniversário dele, chorou, me abraçou e me deixou bem emocionado. Outro disse que ia inteirar na passagem pra casa, também parou de catar lixo e foi pro ponto de ônibus (outra pessoa, outro dia). Vários só agradecem, alguns ficam sem graça, pois apesar de estarem numa situação de extrema pobreza, não querem pedir e sentem alguma indignidade na esmola. Não sinto que estou atrapalhando, estimulando eles a pedirem ou algo assim. Eu não costumo ficar pra conversar nessas horas, apenas dou o dinheiro, desejo uma boa sorte, ou bom dia/noite e vou embora.

Percebi também que prefiro fazer menos doações de mais dinheiro do que muitas de pouco. Se tenho 200 reais pra doar, prefiro fazer 10 doações de 20 reais do que 100 de 2. Mas tem uma pegadinha aqui. Se eu não decidir a priori um valor pra doar, vou me enganar, vou me sabotar. Vou dizer pra mim mesmo que já doei um dinheiro maior pra fulano e acabar usando isso pra justificar doar menos no geral. A melhor solução que encontrei foi me comprometer com um % do meu dinheiro a doar. Em geral 10 ou 5%. Tendo esse montante definido, ai não racionalizo nem me saboto.

Nesse mês eu fiz de tudo, mas essas “doações maiores” foram as que mais me agradaram. Também gosto muito de pagar a mais por vendedores de rua, garçons de estabelecimento mais humildes. Pessoas para as quais 5, 10, 20 reais a mais vai fazer alguma diferença. Não é nem de longe um mendigo, mas pra quem recebe 900 reais por mês, 20 reais de gorjeta não é só um gesto. Especialmente se o atendimento foi bom, e especialmente pra cargos ou em momentos que não é o normal dar gorjeta. Um garçom já espera os 10%, e ok, pago normalmente. Mas achei interessante pagar a mais no mate da praia, dar um a mais pra moça no caixa do mercado, pro motorista do ônibus. Uma vez dei 50 reais pra um guardador de carros (com o talão da prefeitura), um senhor que era bem tranquilo e fazia um bom trabalho.

Eu continuo, hoje, com a minha postura de não pagar flanelinhas. Durante esse mês eu abri essa excessão, mas depois parei de novo. Não concordo com a abordagem, acho que é agressiva com muita gente, mesmo que a pessoa não seja, a maioria paga por medo do flanelinha arranhar o carro, e eu decidi não pagar mais por isso (a menos que o cara tenha o talão). Acho que dando dinheiro primariamente pra pessoas que não estão pedindo eu não estimulo pedintes, pois depois de ter feito esse experimento continuo com parte da visão macro, de que dar esmola em algumas situações é premiar aquele comportamento.

Foi um experimento que simbolizou uma mudança que já vinha acontecendo em mim, e da qual preciso me lembrar com alguma frequência. Ainda não estou no ponto que gostaria. Ainda sinto alguma resistência a doar dinheiro. Percebi e vivenciei o prazer de ajudar dessa forma, e ainda assim não mudei completamente meus hábitos. Percebi diversos preconceitos que não sabia que tinha ou que subjugava a intensidade.

Existem situações nas quais eu realmente acho que doar dinheiro vai fazer mais mal do que bem, mas ai me forço a doar em outro ambiente, ajudo alguém num crowdfunding ou transfiro pelo Patreon para um autor que admiro. Me comprometer a doar 10% do que ganho faz uma grande diferença. Não precisa ser esmola na rua, existem ongs e diversas instituições sérias por ai.

Não sei se minhas reflexões do assunto são úteis ou tem a valor a mais alguém, mas pra mim foi realmente importante perceber a superficialidade de muitos argumentos que eu tinha para não doar, o papel da minha motivação egoísta que até então agia escondida por trás dos panos e me fazia realmente acreditar nas minhas próprias justificativas.

O embate entre o micro e o macro, entre ter empatia ou distância (ainda que sustentada por uma horda de argumentos econômicos, históricos e psicológicos) não precisa ser um cenário de soma zero, no qual alguém perde pra outro ganhar. É impossível ver um ser humano numa situação de extrema necessidade e não se abalar com isso. Criamos ferramentas para poder lidar com isso, vestimos máscaras, usamos justificativas e até recorremos ao ódio ou desprezo em muitos casos. Não sei se isso é certo ou errado, a questão é mais profunda e complexa, mas tenho certeza que nada de bom vem de acreditarmos nas próprias mentiras, por mais tecnicamente corretas e bem articuladas que sejam. Estou longe de achar uma solução mesmo que apenas pra mim, mas compartilho aqui alguns poucos passos que dei.

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Foto de quando participei do Ruas (tirada sem eu saber) pelo incrível Ilan Vale


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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