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Reflexões, pensamentos e um convite à toda troca construtiva

Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal.

Não é seu lugar de Fala


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Observar crianças brincando é sempre interessante.

Existem diversas formas de agruparmos e separarmos as pessoas. Qualquer característica em comum é motivo pra unir um grupo. Dependendo do ambiente, uma característica ganha ou perde importância. No colégio agrupamos os alunos pelo ano de fabricação. Cada turma é um conjunto de pessoas que nasceu no mesmo ano. Não é exatamente óbvio que deva ser assim, haja visto que as pessoas se desenvolvem em ritmos diferentes. No ambiente de lutas profissionais, separam-se as pessoas por faixas de peso. Mundialmente vamos com o local do nascimento. Outros clássicos são a cor da pele, o time que escolheu torcer, estilo musical, quantidade de dinheiro, etc.

Como animais sociais que somos, evoluímos vivendo em tribos. O critério de pertencimento, a forma de entrar e sair da tribo no passado era bem simples: nascimento e morte. Hoje em dia muita coisa mudou, mas ainda gostamos de pertencer a tribos. E qualquer característica em comum pode ser critério para a definição de um grupo.

Outro dia observei um grupo de crianças brincando no play do meu prédio. Uma das meninas claramente não gostava de uma outra. Dava pra ver ela incomodada, olhando a outra interagindo com o grupo, e ela ficou um tempo observando, até que em algum momento ela disse “ta bom, agora a gente vai entrar na casinha pra brincar, mas só pode ir quem ta de sapato porque a casa é nova”. Ela tava falando de uma casinha dessas de plástico, e obviamente que a única que estava descalça era a tal menina que por algum motivo virou o desafeto da outra. Assim que ela disse isso todas olharam os próprios pés, e cada uma que estava de sapato ficou aliviada e entrou. A que estava descalça ficou parada sem saber o que fazer. A pequena ditadora então deu as costas pra ela, entrou na casinha e foi seguida pelas demais. A que ficou de fora foi correndo pra mãe.

Pouco tempo depois volta ela, toda feliz de sapato, e é mais uma vez impedida de entrar na brincadeira. No meio de uma breve discussão infantil a mãe intervém e pergunta porque ela não pode brincar. A outra, que antes criou a regra do sapato, agora tentava uma séries de pequenos argumentos, mas infelizmente sua capacidade argumentativa, aparentemente tão eficaz com oponentes da mesma idade, se provaram insuficientes contra uma mãe.

A motivação e a tentativa de racionalização na criança são engraçadas, pois ela ainda é incapaz de esconder bem seus motivos por trás de uma cortina de justificativas. Mas ela vai continuar a fazer isso, vai melhorar, e quando chegar à fase adulta estará tão boa quanto cada um de nós. Somos experts nessa arte de racionalizar e esconder motivos, muitas vezes até de nós mesmos.

Achamos graça no comportamento da criança exatamente por ele ser um espelho simplificado de nós mesmos. O riso é meio que roubado, é forçado pra fora ao percebermos uma verdade crua, explícita, que em algum nível mostra exatamente quem somos e o que fazemos. Rimos da inexperiência da criança em tentar justificar uma vontade boba, mas o riso se refere à falta de habilidade, não no fato dela querer fazer isso pra começo de conversa. Pois sabemos que somos todas assim.

O clube de ricos, o Iate clube, o clube do charuto ou do poker, são adultos dizendo que o outro não pode entrar porque ele não ta de sapato. É a menininha no play, mas agora ela é grande e entende como o mundo funciona. Agora ela escreve as regras de quem pode entrar na casinha, coloca um segurança de terno na porta e a vida segue. Não tem mais mãe pra argumentar.

Uma coisa que parei pra pensar sobre as discussões que vi recentemente foi sobre o lugar de fala. Vi muitas pessoas divulgando a ideia de que apenas quem tem X (inclua aqui o que quiser) pode falar sobre tal assunto. É novamente o sapato pra entrar na casinha.

A escolha de qual característica é a que deve ser levada em conta não é um axioma, uma verdade absoluta, e por mais óbvia que pareça, ainda é subjetiva, tem muita, muita gente que pode e vai discordar dela.

É interessante perceber como coisas que são auto evidentes pra nós muitas vezes são apenas hábitos bem comuns, mas no final, não tão auto-evidentes assim. Bater palmas. É algo que fazemos a vida toda, mas se parar pra pensar, juntar e separar as mãos em um curto intervalo de tempo não tem uma conexão evidente com apreciação.

Existem infinitas regras possíveis sobre lugar de fala.

Um grupo de filósofos pode defender que apenas quem é formado em filosofia pode argumentar publicamente sobre qualquer assunto, uma vez que a arte da argumentação é estudada pela filosofia, e os leigos no assunto irão apenas falar falácias e gerar mais confusão. O lugar de fala então, é exclusivo dos filósofos. Esse é o sapato pra entrar na casinha.

Pense num tema polêmico como o aborto por exemplo. Um grupo de médicos argumenta que só quem entende tecnicamente do assunto pode opinar. Só médicos formados entendem do desenvolvimento embrionário e dos conceitos indispensáveis à uma discussão do assunto.

Outro grupo diz que apenas que tem útero tem lugar de fala, pois é uma questão sumariamente pessoal e particular. Já um sociólogo diz que a sociedade depende do nascimento, que o ser humano não é individual, e que o tema do nascimento diz respeito a todo o grupo, e que a experiência é o indispensável, assim o lugar de fala são dos mais velhos. Apenas quem tem mais de 60 anos pode votar sobre tal assunto.

Já uma astróloga sugere que apenas os cancerianos tem direito ao lugar de fala sobre o aborto, pois é um signo mais cuidadoso e em sinergia com esse tema. Outro cidadão diz que o lugar de fala é apenas de quem tem filhos, pois só esses sabem do que poderiam perder. Outro diz que é dos que tem mais de 1,70m, ou dos que gostam de ambrosia.

Existem infinitas regras, infinitas variações de “não pode entrar na casinha quem ta sem sapato”.

Pode parecer óbvio, tão ridiculamente óbvio que chega a dar raiva que só quem é mulher deveria falar sobre o aborto. Mas pra alguém já foi igualmente óbvio que o negro deveria ser escravizado. Talvez pra alguém realmente só os cancerianos devessem ter o lugar de fala. É uma crença legítima pra essa pessoa. E todas são subjetivas. Todas.

Não é subjetivo que o feto se desenvolva no útero, mas que a decisão sobre o lugar de fala seja da mulher, isso sim. Eu não estou dizendo que não deveria ser, apenas que é uma decisão subjetiva e não-óbvia.

Entendo a lógica do lugar de fala ser uma postura compensatória. Por tanto tempo a nossa sociedade foi machista e opressora com as mulheres que é correto elas retomarem o controle, é justo lutar pelo seu espaço. Esse é apenas um exemplo de tema polêmico, substitua por qualquer outro e faça o exercício mental.

Em argumentação, existe uma estratégia chamada “ataque ao boneco de palha” (straw man), que consistem em criar uma exemplo ridículo do oponente e atacar esse exemplo, e não a pessoa ou argumento real. É uma falácia, um “golpe baixo” em termos de argumentação.

Por exemplo se eu digo que o gasto com as forças armadas são enormes e poderiam ser reduzidos, e a pessoa responde “você não valoriza o exército e quer deixar o país sem defesa”. Isso é um “ataque ao boneco de palha”. Ela não argumentou comigo, com meu ponto, mas com uma versão exagerada e irracional do que eu falei.

O canal “mamãe falei” faz basicamente uma versão do "boneco de palha" real. Qualquer grupo grande o suficiente tem “idiotas”, tem pessoas que estão lá pelos motivos errados, que são menos articuladas, impulsivas e que falam besteira, particularmente sob pressão. O que ele faz é escolher temas polêmicos, políticos, e busca em manifestações até encontrar alguém que represente esse boneco de palha. Dado que ele controla o material, está num terreno seguro. Ele pode deletar ou editar as entrevistas até encontrar uma que contenha besteiras ditas, que vá render mais visualizações. Qualquer pessoa que não se mostre um idiota, ou que mostre que ele é um, fica fora do material que vai ao ar (ou ao youtube, no caso).

Uma posição oposta foi criada e chamada de “steelman”, que seria ‘o homem de aço’, que consiste em fortalecer o argumento do oponente e ai sim atacar essa posição. Essa opção oposta me interessa mais. É a que o professor do curso mais famoso de filosofia política de Harvard fazia com maestria. O Michael Sandel trazia temas polêmicos aos alunos durante as aulas, e fomentava debates. Mas ao invés de buscar a pior versão da opinião do aluno sobre o tema, ele melhorava cada opinião, sendo capaz de encontrar parte de uma resposta e relacionar com a posição de algum filósofo famoso e “melhorar” o argumento da pessoa.

Por exemplo, numa discussão sobre se o alistamento militar deveria ou não ser obrigatório, uma aluna diz que não, que a pessoa devia poder pagar pra não ir dado que tenha alguém querendo essa função e emprego, que assim o estado poderia usar esse dinheiro de forma eficiente e todos saem ganhando. Ai o professor, logo relaciona a posição dela com a do filósofo John Stuart Mill, que defendia a tese do utilitarismo, na qual as escolhas mais sensatas são as que geram a maior utilidade para o maior número de pessoas, e pergunta se ela está de acordo com isso. Ainda inclui exemplos de outros ambientes nos quais algo assim aconteceu, no bem que é gerado e como esse dinheiro poderia ser utilizado, cria um cenário ideal e convida o próximo a argumentar contra esse ponto, já fortalecido. E faz o mesmo com cada argumento que aparece. Se a pessoa se confunde ou se expressa mal ele sempre pede pra ela reformular, dá mais tempo, sugere opções e exemplos se for o caso, faz o possível pra tirar o melhor argumento e a opinião de forma mais clara e precisa da pessoa.

As duas pessoas se propõem a fazer a mesma coisa. A grosso modo, tanto o cara do mamãe falei quanto o professor de Harvard fomentam o debate público sobre assuntos importantes. Ambos entendem a importância de lidar com o público e dominam, pela experiências, diversas formas de fazer isso. Sabem que as pessoas podem ser irracionais ou incoerentes ao falar suas opiniões. Que muita gente fica confusa e tem crenças fortemente enraizadas mesmo que se mostrem incapazes de verbalizar corretamente, e que fiquem nervosas e incomodadas ao descobrir furos lógicos e falta de informação sobre um assunto.

A grande diferença está principalmente no objetivo de cada um. Um busca desmerecer e debochar de uma posição, gosta de achar caricaturas e expor o ridículo de cada um, enquanto o outro busca fortalecer as pessoas e suas posições, ajuda a argumentar e expor sua opinião da melhor forma possível. E o objetivo é certamente diferente, não é a toa que um busca o máximo de visualizações no youtube enquanto o outro é um professor que quer ensinar, quer que cada um se torne mais consciente da importância do debate respeitoso, de se conhecer melhor e compreender as consequência e raízes de suas posições políticas.

É irônico que, mesmo sem querer, o canal do professor tenha mais visualizações que o outro. Um grupo pediu pra filmar suas aulas, ele permitiu, e depois se surpreendeu com o interesse internacional que suas aulas receberam. O outro canal usa todas as estratégias de marketing e com o tempo conseguiu uma base fãs que os sustenta.

Ambos percebem um ponto fraco que temos sobre nossas opiniões e posições políticas. Ambos ganham a vida, tem profissões em relação a essa característica das pessoas. Só que um ganha dinheiro com o deboche, encontrando ângulos que exponham pessoas ao ridículo, enquanto o outro busca esclarecer e ajudar as pessoas a terem conversas mais profundas e a gerar mudanças reais na sociedade. Um ganha dinheiro diminuindo as pessoas de um grupo, enquanto o outro ganha elevando todas indistintamente.

Algumas meninas ficam buscando formas de impedir a outra de entrar na casinha, enquanto outras buscam formas de convidá-las. Quem é você nesse play?


Felipe Moitta

Felipe Moitta, Consultor de Gestão e Desenvolvimento Pessoal. .
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