filhos do monólito

A fluida geração que transcende à solidez (ou deveria)

Alexei Amorim

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Teorema do Cachorro Louco – como entendi a ambição

O porquê da ambição ser algo tão simples, prazeroso e necessário.


Na obra-prima de Christopher Nollan, Batman: o Cavaleiro das Trevas, o Coringa profere umas das frases mais icônicas e representativas, analogicamente, para mim: “sou um cachorro atrás de carros; não saberia o que fazer se pegasse algum”.

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Foi divagando sobre essa ironia que risquei um “teorema” sobre a ambição das pessoas – leia-se ‘de mim mesmo’ – e notei o quão autodestrutivo e elementar é esta peculiaridade em todo indivíduo. Ambição não é só almejar algo, mas é também saber usufruir bem daquilo que se possui.

Na frase do Coringa, o “cachorro louco” – ele não faz menção ao estado psicológico do animal – é um ser insano, sem lastro do que o circunda e sem perspectivas futuras; é simplesmente um cidadão normal.

Apesar do adjetivo “loucura”, a loucura que compreendemos é, aqui, o liame do comum; afinal de contas, o que é ser louco? A loucura é um estado de espírito, mais elevado ou inferior ao senso comum, que compreende a realidade fora de uma esfera do simplismo e do socialmente aceitável; loucura é nada mais do que a fuga aos padrões da realidade convencionada pelo que é moralmente certo e aparentemente agradável.

Essa sandice, contudo, não é geral e nem tem forma; todos nós humanos temos – perdoe-me pelo clichê – um pouco de loucura inata em nós. Somos seres plurais adestrados pelo que o nosso meio acha melhor e mais adequado; somos animais heterogêneos, individualmente fracos, mas fortalecidos em grupo. Todo desvio, por menor que seja, às mesuras do comum são um erro que diferencia o indivíduo do grupo.

Ser “cachorro louco” é, assim, fugir do que os outros esperam que você chegue. Não é, contudo, ser desenfreado e insano, mas sim ambicionar o que lhe dá prazer.

Os carros que corremos atrás são nossas vontades que anseiam pelo seu preenchimento, são criações tanto nossas como dos outros que nos inspiram a buscar algo.

Na minha vida, as ambições surgem como um tráfego congestionado em fim de expediente. São tantas as possibilidades, as mais diversas satisfações, os mais prazerosos desafios, as mais sutis das conquistas que se apresentam a mim de forma tão trivial que evocam um imaginário que implode em um momento de epifania, numa gênese, um novo universo recém-criado.

As ambições, como os carros que são, sempre passam correndo e despertam um apetite insaciável. São, acima de tudo, a glória da conquista.

Ser laureado por si mesmo e receber os louros da vitória é desejo simbiótico à vida humana. Sempre desejamos a glória de nós mesmos, a superação de barreiras, o hedonismo que corre/ corrói na veia impulsionado pelo pulsar do desbravamento. Almejar uma coisa e conquistá-la, por menor ou maior que seja, é sempre objeto da mais divina satisfação da personalidade humana.

Da mesma maneira que os romanos em seus teatros, usamos máscaras que exteriorizam nossa persona imaginada; não ambicionamos a posse em si, mas sempre o que aquilo representa para nós.

É a máscara que usamos que constroem nosso dever ser, não nossas necessidades da vida comum. As máscaras e as ambições são o entretenimento da alma, por mais efêmero que isso seja.

Quanto a efemeridade, devo dizer que é esta a beleza mais rara da vida, pois é justamente a realização do imaginário perfeito que idealizamos, afinal de contas, tudo no começo é perfeito. Tudo se adapta ao que construímos e toda beleza e glória são equivalentes ao ideal primário.

O maior prazer do cachorro louco não está só na busca do carro, mas no momento exato em que ele o atinge e daí transcende à realidade do mundo imaginário; é esse pequeno momento, o encontro entre ideia e fato, que chamamos de felicidade.

A felicidade, como expressão de feliz, só o é pois é efêmero, é curto, esvai-se rapidamente.

É, contudo, correr atrás do que lhe trai e desfrutar daquilo enquanto for belo.

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Alexei Amorim

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