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Sobre sentir um pouco aquilo que nos cerca...

Karine Velasco

Gaúcha, psicóloga, 26 anos, atua na área clínica.
Gosto de música, bons livros, cinema e tudo aquilo que seja capaz de gerar reflexões, ou seja, a vida em si.

Me espera (Eu)!

A música intitulada “Me espera” da cantora Sandy, com participação do cantor Tiago Iorc, pode remeter para além das relações conjugais que o próprio clipe representa. Podemos fazer um recorte focando o nosso Eu, diante de tantos desencontros conosco. Talvez, antes de nos inventar no outro, quem sabe precisamos nos debater e perceber quem realmente somos em meio a tempestades a fim de não desmoronarmos com os tornados que iremos esbarrar na vida. Ou melhor, nos depararmos com quem realmente somos, seja na calmaria ou agitação interna.


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E se olhares para o espelho, quanto tempo acha que ainda resta? Quantas partes inteiras ainda consegue salvar? Quantos cacos de vidro você possui? E você ainda está aí, mesmo que perdido em mil versões irreais... Versões estas, que se apresentam durante o dia, variando as situações. Podemos ter as versões melancólicas, paranoicas, deprimidas, eufóricas; tudo irá depender a forma como o meio externo irá no atingir. Já parou para pensar o quanto essas versões são máscaras que utilizamos, pois lidar com o real pode estar insustentável? Então, atuamos como excelentes atores, pois mostrar a cara limpa, por vezes custa caro. É um caminho mais fácil nos apropriar da felicidade líquida do que sentirmos ela na essência.

Você ainda se enxerga por trás de todo o caos? Quem o move? O meio externo ou interno (você)? Será que só a vida se fez responsável? Será que não temos uma responsabilidade? Parece ser um caminho mais fácil deslocarmos a culpa ao invés de assumirmos nossa responsabilidade. Aí você pode se questionar – Mas que responsabilidade tenho eu com a vida? – Oh meu querido(a), temos uma responsabilidade e tanto ... Somos responsáveis por tudo que sentimos, e como sustentamos, e para onde direcionamos nossos sentimentos, sensações, emoções ...

E se você pudesse se olhar no espelho agora, consegue se reconhecer no temporal? Consegue encontrar aquela criança, aqueles sonhos que podem estar perdidos? Você consegue se encontrar quando se depara com seu olhar? O que vê? O que sente? Encontra-se feliz? Triste? O quanto possui a sensação de realização na vida? Aceita o que deixou para trás?

Se meu conselho for válido, tenta não se acostumar com as mesmices impostas por você mesmo. Às vezes somos nossos piores inimigos, mesmo diante de inimizades que fomos “ganhando” durante a vida. Não caia na rotina que te prende em comportamentos em vãos, seja mais que isso. Permita-se variar a cada dia, como por exemplo, mudar o trajeto de casa. Pode ser uma demonstração boba de mudança, mas se estamos abertos para a vida, faz toda a diferença.

Mesmo diante das dificuldades, não se esqueça de você. Não esqueça a criança que foi, do adulto que é, procure sua essência em meio a tornados. Se desde criança esses tornados mostraram-se presentes, significativos e atuantes, tente olhar para tudo que já enfrentou mesmo que aos trancos e barrancos acabou por superando. Se precisar de um tempo para “explodir” frente à pressão imposta ... Tudo bem, eu respeito esse momento. Mas, não esqueça que essas explosões devem ser por formas benéficas para simplesmente exteriorizar sensações. Não exploda com atitudes que possa marcar a vida.

Entenda que há momentos importantes para nos dedicarmos a olhar no fundo dos nossos olhos. Fale para você mesmo “volto já”, exteriorize e não guarde para si aquilo que te incomoda, e repita inúmeras vezes “me espera”. Irá repetir para si, mas isso nada mais é do que formas de reconhecer o lado “anjinho” que todos temos e não dar vazão para os “diabinhos” que rondam nossos ouvidos. Esse anjinho a quem digo para escutar, não consiste em ser bom para tudo e para todos, e sim, manter-se firme na vida, ter o controle das rédeas, mesmo se por ventura, o cavalo despencar barrancos, não deixando o “ser malandro” te governar por tanto tempo.

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A quem lê esses parágrafos, pode pensar que eu nunca me perdi e sempre fui centrada ... Ah quem dera, meu caro leitor. Desilusões fazem parte da vida, mas o importante é não ceder a elas, nem dar lugar para um “eu” que não tem nada a ver com o que acredita ser você. Sei que o meio externo é carregado de provas a que somos submetidos diariamente... Quem não consegue perder a linha: meus sinceros parabéns e nos faça o favor de passar a receita.

Acredito que o essencial seja não esquecer de quem somos, uma tarefa um tanto quanto difícil, tendo em vista os vícios que permeiam nossa sociedade. Nos identificar, também não é uma tarefa fácil, talvez leve uma vida toda, talvez uma vida seja pouco. Porém, se nos mostramos abertos a essa questão – de entrarmos em contato conosco e irmos descobrindo quem somos - poderemos chegar perto de termos noção da nossa constituição, seja por contribuições do meio social e familiar que vivemos e daquilo que formamos para nós. Quem sabe, essa visão auxilie a distinguir o quanto devemos ao outro, aquilo de positivo que possuímos. Todavia, não menospreze-se e saiba valorizar os “monumentos” que você mesmo ergueu.

As tempestades da vida fazem parte e está a nossa mercê, deslocando-nos. Observando cada descuido, cada desequilíbrio para nos atacar. No entanto, ela não é a vilã mor. Podemos manifestar raiva, desgosto, tristeza, nos deslumbrar com a vaidade de achar que podemos enfrentar tudo sozinhos, perder o foco, o chão que nos sustenta, até mesmo o ar. Tudo isso por permitirmos que nosso ponto de equilíbrio se desmanche como a água da chuva que cai violentamente do céu. Mas, elas também podem ser uma aliada, pois apesar dos danos é preciso enxergar a esperança que ela deposita no amanhã a espera do sol aquecer.

Quando escrevo todas essas comparações em meio a metáforas, quero te fazer refletir da importância de nos reconhecer através do olhar. Retirar nossas máscaras, medos e fantasias, para perceber que antes de outro alguém, quem deve ser o fio para guiar de volta ao nosso equilíbrio é você. As pessoas ao nosso redor nos auxiliam, nos complementam ao que somos, mas ninguém pode preencher um espaço que está reservado, especialmente, a primeira pessoa do singular – EU(VOCÊ).

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Não se esqueça: mesmo em meio a tempestades, você ainda está ai - não se perca.

Revisores: João G. Velasco


Karine Velasco

Gaúcha, psicóloga, 26 anos, atua na área clínica. Gosto de música, bons livros, cinema e tudo aquilo que seja capaz de gerar reflexões, ou seja, a vida em si. .
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