felipe moitta

Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Sobre o Racismo Estrutural

Como criamos e somos criados pelas filosofias da nossa sociedade.


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O nossos pensamentos, enquanto sociedade, ficam registrados nas coisas, materiais e imateriais que nos cercam. Vou argumentar aqui que o nosso mundo é composto de um Software e um Hardware, e que nossos preconceitos e filosofias ficam neles materializados.

O software são os hábitos, as formas de conversas, as palavras, ditos populares, expressões idiomáticas, e as normas de boa conduta. O caldo cultural no qual todos somos imersos ao nascer numa sociedade e que só percebemos ao saber de um lugar distante no espaço ou no tempo e notarmos as diferenças. É o que “todo mundo sabe”.

O Hardware são as construções físicas, desde objetos, utensílios do dia-a-dia, roupas, móveis, até os prédios, casas, estradas e praças em que vivemos.

O ser humano é extremamente sensível ao meio em que vive, e ao mesmo tempo que molda é por ele moldado. O artista é como uma antena, que capta os sinais do tempo e local em que vive e os expressa por algum meio. Como são inúmeros os sinais, e diversos os meios, a arte é infinitamente diversa e plural. Assim nascem os filmes, peças, músicas, performances e tantas outras expressões de pessoas que são na verdade expressões de um tempo. Ao ser perguntado, pelos generais invasores na Guerra Civil Espanhola, se ele tinha pintado o quadro Guernica, Pablo Picasso respondeu: “Não, foram vocês que pintaram”.

Mas não só os artistas funcionam como antenas que captam os sinais do meio e os expressam em sua arte. Todo ser humano faz isso de uma forma ou de outra. Nossos pensamentos, o inconsciente e consciente coletivo, vivem assim, nos softwares e hardwares da nossa sociedade.

É falta de educação perguntar a idade a uma dama. Porque? Pois os conceitos cristalizados no dito popular são de que o valor da mulher está intimamente relacionado à sua beleza, e que a juventude é superior à velhice. Que temos medo da morte e vergonha da decrepitude, que fugimos desse assunto. Que a mulher deve lutar contra os avanços do tempo, e nós, como sociedade, devemos ajudar e portanto evitar a pergunta.

Por muito tempo o educado era os homens se levantarem quando uma mulher se juntava à mesa. O homem deve pagar a conta, puxar a cadeira e segurar a porta, sustentar e proteger a mulher. A filosofia que sustenta tais atos são da inferioridade da mulher em relação ao homem. Que a mulher é menos capaz e precisa ser cuidada pelo ó-tão-superior-homem. Falar sobre sexo é tabu pois a igreja por séculos dominou a moral e define que isso é feio, errado, e até hoje, por mais que o tabu venha sendo quebrado, milhares e milhões de pessoas sofrem com os excessos ou faltas na vida sexual. Ainda é algo a ser escondido, e principalmente a mulher é julgada por expor seu corpo e culpada pelas sensações que causam nos homens. A cultura do estupro nada mais é do que a percepção de como essas ideias que permeiam a nossa sociedade se traduzem em atos dos mais danosos. Que um estupro não é um evento isolado no tempo e espaço, mas fruto do meio em que acontece.

O criado-mudo é o nome do móvel que fica ao lado da cama. O nome vem dos escravos que eram obrigados a ficar a noite inteira parados e calados ao lado da cama dos senhores, como verdadeiros objetos sem vida. O móvel materializa a filosofia vigente da época em que foi criado. A copa é outra solução arquitetônica ao dilema de como ter o serviço prestado pelos serviçais e ao mesmo tempo ter a maior distância possível da criadagem? Então cria-se um espaço entre a cozinha e a sala de jantar, para que os senhores não precisem ver, ouvir ou sentir o que se passa na cozinha quente e suja. A casa grande e a senzala naturalmente explicitam esse distanciamento e os conceitos bem diretos da escravidão sobre a superioridade do branco e a desvalorização do negro. Inclusive, daí nasceu a palavra denegrir. Se ser negro é pior, denegrir é piorar.

O politicamente correto só é o chato a quem vive no privilégio sem saber, e se sente incomodado ao ter que mudar. Porquê mudar, pra que mudar? Minha vida é tão boa assim.

Na Alemanha os alunos levantam quando o professor entra na sala. Lá os professores recebem salário muito maiores se comparados ao Brasil. A sociedade respeita mais o professor, e isso se reflete na decisão dos políticos sobre como destinar recursos à educação. Mas o respeito gera os salários altos, ou os salários altos geram o respeito? É um ciclo que se retroalimenta.

O documentário “Crimes de Amor em Kabul” mostra os casos de meninas e mulheres que foram presas por adultério em países muçulmanos. Em muitos casos o crime foi ter sido encontrada conversando com outro homem sem a companhia de um pai ou irmão. Homosexualismo é contra a lei em diversos países, e até pouco tempo um homem podia legalmente assassinar a esposa se ela o estivesse traindo. Os hábitos e normas de conduta moldam as leis e são igualmente por elas moldados.

A nossa relação com o meio é uma via de mão de dupla, em constante movimento, eterna mutação. Eu levei muito tempo pra entender o que significava o termo “Racismo Estrutural”. (e não acho que entendi totalmente).

Toda forma de pensar se materializa nos softwares e hardwares, no tecido material e imaterial do qual é tecida a nossa civilização, e quanto mais tempo uma filosofia perdura, tanto mais profundas as raízes dela na nossa sociedade. As opressões da superioridade branca, masculina, hétero, cristã e tantas outras viveram e ainda vivem nas ideias e nas coisas. Por isso existe um racismo, machismo e tantos outros ismos de opressões estruturais.

O quartinho de empregada, tão comum, nada mais é do que uma versão adaptada da senzala. Os recursos e espaços não são mais os do Colonialismo, mas a filosofia subjacente de separação e distanciamento é a mesma. Temos esses conceitos vivos na arquitetura e engenharia civil, que constroem entradas separadas ao serviçais nos prédios, quartos desproporcionalmente menores, em geral sem janelas e na cozinha, juntamente com um banheiro pra criadagem.

Isso significa que você, por ter um quarto de empregada, usar um criado-mudo ou achar falta de educação perguntar a idade de uma mulher é racista e machista?

Não. Nem de longe. Isso apenas significa que ter clareza da história é compreender como chegamos aqui, que séculos de opressão não somem facilmente. Que não basta acreditar intelectualmente que somos iguais, mas que essas crenças precisam de muito tempo e esforço para penetrarem tão profundamente quanto seus opostos. Que fazer nada é ser opressor pois o sistema é opressor, o hardware e software em que vivemos foram desenvolvidos em um mundo majoritariamente opressor, e essa opressão existe a tanto tempo que parece normal, não a vemos, assim como o peixe não percebe a água. Pra ficar num mesmo lugar num rio não basta não fazer nada, você precisa ativamente nadar contra a corrente.

Por isso que não basta ser neutro, é necessário ser anti-racismo, anti-machismo, anti-homofobia, anti-opressões que são baseadas em filosofias e visões de mundo com as quais discordamos. Por isso as coisas mudam. O humor é um dos canais de expressão artística, e com o tempo piadas ganham e perdem a graça. Eu hoje realmente não acho engraçado piadas de loira burra, e não por que me policio e me forço a isso, mas porque esse tema não me toca mais.

O racismo estrutural existe pois por séculos ele coexistiu com a criação do mundo em que hoje vivemos. As filosofias de desrespeito à mulher, à criança, aos homosexuais, aos animais, à natureza, todas fazem parte de uma visão de mundo que conflita com o que hoje sabemos. Os conceitos de certo e errado, bom e mau mudam com o tempo, e precisamos compreender e agir ativamente, de forma a criar um mundo que represente as nossas crenças. E conforme as crenças evoluem, o mundo se transforma, e o mundo transforma as crenças numa dança eterna que segue ao longo do tempo. Cabe a cada um a decisão de como dançar nesse momento.


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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