filhos do monólito

A fluida geração que transcende à solidez (ou deveria)

Alexei Amorim

É tudo uma ficção. Pelo menos por aqui... Seja bem-vindo ao "Filhos do Monólito"!

Macacos, sociedade e humanos(?)

A linha entre eles e nós é tênue. A pergunta é franca: os tempos mudaram, mas nós mudamos?


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Não se engane; isto pouco será uma resenha de filme e menos ainda uma teoria, é mais uma crítica do que qualquer outra coisa. Pois bem. A franquia “Planeta dos Macacos” (Planet of the Apes) - iniciada em 1963 com a novela de Pierre Boulle - hoje, tem uma gama de livros, seriados e longas-metragem, dentre estes o mais recente “Planeta dos Macacos: o Confronto”, de 2014. Antes de tudo, toda a obra é um marco da ficção científica, não só por ser um dos pioneiros do gênero, mas também pelo forte conteúdo social e político.

No primeiro filme, homônimo à franquia, de 1968, viajantes da Terra partem ao espaço viajando a velocidade da luz; aparentemente sem destino algum, a nave deles sofre problemas e em decorrência da relatividade do tempo, acabam indo a um futuro muito distante em curto espaço de tempo (relatividade do tempo). Quando findam a viagem, os viajantes chegam a um local desconhecido, habitado e colonizado por símios (macacos). A partir daí o filme se assemelha às incursões portuguesas em Terras brasileiras: os nativos – humanos – são perseguidos por “colonizadores” que os caçam e os escravizam, os macacos.

Contudo, e apesar de estranho, os símios são seres socialmente desenvolvidos, bem organizados, com grandes capacidades cognitivas e emocionais, diferentemente dos humanos que, na trama, são verdadeiros nômades, parcamente desenvolvidos e até “retardados”. É nessa troca de valores, na inversão da natureza a que estamos acostumados que surge uma das perguntas mais simbólicas – para mim – de todos os tempos: ainda somos macacos?

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A ficção com primatas exemplifica como o homem tem que retroceder para prosseguir. A ideia de um futuro com símios ultra desenvolvidos é um questionamento-crítica sobre o que fazemos, se é certo ou errado; é antes um paliativo protetor - um recado - do que uma remediação.

A metáfora dos macacos, esse retrocesso evolutivo – a submissão do homem ao símio – critica também o antropocentrismo contemporâneo. O homem é tão alienado, tão sádico e carente de guerras que seu legado é um retrocesso na escala evolutiva. Ser “destronado” por um ser inferior metaforiza a falta de planejamento e inconsequência do homem, suas perspectivas egoístas e narcisistas, amplamente diversificadas para a satisfação do “eu”. Os homens chegaram ao topo da cadeia alimentar não por sua capacidade física, mas pela sua inteligência e suas ferramentas. A ferramente é feita para facilitar a vida prática, mas da mesma forma que uma chave de fenda aperta um parafuso ela também dilacera a carne humana. A forma como usamos nossas ferramentas (vide a inteligência) e nosso método de aplicação é o que nos eleva e transforma.

Distorcendo um pouco a ótica de Karl Marx sobre liberdade, pensamos: (1) o homem escolhe porque tem liberdade; (2) tem liberdade porque tem necessidade de algo interno ou exterior a ele. Pergunto: quais são nossas necessidades? O que nos motiva? A necessidade é a guerra? O conflito de todos contra todos? Dominar só por dominar? O poder pelo poder? NÃO. O que motiva o homem, de fato, é sua ganância exacerbada, egoísmo e inveja imensuráveis; ele tem vontade de sanar esse vazio pessoal e a única forma de fazer isso é oprimindo e guerrilhando – ele usa as ferramentas e os motivos errados, SEMPRE. Suas necessidades são deturpadas e alienadas, inadequadas e sem função para o todo. Por isso que o mundo se torna dos macacos – eles são selvagens e incapazes, mas prezam pelo todo, cuidam e preservam de si e dos seus iguais; sabem quais são as verdadeiras necessidades.

Agora volto a responder à pergunta “ainda somos macacos?’’. Como foi dito, somos nós quem escolhemos nossas necessidades, priorizamos nossos afazeres, selecionamos o que queremos seguir e o que queremos deixar de lado; a consciência humana nada mais é que seu instinto natural se adaptando ao estilo de vida e a sociedade que a rodeia. Nesse ponto não somos macacos. Porém, tanto poder e razão nos dão livre-arbítrio, deixam-nos à deriva em um mar de opções e oportunidades; temos as ferramentas e a capacidade de selecionarmos o melhor, mas não o fazemos – escolhemos a mesmice. Preferimos o conforto das igualdades de nossos grupos às belas variedades dos gêneros e das culturas do homem. Escolhemos ser fracos e centralizados, sem perspicácia de algo maior, apenas protegendo nós mesmos e, por vezes, nossos iguais - não há espaço pras diferenças. Nesse ponto continuamos, de fato, macacos.

costas caco.jpg Iguais na diferença.


Alexei Amorim

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