filhos do monólito

A fluida geração que transcende à solidez (ou deveria)

Alexei Amorim

É tudo uma ficção. Pelo menos por aqui... Seja bem-vindo ao "Filhos do Monólito"!

Essência da juventude, virtude da ignorância e conformidade

A forma que vi, vejo e verei a vida, de agora em diante, traçada pelas consequências do que fiz e do que deixei de fazer.


Na medida em que se cresce e, por conseguinte, envelhece, é claro que a alma inquieta da juventude vai se acomodando nos clichês e no conformismo da realidade. No momento em que escrevo estas palavras tenho 19 anos e a cada linha que tracejo na minha vida, crio novas perspectivas, assim como renovo o que eu era e o que quero ser.

IMG_4984.JPG Pluralidade

Raul Seixas, no seu auge musical e tóxico, premeditou o que seria o lema de uma sociedade e o epitáfio de muitos: prefiro ser essa metamorfose ambulante. Em seus versos, Raul construiu todo o pensamento da juventude das pessoas, que é justamente a desconstrução do que se constrói na vida - a essência da juventude.

Sou, como é inerente da minha idade, imaturo, sem perspectivas, idealista (até utópico), inconstante e, principalmente, sonhador. Do pouco que já fiz na vida, dos tijolos de vivências que edificam minha personalidade, são ínfimas as coisas que já fiz ou pretendo fazer que me servem de alguma coisa.

IMG_4981.JPG A thousand dreams within me softly burn - Rimbaud.

Vivo hoje, copiosamente, a essência da juventude. Mas pensei, enquanto assistia a uma aula sobre Constitucionalismo francês, o quão importante é a juventude na vida de uma pessoa. Apesar de todo o aparato ideológico e a conjuntura política favorável, bem como o esgotamento do regime Absolutista, toda a Revolução Francesa seria inviável se não fossem as massas saturadas e revoltadas com aquilo que lhes reprimia, seja na falta do pão ou na generalização da opressão. Essas massas, como força física motriz da Revolução, eram compostas principalmente por jovens de todas as classes que morreriam e morreram pelos ideais da revolução; pois foram justamente os jovens, crentes nas suas convicções, que revolucionaram o mundo ocidental.

São as convicções e seu exercício, sua práxis, que evoluem a sociedade e, sem dúvidas, a própria pessoa humana.

Jon Krakauer, ao materializar a vida Christopher McCandless na sua masterpiece Into the wild, demonstra o poder de um ideal e das convicções na vida de um jovem. Como narra a história verídica, McCandless, ou Alexander Supertramp, é um idealista fundamentalista, um cético farto da sociedade que o rodeia e, por isso, começa uma vida nova, escrachando o conforto do lar e imergindo numa espécie de nomadismo eremita. O seu motivo, a essência de sua vida, foi justamente acreditar e viver uma ideia que, em sua concepção, o tornaria o que sua mente ansiava.

IMG_4985.JPG Now I can´t see, I just stare - Eddie Vedder

Por outro lado, a essência da juventude é também a virtude da ignorância. Valendo-me do clássico contemporâneo de A. G. Iñárritu, Birdman (2014) escancara a outro face do idealismo da juventude, na medida em que todos os planos e desejos que construímos são vagarosamente exterminados pela falta da nossa própria convicção, pela pressão externa que sofremos da sociedade e pelo conformismo na mesmice inabalável dos nossos tempos. O ponto de convergência de tudo isso (das ideias que morrem sem ao menos nascer, dos desejos que caem por terra pelo esforço das adversidades) é que no fim, mesmo após acreditarmos em nosso idealismo, tendemos todos a desistir do que uma hora nos movia a alma e ceder à vida que estava construída ao nosso redor, e isso é grande virtude. Mesmo com as decepções na vida, de perdas e desprazeres, por algum motivo acabamos descobrindo felicidade e abrigo num estilo de viver que um dia foi nossa maior aversão. Pela ignorância de agir ou a inação, existe a tendência a ceder ao que já está exposto, a fugir do que agrada e receber abertamente o que incomodava.

Arthur Rimbaud, como expoente poético do século XIX, foi um revolucionário na forma de criar poesia e de viver. Não só pela genialidade métrica como também no estilo de vida maníaco e hedonista, o "viajante louco" foi e ainda é referência para muitos. Após seu sucesso prematuro, Rimbaud não cedeu aos luxos e clichês que o aguardavam como grande escritor, mas foi, contudo, experimentar o novo. Saiu de sua casa em Marselha, França e viajou o mundo em barcos, por três continentes, experimentando tudo o que era possível a um homem fazer; de traficante de armas na Etiópia a capataz no Chipre, ele não cedeu ao conformismo e fez exatamente o que sua mente e sua juventude o requeriam para realizar.

IMG_4977.JPG "Pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos". - Jack Kerouac

Por fim, a essência da juventude não é fazer grandes feitos ou ser lembrado para sempre, mas é, contudo, fazer de tudo para edificar o que se deseja; não é também realizar grandes viagens espirituais ou construir um novo estilo de vida; é, na verdade, viver da forma que se quer, pois no fim, a única lembrança remanescente é o que se fez da forma que se quis e que se acreditou ser o melhor. Ser jovem não é ser insano ou "sem planos", é acreditar no que se ama e fazer de tudo para construir isso, pois quando se envelhece - é assim que penso - nos acomodamos e vivemos os frutos do que construímos, seja isso satisfatório ou não.

É o que se vê no filme La Grande Belezza (2014), em que Jep Gambardella passa a juventude, a maturidade e a melhor idade buscando a essência da vida, seja ela qual fosse, mas no final, se depara com os vazios que construiu e lamenta o que não fez, ficando assim fadado às consequências de suas escolhas.

Enfim, o maior axioma/ princípio que se deve crer é do Supertramp, devaneando no Magic Bus: happiness only real when shared.

FullSizeRender.jpg The love will tear us apart. - Ian Curtis


Alexei Amorim

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