filhos do monólito

A fluida geração que transcende à solidez (ou deveria)

Alexei Amorim

É tudo uma ficção. Pelo menos por aqui... Seja bem-vindo ao "Filhos do Monólito"!

FICÇÃO, ESCOLHAS E EQUAÇÕES (?)

Quando uma licença para matar é uma licença para não matar. Escolha.


A ficção científica, desde que a conheço, sempre teve um poder fantástico de me atrair a questionamentos tão somente existências, mas também a questões de importância social e cultural, que se espelham de forma perturbadora na repetição do cotidiano.

fON1Gt5.jpg

Claramente, ficção não passa de ficção, mas é fato que por trás das grandes obras e dos grandes autores é fácil e sutil enxergar a crítica, mesmo que por vezes estranha e impessoal, o sarcasmo e a auto-depreciação da humanidade. Como que num ínterim, o uso de figuras mitológicas e alienígenas sempre foi o escracho do que viria a ser a humanidade quando imposta às inúmeras situações adversas e absurdas da vida sociedade; ou seja, a ficção sempre previu o que a humanidade viria a ser no momento da composição da obra.

Sem dúvidas, não há de se olvidar a importância de 1984, ORWELL, para esse cenário, na medida em que este contribui para construir o imaginário da alienação de como grandes e oportunos poderes proporcionam conforto e completude ao bem-estar das massas. Reflexo dessa obra, que criticou duramente o regime *fascista* de sua época, é o que hoje chamamos de onda conservadora – vide a “mitificação” de Bolsonaro como líder do povo – que se espalha pelo mundo. A começar pela inescrupulosa e sem nexo vitória de Donald Trump nos EUA, bem como a febre de conservadorismo que toma força nas eleições francesas, o mundo se encontra vivendo o que um dia foi ficção científica. Bravo!

Books-About-Town-2014-George-Orwell-1984-Thomas-Dowdeswell-Front-detail-War-is-Peace.jpg

Renunciando ao saudosismo hodierno e aportando no âmago da discussão, o filme Agentes do destino (2011), adaptação de um dos contos mais geniais de Phillip K. Dick, homônimo, é uma releitura bem elaborada de explicações ecléticas do que vem a ser o destino. Como o próprio nome afirma, “agentes” – homens sombrios que se infiltram de maneira insinuante na vida das pessoas – do destino que manipulam o livre-arbítrio, de forma que elas só tenham a liberdade de escolher dentro da égide dos que lhe cabe no Universo. É, aparentemente, um insulto à lógica, mas a trama se desenvolve de uma maneira tão fácil a ser digerida que o filme se torna uma ótima experiência.

39288-700x487.jpg

A questão principal que me fez pensar é: quem são nossos agentes do destino? O conto de Dick, mais sucintamente do que no filme, explana os vários vieses do que viriam a ser os norteadores do destino, e até mesmo questiona se existe um “destino”; contudo, ele resuma a idéia e, assim, expande o conhecimento humano do que viria a ser o livre-arbítrio. De forma magistral, ele conjura ser o destino nada mais do que o resultado de uma equação de infinitas incógnitas e postula, sem mais, sermos – nós humanos – nossos próprios capitães do destino.

A ficção aí está em dissecar um tema polêmico, mas certamente batido, de forma a expor uma nova, racional e memorável racionalização acerca do livre-arbítrio. Apesar da trama sugerir que a liberdade de escolha é uma cartela de opções limitadas, por fim, o autor faz entender que “destino” é, se não, uma escolha que antecede um fato, que antecede uma escolha, etc. Destino é o acaso. É a liberdade de escolher o que melhor lhe prouver, o que melhor ou pior lhe cabe.

screenshot 1.jpg Trainspotting: choose the worst toilet in Scotland.

A parte bela deste drama está em abstrair do prolixo uma essência tão sutil e minimalista que resume: a vida é uma série de escolhas e rejeições que nos levam ao que fizemos por onde para ter, não uma série de caminhos diversos que terminam em um ponto ora determinado. Destino é liberdade, e liberdade é poder escolher cometer os próprios erros.


Alexei Amorim

É tudo uma ficção. Pelo menos por aqui... Seja bem-vindo ao "Filhos do Monólito"!.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Alexei Amorim