filosofia de esquina

Por uma filosofia imoralista, subversiva e livre de amarras epistemológicas

Vinícius Vasconcelos

Graduando em Direito pela UEPB, é entusiasta da filosofia, costuma problematizar a existência e os valores morais. Apaixonado por música, é contrabaixista. Está à esquerda no espectro político.

Seus pais (e seu próximo) são seus amigos? Nietzsche responde

Reflexão sobre o "amor ao próximo" e o "bem comum" a partir da relação entre pais e filhos, tomando como ponto de partida o pensamento nietzschiano e sua análise do "amor ao próximo" e do "amigo" em Assim Falou Zaratrusta.


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É perceptível que todos os pais querem que os filhos sejam algo, torcem para que os filhos realizem um "projeto de filho" que eles desejam. Para isso, tentam exercer controle sobre as condutas e os comportamentos dos filhos, tirar-lhes o direito de decisão. Domestica-los. E parecem poder fazer isso por mais de uma forma.

Uma é pelo autoritarismo tradicional, simbolizado pela figura paterna na estrutura familiar "moderna", por aquele pai guardião da moral e severo. Que nos lembra o pai de Kafka - quem mais nos poderia lembrar? E esse autoritarismo pode ser representado por um trecho escrito pelo próprio Kafka em "Carta ao Pai": "desde muito cedo me proibiste a palavra; tua ameaça: 'nem uma palavra de protesto' e a mão erguida ao mesmo tempo". Ou seja, no autoritarismo tradicional os pais impõem violenta e incontestavelmente; pela força.

A outra forma é por um apelo ao sentimento, ao "politicamente correto", em que os pais não obrigam, não utilizam da força e nem suprimem a possibilidade de contestação dos filhos. O cientista social esloveno Slavoj Žižek nos explica nos convidando a imaginar a seguinte situação: o pai de um garoto quer que ele visite sua avó, apesar de o garoto não o querer. Se o pai fosse uma autoridade tradicional, ele provavelmente diria algo como: "não me importa como você se sente, é seu dever visitar sua avó!". Se, por outro lado, fosse um pai "pós-moderno não-autoritário"(nas palavras de Žižek), a reação seria mais como: "você sabe o quanto sua avó o ama, mas eu não vou força-lo a visita-la, você deve visita-la apenas se você quiser". É um genuíno apelo ao sentimento, e, por isso mesmo, tão nocivo e angustiante quanto a primeira forma: por causa da inerente exigência de reciprocidade e correspondência do sentimento, esse apelo é também capaz gerar culpa e má consciência.

Para prosseguirmos, foquemos no fato de que os pais tentam "domesticar" os filhos, independente da forma pela qual o fazem. Vejamos o seguinte trecho de Lísis, de Platão:

Sócrates - Seu pai e sua mãe, por quererem sua felicidade, são seus amigos?

Lísis - Por Zeus, claro que sim.

S. - Acaso te parece feliz o homem que está na servidão, e ao qual nada é permitido fazer, de entre as coisas que deseja?

L. - De modo algum, por Zeus, não me parece! - exclamou.

S. - Portanto, se teu pai te ama, e tua mãe também, e desejam tornar-te feliz, é evidente, em todos os sentidos, o seguinte: que empregam todas as forças para que sejas feliz.

L. - Pois é claro.

S. - Por conseguinte, deixam-te fazer o que quiseres, nada te proíbem, nada te impedem de fazer, se for do teu desejo.

L. - Por Zeus, bem pelo contrário. Há muitas coisas que terminantemente me proíbem.

S. - Que estás dizendo?! - exclamei. - Querendo a tua felicidade, impedem-te de fazer o que quiseres? Como é isso possível?

Já aqui está claro que, ao contrário do que julgou, os país de Lísis não são tão seus amigos assim. Mas minha intenção é que possamos ir mais além.

Pensemos com Nietzsche. Ele nos diz o seguinte, em Assim Falou Zaratrusta:

"o vosso amor ao próximo é o vosso mau amor por vós mesmos [...] Aconselho-vos o amor ao próximo? Ainda prefiro aconselhar-vos a fuga do próximo e o amor ao distante"

Mas quem seria esse distante?

Ora, o amor ao próximo, assim como a busca pelo "bem comum", implicam na renúncia dos indivíduos a (grandes) porções de suas vontades e desejos, pois, levando em consideração a tendência que há para que os interesses colidam e conflitos venham à tona, prefere-se controla-los e abafa-los - os desejos e as vontades - para que se permaneça naquele débil estado de segurança em que, como se espera, nenhuma das partes possa sair prejudicada - e é isso que se considera "o bem comum".

No "bem comum", todos levam uma vida bem comum, uma vida bem mais ou menos, e devem ficar estagnados nesse ponto. O amor ao próximo e a compaixão legitimam isso. Como você seria capaz de fazer o que quer se isso colocará o seu próximo em risco? Como você poderia buscar seu prazer em detrimento do conforto do seu próximo? Eis o discurso digerido e disseminado.

Como pudemos perceber, o "próximo" é aquele que constitui um obstáculo à consecução do gozo. Então o "distante" é o que não se põe como aquele que tem por papel tolher sua felicidade. O que não impede que você - "seja". É o que serve, de alguma forma, de estímulo à sua potencialização, não ao seu encolhimento. O "distante" também é uma alusão de Nietzsche ao super-homem(Übermensch). Nietzsche diz que o amigo é um presságio desse super-homem, e isso pelo seguinte motivo: o amigo não é o próximo, mas, precisamente, o distante. Dessa forma, seus pais, seguramente, não são seus amigos.

É uma afirmação bastante pungente, mas igualmente relevante.

Fiquemos, por fim, com uma "flecha" atirada por Nietzsche no capítulo "Máximas e Interlúdios" de seu Além do Bem e do Mal, que retoma e sintetiza o que discutimos: "'Compaixão para com todos' - isto seria dureza e tirania com você, caro próximo!"


Vinícius Vasconcelos

Graduando em Direito pela UEPB, é entusiasta da filosofia, costuma problematizar a existência e os valores morais. Apaixonado por música, é contrabaixista. Está à esquerda no espectro político..
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