filipe hungria

Tudo escorre

Filipe Hungria

Médico e, quando dá, estudante de filosofia, de literatura, de música e de tudo o que alimenta a alma. Escrevo porque amo, amo porque penso, penso porque escrevo

Sobre a virtude

A virtude, ou a essência, que aqui são sinônimos, é capaz de nos despertar o sentimento mais sublime, de nos proporcionar a tão desejada paz de espírito e até de nos apontar o caminho para a felicidade. Cabe a cada um aprender a escutar a sua voz. E é mais fácil do que parece.


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Desde muito cedo somos expostos a incontáveis situações que tentam nos “ensinar” quem e como devemos ser. Por exemplo, nossos pais juram que agrião é gostoso (safados); o colégio nos empurra a obediência goela abaixo e até a Coca-Cola nos convence de que sem ela não somos felizes. Quando somos crianças, não temos conhecimento nem repertório de vida suficientes para tomarmos nossas próprias decisões, então essas “orientações” até caem muito bem. O problema é que crescemos e continuamos sem saber olhar pra dentro, sem perceber aquilo de que somos feitos, sem saber quem somos.

Para Sócrates, todos nós temos uma virtude, que é “a atividade ou o modo de ser que aperfeiçoa cada coisa, fazendo-a ser aquilo que deve ser”. Isso significa que cada um de nós nasce com uma vocação, com algo que nos transformará naquilo que nascemos para ser. E se é por meio da nossa virtude que nos encontramos com a nossa própria essência, concluímos que é pela dedicação a esta “missão” que podemos nos sentir completos e, portanto, felizes.

O que ninguém se dá conta é que essa virtude “grita” para nós tempo todo. Frequentemente nos deparamos com certas coisas, situações ou pessoas que nunca vimos antes, mas que imediatamente fazem todo o sentido para nós. Criamos uma intimidade instantânea com aquilo e sentimos que aquilo nos alimenta e nos completa. É como se matássemos a saudade de algo que nos fazia falta, ainda que não soubéssemos o que era. Alguns diriam que aquilo sempre fez parte deles. E talvez tenha feito mesmo.

Antes mesmo de Sócrates, os gregos já tinham descoberto que nós só reconhecemos nos outros aquilo que temos dentro de nós mesmos. Eles acreditavam que nossos olhos emitiam partículas que iam de encontro às coisas, e que nós só poderíamos enxergar aquelas partículas que fossem semelhantes àquelas que estivessem dentro de nós. Se hoje sabemos que os olhos não funcionam assim, o mesmo não podemos dizer da inteligência e da intuição. Pelo contrário, é fácil perceber que, para o bem ou para o mal, nós sempre atraímos aquilo de que está cheio nosso coração.

Então aquela profissão dos sonhos, aquela música que só você gosta e aquela pessoa esquisita que você adora e não sabe por quê nada mais são do que a sua própria essência tentando florescer. Tudo aquilo que “mata a nossa saudade” é o que sempre esteve dentro de nós, latente, esperando para ser descoberto. É aquilo de que somos feitos, aquilo que é verdadeiro. E quando nos descobrimos, vem uma incrível e inexplicável sensação de euforia e de paz ao mesmo tempo. Inexplicável. Nem vou tentar.

Ainda assim, também inexplicavelmente, temos o péssimo hábito de reprimir tudo isso. Talvez por medo, por preguiça ou por vergonha, nosso acervo de desculpas a serviço da inércia é enorme. Daí acabamos nos convencendo de que o vestibular é muito difícil, de que tal carreira não dá dinheiro ou de que “o que os meus pais vão pensar de mim?”.

Perseguir e cultivar nossa essência requer muita, mas muita coragem. É possível que nossas escolhas desagradem àqueles que admiramos e amamos, talvez até nos afaste deles. E dá trabalho pra caramba. As grandes descobertas trazem consigo grandes deveres, e é preciso muita obstinação para transformar a nossa fome de realização em paz de espírito. Será, então, que qualquer um consegue?

Consegue. Todos nós nascemos naturalmente corajosos e obstinados. Todos nós aprendemos a falar, a andar de bicicleta ou a nadar. Por mais simples e fácil que pareçam, isso tudo já representou o maior desafio da vida no seu tempo. Não aprendemos a falar de uma hora para a outra, nem a andar de bicicleta sem cair. Não teríamos vencido cada um destes desafios se não tivéssemos desejado e nos dedicado a superá-los com toda a nossa força. Por que então, depois de adultos, não nos dedicamos mais àquilo que nos completa com a mesma garra com que uma criança enfrenta a bicicleta?

A virtude de cada um é o combustível necessário às grandes realizações. E a fidelidade à própria virtude geralmente nos conduz não só à satisfação pessoal, mas também à materialização da nossa essência por meio do trabalho ou da arte. Se formos dedicados o suficiente, talvez até nos descubramos como uma daquelas pessoas que não têm medo de sentir e viver profundamente aquilo que lhes alimenta o espírito. A essas pessoas costumamos chamar de gênios. Não será fácil nem indolor. Pelo menos já admiti que agrião é horrível, é um começo.


Filipe Hungria

Médico e, quando dá, estudante de filosofia, de literatura, de música e de tudo o que alimenta a alma. Escrevo porque amo, amo porque penso, penso porque escrevo.
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