filosofia de esquina

Por uma filosofia imoralista, subversiva e livre de amarras epistemológicas

Vinícius Vasconcelos

Graduando em Direito pela UEPB, é entusiasta da filosofia, costuma problematizar a existência e os valores morais. Apaixonado por música, é contrabaixista. Está à esquerda no espectro político.

UM OLHAR COMPREENSIVO SOBRE A HIPOCRISIA

Sob a moralidade que nos é imposta, a hipocrisia é a única forma de se esquivar de uma amarga dualidade: ou negar e reprimir o que se quer fazer, os desejos, os impulsos, ou realiza-los e ser mal visto, além de atormentado pela culpa.


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Para tornar mensurável a ousadia do relacionamento amoroso de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, foi lembrado que a França da década de 20 estava submetida às “garras da moralidade burguesa”. “A família nuclear era o alicerce da moralidade convencional. Respeitabilidade era a ordem do dia (e hipocrisia, a ordem da noite). As pessoas quebravam as regras, mas não publicamente”. Falo do livro Sartre em 90 Minutos, de Paul Strathern.

Penso o seguinte: respeitabilidade não era a ordem do dia, respeitabilidade É a ordem do dia. Esses valores advindos da moralidade judaico-cristã ainda dominam a sociedade ocidental. Poderíamos dizer de outra forma: o dia é a ordem da respeitabilidade e a noite é a ordem da hipocrisia, no sentido de que o dia é onde se acomoda a respeitabilidade e a noite, onde se acomoda a hipocrisia. - Suponho que não preciso explicar a metáfora em questão.

De qualquer forma, é como diz a música de Capital Inicial: “a noite esclarece o que o dia escondeu”. É na noite, nas escondidas, que se dá um pouco de liberdade aos desejos, aos instintos. É na noite que a hipocrisia se concretiza. E não se precipitem a pensar essa hipocrisia negativamente, a vê-la como algo repudiável. A hipocrisia é a única saída dos que não se afirmam. Devemos ver essa hipocrisia com olhos compreensivos e, talvez, até com pena.

Se o que digo com hipocrisia ainda não está claro, ajudará contar esta história verídica: quando eu frequentava igrejas (sim, por incrível que pareça, já frequentei igrejas, era novo demais para “pensar com minhas próprias pernas”), ocorreu de descobrir que a esposa de um indivíduo que ocupava, na hierarquia da igreja, a posição mais alta, atrás apenas do pastor, havia o traído. Descobri porque, coincidentemente, a esposa do amante é amiga da família. Ora, é mais do que evidente que, hipocritamente, ela, que sempre exalava um ar puritano na igreja, defenderia a monogamia, na igreja e em todo o seu convívio social, sempre que pudesse.

A questão é, por que existe tal hipocrisia? Será que é porque mesmo os que aderem aos principais modelos de moralidade vigentes não são felizes com ele? Sendo mais claro, será que a hipocrisia constatável em diversos atos da grande maioria daqueles que se adequam (ou ao menos tentam) aos valores da “família tradicional brasileira” - qualquer semelhança com o que servia de alicerce para a moral na França dos anos 20 é mera coincidência – não expressa simplesmente que viver sob esses valores é o oposto do desejável e prazeroso?

Clarice Lispector fala: “o pecado me atrai, o que é proibido me fascina”.

Se viver seguindo os valores da moral cristã, ou da moral da “família tradicional brasileira”(que em pouco divergem), não fosse o oposto de uma vida feliz e suficiente, o que Lispector disse não faria sentindo para o tanto de gente que faz. E a atração pelo proibido diz muito mais respeito ao que é proibido do que ao fato de aquilo ser proibido, ao status ‘proibido’, de forma contrária ao que vulgarmente se pensa. Isso porque muito mais pessoas (de fato, “todo mundo”) sentem vontade de fazer algo que se lhe foi proibido do que pessoas sentem de fazer algo proibido simplesmente por assim o ser. Na verdade, creio que esse fenômeno, caso exista, seja totalmente superestimado.

Se as coisas são assim, então por que as pessoas simplesmente não vivem em afronta aos valores que pairam sobre nossa sociedade? Por causa da respeitabilidade! Que mal-estar isto gera: não fazer o que se quer por medo do que “os outros vão pensar”, ou dizer.

Gostaria que alguém me respondesse: o que diabos o ser humano pensou ao se submeter a valores infelizes e transforma-los em critérios para avaliações tirânicas de si mesmo? Pensou que seria mais feliz? Que a vida puritana é maravilhosa e implicaria numa harmonia do convívio social? Bom, essa vida puritana já se mostrou impossível, já que os desejos “imorais”, apesar de toda força dos grandes sistemas morais, ainda estão e sempre estiveram aí. A hipocrisia, retomando, é a única forma de se esquivar da amarga dualidade: ou negar e reprimir o que se quer fazer, ou fazer e ser mal visto, além de atormentado pela culpa.

Pergunto: queremos mesmo viver sendo hipócritas?


Vinícius Vasconcelos

Graduando em Direito pela UEPB, é entusiasta da filosofia, costuma problematizar a existência e os valores morais. Apaixonado por música, é contrabaixista. Está à esquerda no espectro político..
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