filosofia de esquina

Por uma filosofia imoralista, subversiva e livre de amarras epistemológicas

Vinícius Vasconcelos

Graduando em Direito pela UEPB, é entusiasta da filosofia, costuma problematizar a existência e os valores morais. Apaixonado por música, é contrabaixista. Está à esquerda no espectro político.

O mal-estar na televisão: violência e insegurança

Análise do impacto que a mídia causa no modo como o indivíduo percebe a violência e sente o quão seguro/inseguro está, sentimentos esses que podem gerar mal-estar, medo. Somado a isso, relacionamento do ato de incutir o medo nos telespectadores com expressões populares como "bandido bom é bandido morto" e "direitos humanos para humanos direitos", o que traduz uma certa tendência de afronta aos direitos humanos.


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Por que, logo de cara, uma referência a 1984?

Porque esse espetacular romance nos mostrou algo de que tratarei aqui: o poder dos meios de comunicação em massa sobre o indivíduo.

É um livro indispensável, indubitavelmente, mas não me prolongarei nele. Contarei, apenas, que o Estado distópico projetado por George Orwell e governado pelo Partido, nomeado IngSoc, era estruturado primordialmente em quatro ministérios: o Ministério da Paz, Ministério do Amor e Ministério da Fartura (os quais não explicarei em que consistem, pois quem ainda não leu o livro descobrirá por si mesmo quando ler), além do Ministério da Verdade.

Era nesse ministério, mas especificamente no Departamento de Documentação, que trabalhava nosso herói e protagonista, Winston Smith. Sua função? Falsificar registros e documentos históricos, devido a ordens superiores, para que as mentiras do Partido fossem compatíveis com o passado e corroboradas por ele, de forma a serem transformadas em verdades. Os antigos documentos que poderiam provar contradições do IngSoc eram destruídos.

Resultado disso? Todos os cidadãos acreditavam cegamente nas invenções do Partido, pois, controlando todos os meios de comunicação social, moldava a realidade que se punha diante daqueles, em virtude do poder que tinha de fazê-los acreditar não em seus próprios olhos, mas no que se lhes dizia.

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Tomaremos disso tudo uma conclusão que fundamentará o que debateremos de agora em diante: os meios de comunicação em massa podem mudar a forma como os indivíduos enxergam o mundo, a realidade.

O que me importa demonstrar aqui é o impacto que a mídia causa no modo como o indivíduo percebe a violência e sente o quão seguro/inseguro está, sentimentos esses que podem gerar um mal-estar. Sentimentos, no plural, pois não me refiro, com esse termo, apenas à sensação de segurança/insegurança, mas também à percepção, à apreensão, à - representação da violência.

Vamos lá. Os noticiários brasileiros sempre expõem casos de criminalidade. Assisto raramente televisão, mas percebi que os telejornais locais o fazem com mais frequência. Sempre é mostrado um caso em que alguém foi sequestrado por bandidos, outro em que invadiram uma casa para roubar e trancafiaram a família dentro de um cômodo, talvez um latrocínio na porta de casa, e o que mais nossa imaginação possa alcançar.

Além disso, estão cada vez mais depravados os "programas policiais" veiculados na televisão brasileira. Transmitidos em horários nobres, surpreendem os espectadores com casos criminosos diversificados. Um exemplo de um desses programas é o Brasil Urgente, do apresentador José Luiz Datena. Não chegarei a discutir o sensacionalismo, pois até sem os exageros desse elemento, a constante exposição da criminalidade na TV é nociva.

Resolvi, enquanto pensava sobre o que estou abordando, acessar o website do Brasil Urgente. Escolhi uma matéria para tomar como amostra e comentar com vocês.

Intitulada como "Criminosos usam armas de guerra no cotidiano", tem a seguinte descrição: "O armamento pesado que era para ser usado só em situações de guerra vai parar na mão de criminosos, que usam as armas em simples assaltos." Deixo o link: http://goo.gl/PN2hnx

Imaginem, agora, o impacto que matérias como essa, veiculadas constante e incessantemente na mídia, têm sobre os indivíduos no que diz respeito ao quão seguro eles se sentem. A TV lhe mostra que assaltantes estão usando armas de guerra para fazer "simples" assaltos. Você sente esse perigo, essa ameaça perto de você. Você toma conhecimento da possibilidade de ser assaltado, até assassinado, e, quem sabe, se não por uma "arma de guerra"?

Essa reportagem que citei foi apenas um exemplo. A sensação de medo não é apenas de armas de guerra circulando por aí. As pessoas estão com receio de sair de casa, de gozar a vida! É o medo de ser sequestrado, assaltado, morto, como as inúmeras vítimas das quais a mídia faz questão de nos avisar. Mas ser avisado disso realmente é necessário?

Pensando no bem-estar do indivíduo, conclui-se que o melhor é não consumir esse prato que a mídia insiste em colocar sobre a nossa mesa e que, se consumido, certamente causará uma má digestão.

Para concluir, farei uma breve análise das consequências políticas de incutir o medo nas pessoas.

Quem lembra do caso da Rachel Sheherazade lançando a campanha "adote um bandido"? Pois bem. Naquela ocasião, em seu discurso, a âncora do SBT chamou de "legítima defesa coletiva" o espancamento de um jovem que havia acabado de cometer um crime. Pois é. É esse o problema. É esse o perigo. O medo e a sensação constante de insegurança nos indivíduos gera indignação, revolta, e, o pior, reações agressivas. Essas, por sua vez, interferem em suas opções políticas e dão espaços para figuras bizarras, como o senhor Jair Bolsonaro, bem como fortalecem a Bancada da Bala no congresso, ou seja, colaboram com os interesses armamentistas, e ainda trazem à tona as vergonhosas expressões populares "bandido bom é bandido morto" e "direitos humanos para humanos direitos".

Redução da maioridade penal, revogação do estatuto do desarmamento, criminalização da pobreza, pena de morte e atropelamento dos direitos humanos, são todos alimentados por essa indignação.

Deixo vocês, agora, com o clipe de uma música espetacular, de uma banda que é minha conterrânea, o qual faz uma crítica, lá pro meio do vídeo, ao sensacionalismo dos programas policiais e a essa afronta aos direitos humanos. Tá aí o link:


Vinícius Vasconcelos

Graduando em Direito pela UEPB, é entusiasta da filosofia, costuma problematizar a existência e os valores morais. Apaixonado por música, é contrabaixista. Está à esquerda no espectro político..
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