filosofia de esquina

Por uma filosofia imoralista, subversiva e livre de amarras epistemológicas

Vinícius Vasconcelos

Graduando em Direito pela UEPB, é entusiasta da filosofia, costuma problematizar a existência e os valores morais. Apaixonado por música, é contrabaixista. Está à esquerda no espectro político.

EXPLICAÇÃO PRA TUDO: O IMPULSO CAUSAL E AS FABULAÇÕES EXPLICATIVAS

A existência é repleta de fenômenos que não sabemos explicar. No entanto, as pessoas querem dar a si mesmas explicações para tudo, já que a sensação de estar submerso no desconhecimento costuma gerar um mal-estar. Como válvula de escape, é comum que se fantasie explicações. Este texto é, então, um elogio ao desconhecer, que pressupõe uma renúncia a essas fábulas e um apaziguamento, por parte do indivíduo, de sua relação com o desconhecimento.


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Os seres humanos estão sempre em busca das causas das coisas. Das de grande magnitude às mais banais. Costuma-se atribuir a fatos causas imaginárias. Por vezes, atribuímos a primeira explicação que cogitamos, a primeira que encontramos. Com muita frequência, atribuímos a fenômenos que desconhecemos as razões, causas que nos trazem alívio. É quase uma necessidade expressa num impulso.

Talvez isso tenha se manifestado num ocorrido que, apesar de não raro, me fez pensar. Numa comemoração em minha casa, estando a mesa rodeada dos amigos e familiares que restaram àquela altura da madrugada, a conversa era sobre homossexualidade, o então tema da semana, quando os EUA legalizaram o casamento homoafetivo.

Em meio a argumentos bisonhos e piadinhas como “Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo” (e por que não Eva e Ivina?) – a conversa se voltou para a religião no momento em que eu intervi por a fé estar sendo usada para sustentar posições contrarias à liberdade de orientação sexual: “não podemos achar que relações homoafetivas são erradas por crermos que Deus, algo que nem sabemos se existe, criou o homem para a mulher e vice-versa”. A partir daí, tornou-se uma discussão: Cristianismo X Agnosticismo. Credulidade X Incredulidade. Fé X Ceticismo.

Indignado com a capacidade do ateu agnóstico que vos escreve de não ter nenhuma explicação para a origem da existência, com a sua serenidade ante o desconhecimento, com a plenitude com que pensava ceticamente, um cristão perguntava como que numa mistura de súplica e brado: “E de onde você acha que veio tudo isso? Tudo! TUDO! ”.

Ora, o que é que se mostra nisso? O ser humano tem um impulso causal, como diz Nietzsche, somos impelidos a buscar explicações, as causas dos fatos e fenômenos. Não basta constatar os fatos, temos que atribuir a eles motivos – e isso nem sempre remete a uma admirável atividade intelectiva, mas às vezes a uma ânsia infantil por respostas, como que numa fuga covarde do desconforto proporcionado pela incerteza e pela dúvida, o que, em última instância, conduz a superstições, o cúmulo das fabulações explicativas.

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De qualquer forma, em que perigo estaríamos caso não soubéssemos as causas das coisas, não é? Teríamos sempre a sensação de estar à mercê do desconhecido, como se tudo e qualquer coisa fosse iminente. Se não soubéssemos que escorregamos em pisos molhados quando a superfície em questão é lisa (e o pouco atrito é o que se nos revela como causa da derrapagem), caminharíamos normalmente, sem mais cuidados, em tais superfícies como caminhamos em terrenos molhados de superfície áspera. Dessa forma, estaríamos sempre sujeitos a cair, e correríamos o perigo acompanhados da sensação de incerteza, submetidos à iminência do inconveniente.

Nesses casos, o impulso causal é saudável. Apreendemos a causa a partir de um simples exercício de indução realizado por meio de nossas faculdades mentais: se eu caminhei sobre duas superfícies molhadas, sendo uma lisa e outra áspera, e escorreguei na primeira, mas não na segunda, escorregarei em terrenos molhados que tenham superfície lisa – e, novamente, essa é a causa, ao menos aparente, da queda.

O problema, de acordo com Nietzsche, é quando essas causas são, na verdade, imaginárias. Ele toma como exemplo nossos sentimentos. “A maioria de nossos sentimentos gerais [...] excita nosso instinto causal: queremos uma razão para nos acharmos assim ou assim – para nos acharmos bem ou nos acharmos mal”. Por minha vez, corroboro essa tese com o fato de muitos indivíduos fazerem remeter a causas imaginárias fenômenos sem causas autoevidentes, ou que até agora não revelaram uma possível causa que seja minimamente razoável: origem do universo e da vida humana = Deus; desventura = castigo divino; ventura = benevolência divina; benesse incomensurável = milagre.

E, para isso, o nosso filósofo traz uma explicação psicológica (assim mesmo denominada por ele), que não se vale de causas imaginárias, ao contrário do que criticamos aqui(risos). Ele constata que “alguma explicação é melhor do que nada”. Isso porque fazer algo desconhecido remontar a algo conhecido alivia, tranquiliza. Com o desconhecido há o perigo, o desassossego, a preocupação. É um instinto eliminar esses estados penosos. É por isso que se fabula acerca de mitos que pretendem vergonhosamente explicar a origem da existência. Qualquer baboseira é melhor do que nada para os que se acovardam. Acreditar que o homem foi constituído a partir do barro, afinal, é melhor do que o desconhecimento completo.

Sendo assim, vivam aqueles que se permitem renunciar à ânsia infantil de atribuir causas imprudentemente por temer o desconhecimento das razões, dos motivos; os que se esquivam do impulso causal quando este os levaria a fantasiar explicações, aqueles que têm coragem para enfrentar o desconforto da incerteza e conseguem se manter tranquilos com isso!


Vinícius Vasconcelos

Graduando em Direito pela UEPB, é entusiasta da filosofia, costuma problematizar a existência e os valores morais. Apaixonado por música, é contrabaixista. Está à esquerda no espectro político..
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