filipe hungria

Tudo escorre

Filipe Hungria

Médico por prazer e profissão, escritor por necessidade

A gema de ovo, Aristóteles e o sentido da vida

Desde a antiguidade, o ovo desperta o fascínio dos pensadores que, por meio dele, procuram extrair conhecimentos que enriqueçam a experiência terrena dos homens. Por vezes desperta também a frustração de cozinheiros resfriados.


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Em uma noite comum de quarta-feira, sofrendo de sinusite, decidi fazer um arroz-com-ovo para o jantar e então cozinhei um ovo mole para derramá-lo sobre o arroz já quente. Ao quebrar o ovo, qual não foi a minha surpresa ao perceber que a gema, mole, caiu íntegra e perfeita sobre o arroz e escorreu para o canto do prato, ainda inteira.

Essa gema não merece ser desperdiçada sobre o arroz, pensei. Então a mantive no canto do prato enquanto comia o arroz-com-clara-de-ovo esperando pela (extraordinária) apoteose daquela (ordinária) refeição no formato de gema-de-ovo-caipira-mole-comida-com-colher-de-sobremesa.

Chegado o momento, furei a gema com cuidado e, com a colher, sorvi as primeiras gotas daquela iguaria reconhecidamente deliciosa e tão frequentemente subvalorizada. A sinusite então se fez notar. Com o nariz entupido eu nada senti. Peguei outra colherada e outra e outra. Peguei um pedaço maior da gema, gordo, com o fundinho cozido e um pedaço da membrana que vem em cima cheia de sal. Nada. Comi o pedaço que faltava. Nada.

A gema inesperadamente perfeita (e digna de foto, soubesse eu de seu trágico destino antes de violá-la) passou inteira pela minha boca sem produzir um instante sequer de prazer. Não fosse a minha visão para me alertar da existência da gema, ela nem seria notada. E assim aquele momento passou. Insosso. Nulo. Estéril.

Como é possível acontecer de existir um pedaço de comida tão delicioso, uma boca disponível para degustá-lo, o encontro entre os dois e, ainda assim, nenhum prazer ser produzido? Como é possível a libido literalmente engolir o objeto desejado ardendo em erotismo e, ainda assim, não desfrutar nem satisfazer sua sensualidade?

A fantasia da gema maravilhosa foi concebida em expectativa quando caiu no prato sem se romper, foi construída então com a sua separação cuidadosa do restante da comida e finalmente realizada com a sua pretendida degustação. Desceu sem efeito nenhum.

A frustração foi tão grande que imediatamente questionei qual era o valor daquele momento se a partir dele nenhum prazer foi produzido. Por que diabos aquele momento existiu? Se eu não o percebi completamente (i.e. sem qualquer sensação de prazer), será mesmo que ele existiu?

Aquela gema teve uma vida atribulada até chegar ali. Como seu ovo não foi fecundado, ela não serviria para outra coisa se não saciar a volúpia gustativa de um ser humano, no caso eu. O prazer de sua degustação tornaria aquele momento inesquecível e a gema, eterna.

Mas ela passou batida e assim o momento passou batido. A experiência – tão real para a minha razão e para a minha visão – nunca existiu no plano emocional, límbico, por assim dizer.

Lá vem a brisa.

Para Aristóteles, para haver a compreensão profunda da realidade, o que ele chama de conhecimento, é necessária a memória de um acontecimento atrelada à sua experiência sensorial. Sem essa experiência não há a conexão íntima do indivíduo com o momento em que ele está inserido, o que o leva a não perceber aquela realidade completamente. Desta forma, ainda que se observe o momento atentamente, sem a experiência sensorial aquele momento não será vivido. Não sendo vivido, ele não será rememorado, nem dividido, nem explicado. Escorrerá pelo tempo até desvanecer completamente como se nunca tivesse existido.

Aquela gema não merecia tal destino. Não merecia cair no esquecimento por causa de uma camada de catarro que a impediu de existir em sua plenitude. Sendo incapaz de produzir a sensação de prazer que era sua razão de existir naquele momento, talvez seu caminho para a imortalidade fosse pela transcendência. Certo de que agora, com muitas palavras e nenhum olfato, aquela gema me produziu uma experiência, posso afirmar que ela realmente existiu.


Filipe Hungria

Médico por prazer e profissão, escritor por necessidade.
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