filhos do monólito

A fluida geração que transcende à solidez (ou deveria)

Alexei Amorim

É tudo uma ficção. Pelo menos por aqui... Seja bem-vindo ao "Filhos do Monólito"!

Interestellar*, tempo e escolhas (?)

Os aspectos científicos aliados à prática racional humana é a maior teorização já feita acerca das capacidades e atividades do homem. Compreender isso é compreender a própria função social.


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Em Interestellar, de 2014, filme do genial Christopher Nolan (A Origem; Batman: O Cavaleiro das Trevas), faz-se a trama distópica em um futuro assolado por desastres ambientais, como pragas nas colheitas e tempestades de areia à nível mundial, e desesperança social. Neste contexto, surge Joseph Cooper (Matthew McConaughey) como um engenheiro fadado ao péssimo destino de fazendeiro, o qual se vê obrigado a cumprir por falta de oportunidades. No começo da trama, a filha de Cooper, Murphy (Mackenzie Foy/ Jessica Chastain), depara-se com uma anomalia paranormal sem causa aparente na biblioteca de seu quarto, esta que é assimilada a um “fantasma” e, por motivos desconhecidos, forma padrões numéricos sem procedência alguma mas, contudo, indicam um local anteriormente secreto – a NASA.

Em meio a tanta desconexão aparente e a direção megalomaníaca e acronológica de Nolan, deparamo-nos com um panorama global afetado pelos repetitivos e abusivos erros do homem com o planeta e para com a própria sociedade. Na parte de explanação temática, o Professor Brand (Michael Caine) – grande cientista da NASA e guia espiritual dos viajantes do espaço/ tempo – expõe o nível de comiseração e esgotamento dos recursos naturais do planeta Terra, afirmando a necessidade de “um novo lar para a humanidade”.

A partir desse ponto, é apresentada a existência de outros planetas possivelmente habitáveis para o homem e as expedições de reconhecimento e análise que neles devem ser feitas. É nessas expedições, que incluem viagens por buracos de minhoca, relatividade do tempo, a gravidade como uma ferramenta física que altera o espaço/ tempo (pois é, Einstein não era só E=m.c²) e os incríveis buracos negros, que Nolan apresenta o propósito do filme, que é a dinâmica do tempo, ou seja, a relatividade, oprimindo a capacidade de intervenção no mundo pelo homem.

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O propósito elementar do filme é mostrar a importância de cada ser humano no processo de desenvolvimento do mundo; mostrar como cada ação e características de uma pessoa podem mudar todo o panorama global e a importância que isso tem para o futuro; demonstrar como nossas crenças, nossas atitudes, nossas formas de lidar consigo mesmo e com o outro podem alterar tudo drasticamente. O filme é uma afirmação antropocêntrica contemporânea, que põe o homem como a principal ferramenta para se atingir a finalidade de tudo – o intento da obra é mostrar para onde o conjunto de nossas ações está nos levando e teorizar, de forma genérica, como podemos alterar absolutamente tudo através de ações racionais. Na verdade, todo o filme é um grande questionamento do tipo “e se...?. “E se isso acontecer?”, “e se não tivesse acontecido?”, “e se fizermos assim?”, “ e se não fizermos nada?” – a quantidade de proposições “ e se...” possíveis nos dá medo e nos faz recuar, mas se agirmos de acordo com o que é bom e com o que acreditamos, cada mínima atitude constituirá um enorme bloco massante de certezas e ações que constroem algo bom.

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É aí que consiste o maior afrontamento já feito em uma obra de ficção científica, pois a relatividade do tempo e a urgência da supressão das carências humanas põe nossa vontade como refém do tempo.

O filme não afirma somente a urgência de reformar nosso atual estilo de vida – economia, costumes, meios de produção -, mas também a prontidão com que isso deve ocorrer. A demonstração de aspectos palpáveis, tais como a teoria de Einstein, a NASA e as viagens espaciais nos dão uma sensação de empatia, de que podemos interferir em larga escala no futuro do planeta através de micro-ações. Quem compreende o filme entende o quão rápido se deve agir para transformar as carências mentais, os laços familiares, o convívio social, o legado que deixaremos para o mundo. Assimila-se isso não por um altruísmo inato, mas principalmente por que sentimos a dor instantânea da nossa inação e da procrastinação que fazemos cotidianamente.

Interestellar vai além do simples restabelecimento do estado de espírito sereno; ele põe à serventia dos atos individuais o poder de agir e transformar micro ações em macro atitudes que se expandem. Vemos dois exemplos magníficos disso no filme: o primeiro surge com a doutora Brand (Anne Hatheaway) que, com carisma exemplar, altruísmo e racionalidade intrínseca aos verdadeiros cientistas, prioriza sua missão – esta fadada ao dissabor de uma vida/ morte solitária – de estabelecer uma nova colônia da humanidade ao invés de – e tendo total capacidade para isso – ter a chance remota de rever seu grande amor perdido. Em total harmonia com esse ato, Cooper confirma a intenção principal de Nolan demonstrando como o tempo oprime a razão. Vivendo um conflito com sua filha Murphy, ele parte para o espaço deixando-a na Terra com parcas esperanças de que volte; é aí que consiste a principal “trama humana” no filme, pois aí o homem tem o dúbio poder de escolher entre o conforto da família ou optar pelos perigos das viagens espaciais em busca da pífia possibilidade de achar um futuro para a sociedade humana. É nesse conflito entre o presente e o futuro incerto que a personagem Cooper opta por passar mais tempo no espaço em busca de algo bom e duradouro, que sirva a todos futuramente, do que satisfazer só suas próprias necessidades.

Em suma, ficam implícitas nessa obra-prima da ficção científica que a ação e a vontade humana são as principais reguladoras de tudo o que acontece e virá acontecer e, com este poder, cabe unicamente às pessoas, não à inércia da irracionalidade nem aos seres divinos, revolucionarem tudo. Porém, o tempo é crucial e é o maior mestre das realizações e rupturas das ações humanas. Mexer nessa estrutura, como bem mostra Nolan, é o mecanismo mestre, a mudança mínima e estrutural, para erguer toda uma rede de ações e revoluções. E se não fosse assim... ainda estaríamos olhando pateticamente as estrelas.


Alexei Amorim

É tudo uma ficção. Pelo menos por aqui... Seja bem-vindo ao "Filhos do Monólito"!.
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