filipe hungria

Tudo escorre

Filipe Hungria

Médico e, quando dá, estudante de filosofia, de literatura, de música e de tudo o que alimenta a alma. Escrevo porque amo, amo porque penso, penso porque escrevo

Shosholoza e o fardo nosso de cada dia

Shosholoza é um cântico folclórico que formou e transformou uma nação. Surgiu do pior ambiente possível e acabou por transformar seu próprio meio, um país inteiro e milhares de corações até hoje. É, ainda, e assim deve ser, um exemplo de superação e uma lição de vida para aqueles que o escutam e o compreendem.


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Todos os dias somos obrigados a enfrentar inúmeras batalhas que a vida nos impõe, sejam elas de fora ou de dentro de nossas próprias cabeças. Estas últimas, tão duras quanto silenciosas, são particularmente difíceis de serem superadas. Com isso, os pequenos estresses vão se acumulando até que perdemos completamente a concentração, a energia e a paciência. Nestes dias, as tarefas mais simples se tornam bichos de sete cabeças, e aí a louça se acumula, a comida estraga e o porteiro nem escuta mais o nosso bom dia. Ficamos vazios por dentro e precisamos de algo externo a nós capaz de nos colocar em contato com a nossa própria energia, como um reboque para nos puxar para fora do buraco em que atolamos.

Nessas horas, toda ajuda é bem-vinda e as receitas para nos reerguermos são infinitas: ombro amigo, terapia, religião, uísque... Cada uma à sua maneira nos ajuda a nos reencontrarmos conosco mesmos e nos devolve aquele sentimento de que é bom ser quem somos, e de que tudo vai ficar bem.

No entanto, se fosse fácil assim os livros de autoajuda não venderiam que nem água, nem teríamos tantas recaídas de tempos em tempos. Talvez seja assim mesmo. Viver é um eterno equilibrar-se numa corda e não dá pra escapar de umas quedas aqui e ali. Quando isso acontece, gosto de ouvir os mais velhos, ou melhor, muito mais velhos! Velhos que descobriram como engrandecer diante do medo e cujo legado inspira e ensina a quem souber ouvir. Gosto de ouvir Shosholoza.

Shosholoza é um cântico de origem Ndebele entoado pelos mineiros do Zimbábue e da África do Sul nos trens a caminho das minas. A vida destes mineiros era marcada pelas péssimas condições de trabalho, pela violência e pelo medo, o que naturalmente os levaria à miséria física e espiritual. No entanto, o que surgiu deste cenário foi essa canção, tão simples quanto cativante, cujo poder imenso de inspirar foge completamente à minha compreensão.

Cantada à capela ou com tambores e sempre em grupo, sua melodia transmite uma energia impressionante. Mesmo quem não entende sequer uma palavra da letra percebe que não se trata apenas de folclore, mas de algo extremamente belo e profundo. Quando consideramos seu contexto, concluímos que Shosholoza é a sublimação de uma experiência extremamente dolorosa, que só seria possível com uma obra equivalente em beleza e humanidade ao sofrimento vivido por seus criadores.

De cara, sua primeira nota já nos transmite toda a dor e o cansaço de um trabalhador exausto. Seu chamado desesperado é imediatamente amparado e seguido pelos também exaustos companheiros de jornada. Mais do que a dor, o que realmente chama a atenção é a empatia e a caridade dos mineiros, que individualmente ignoram o próprio sofrimento para, em grupo, acudirem o outro. Pouco a pouco, a escuridão vai dando lugar à esperança e seus espíritos vão se tornando mais leves. Logo, passa a prevalecer a força e até, quem diria, a alegria! Aquela alegria sincera, de quem ainda consegue sorrir diante da pior adversidade e que contagia o mais duro dos corações!

shodraken.jpg Drakensberg Boys' Choir

Shosholoza significa “vá em frente ou abra caminho para o que vem de trás” e é uma onomatopeia do trem a vapor. Na canção, o coro dialoga com o trem, dizendo-o para acelerar para além das montanhas. Acredita-se que também era entoada durante as jornadas de trabalho como uma forma de amenizar o estresse e manter a cadência da tarefa nas minas.

É, sobretudo, uma música de superação e união. Não por acaso, ela foi entoada exaustivamente pelos torcedores dos Springboks durante a copa do mundo de rúgbi de 1995, ocasião em que a até então desacreditada seleção sul-africana sagrou-se campeã mundial. Desde então ela vem sendo considerada o hino nacional não oficial da África do Sul. Mais do que a união de uma torcida em torno de um time, Shosholoza tornou-se o símbolo da união de povos historicamente segregados para a conquista de uma identidade nacional, legitimando o fim do Apartheid (juridicamente extinto em 1994).

mandelasho.jpg Um famoso e feliz torcedor dos Springboks

Voltando aos nossos pequenos eclipses da vida, não vejo Shosholoza como uma mera canção que inspira e reenergiza (embora sem dúvida ela o seja), mas como uma lição e um exemplo! Quando a dificuldade vem, a maioria de nós se isola e espera a tempestade passar, e perde momentos preciosos de música e de vida. Mas ela mostra o contrário. Ela mostra que a força vem quando a gente se abre e pede ajuda; vem quando a gente se une àqueles que nos compreendem e muitas vezes enfrentam os mesmos problemas; vem quando deixamos de lado nossa própria dor em favor do próximo, e ensina que, ao cuidar e aliviar o sofrimento do outro, curamos a nossa própria dor.

Que sigamos “sempre em frente”, sempre em boa companhia e sempre voltados para o próximo. Que não nos falte a companhia destes velhos mineiros, e que não nos falte música!


Filipe Hungria

Médico e, quando dá, estudante de filosofia, de literatura, de música e de tudo o que alimenta a alma. Escrevo porque amo, amo porque penso, penso porque escrevo.
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