filipe hungria

Tudo escorre

Filipe Hungria

Médico e, quando dá, estudante de filosofia, de literatura, de música e de tudo o que alimenta a alma. Escrevo porque amo, amo porque penso, penso porque escrevo

Precisamos falar sobre os cracudos

Ninguém nasce viciado em crack. Ninguém cresce querendo se tornar um marginal despojado de sua identidade e de seus direitos. Ninguém escolhe perder suas famílias, seus amores e seus sonhos. Por que então os tratamos como se quisessem?


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A recente ação da prefeitura de São Paulo de dispersar, por meio da força policial, as pessoas da chamada cracolândia atraiu o debate para o enorme problema do uso do crack e de suas repercussões. A exemplo do que se vem observando no debate político, aqui a discussão rapidamente se polarizou entre aqueles que defendem a internação involuntária dos usuários e aqueles que não acreditam nesta solução. Em meio a tantas opiniões inflamadas, faz-se necessário um olhar mais atento sobre a origem do problema e sua verdadeira dimensão. É preciso identificar quem está no cerne do problema, quais suas alternativas e o que se pretende fazer com eles. Do contrário, será aberto o caminho para opiniões superficiais e levianas cujas consequências podem nos levar à destruição de valores políticos e morais duramente conquistados ao longo dos últimos 30 anos.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que cada usuário de crack é um ser humano. Cada um deles sente fome, frio, dor e saudade. Já teve medo do escuro e já sonhou em ser jogador de futebol ou bailarina. Tem ou teve uma família. Ama e já foi amado alguma vez na vida. Nenhum deles queria ser “um viciado”, muito menos ser tratado como um animal sem identidade e sem direitos. Até sem nome. “Cracudo”.

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Ninguém nasce viciado em crack nem se torna dependente da noite para o dia. Um usuário que recorre ao crack o faz por desespero e pela necessidade de satisfazer outro vício já instalado, notadamente de cocaína. Este, por sua vez, só se estabelece quando há condições para tanto. Isso ocorre quando o contato com a droga é acompanhado pela predisposição individual e principalmente pela vulnerabilidade social. O vício cresce e se dissemina onde não há suporte familiar ou social, sobretudo em meio à pobreza, ao desamparo, à desesperança e à violência. A dependência de cocaína e de crack é uma tragédia da qual toda a sociedade faz parte e de cuja responsabilidade não se pode fugir. O usuário de crack não é o problema. É a vítima.

No entanto, insistimos em tratá-los como se fossem os únicos responsáveis pelo desastre. Pior ainda, os temos como se fossem culpados pelo nosso próprio desconforto. “Eles existem, eles ocupam espaço e isso me incomoda”, reconhecemos, conscientemente ou não. Deixamos, então, de perceber nestes indivíduos aquilo que nos une em nossa humanidade. Tornam-se, para nós, sub-humanos, e no instante em que deixamos de enxergá-los como nossos semelhantes, nos tornamos tolerantes à barbárie. Assim, quando os vemos serem alvejados por balas e bombas, já não nos sensibilizamos. Quando muito, tentamos nos convencer de que “pelo menos é algo que está sendo feito”, como se realmente acreditássemos que pode existir algo de positivo na selvageria.

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Em São Paulo, sob o pretexto de se combater o tráfico de drogas, a polícia “varreu” a região da cracolândia com seiscentos homens, cães, caminhões e helicópteros. Abriu fogo contra os indivíduos que ali se encontravam como se o mero fato de estarem ali fosse um crime. Destruiu barracas e pertences. Demoliu edificações com pessoas dentro. Forçou a dispersão daqueles indivíduos por toda a cidade sem um plano de acolhimento e de assistência social e, claro, não combateu crime nenhum. Todos sabem que o tráfico não surge na cracolândia e quem lá permanece não tem qualquer ingerência sobre a cadeia de produção e distribuição da droga.

A imundície, a promiscuidade e as precárias condições de vida despertam tanta repulsa que tudo adquire um assombroso senso de urgência. Com isso, passa-se a aceitar quaisquer tipos de intervenção, mesmo as mais enérgicas e imprudentes. O uso da força passa a ser bem-vindo e então, com a intenção de se proteger os usuários de crack, passa-se a defender a violência contra esses mesmos indivíduos. Surge a crença de que, ao serem enxotados daquela região, aumentarão suas chances de recuperação, como se a existência da cracolândia fosse a causa, e não a consequência desta tragédia social.

Neste contexto também ganha força a ideia das internações compulsórias, que se baseia na convicção de que todos os problemas do usuário derivam uso da droga e que, a partir da abstinência, a pessoa recobrará seu juízo e colocará sua vida de volta nos eixos. O que se propõe, então, é arrancar o indivíduo de seu meio independentemente de sua vontade, considerando que o mesmo não tem capacidade para fazer suas próprias escolhas. Acontece que acreditar que o usuário de crack não é capaz de tomar decisões significa atribuir-lhe o status de inferioridade, de alguém que representa um fardo para a sociedade e que, portanto, lhe deve obediência. Endossar as internações compulsórias significa reafirmar o caráter sub-humano dos usuários e, assim, ser conivente com a intolerância e a violência contra estes indivíduos.

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A cracolândia existe há mais de 20 anos. Neste período, inúmeras intervenções com uso da força policial foram realizadas, todas com estrondoso fracasso. Por outro lado, sabe-se que intervenções focadas nos indivíduos e em suas potencialidades, em vez de na dependência química em si, produzem resultados melhores e mais duradouros tanto para os usuários quanto para a sociedade. O problema é que este caminho ainda é lento e também não é capaz de prevenir que novos casos de dependência surjam a cada dia, perpetuando, assim, a existência da cracolândia.

Estamos muito longe de conhecer a solução ideal. Levará anos ou décadas até que se consiga compreender e combater, de fato, as causas do aumento do número e da gravidade dos casos de dependência. Neste tempo, é fundamental reconhecermos o limite daquilo que devemos tolerar. Devemos aprender a diferenciar medidas de saúde pública das ações higienistas, repressoras e violentas. Devemos tratar as vítimas como vítimas, e seres humanos como seres humanos.


Filipe Hungria

Médico e, quando dá, estudante de filosofia, de literatura, de música e de tudo o que alimenta a alma. Escrevo porque amo, amo porque penso, penso porque escrevo.
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