filosofia tecnologia arte e pensamento

Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

A dimensão filosófica da tecnologia: voltamos à caverna de Platão?

O que realmente é a tecnologia? Internet, redes sociais, comunicação instantânea? Sim, mas há uma filosofia para além disso. A tecnologia moderna ganhou influência na ciência, na sociedade e no ser. Mas ela contribui ou dificulta a formação? Nós a criamos e controlamos ou ela nos recria e nos controla? Somos o que realmente
somos na tecnologia? Ou somos prisioneiros?


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A palavra tecnologia, etimologicamente, de forma simples, é a junção dos termos gregos tekhné e logos. Tekhné não era, para os gregos, a técnica em seu sentido mais reduzido. A tekhné significava não somente a prática, mas o conhecimento sobre a prática, a disciplina relativa a uma atividade, inclusive artística. Já o termo logos significava algo como discurso, descrição, estudo, texto. Seria a palavra, o verbo, enfim, a fala, o discurso proveniente do estudo, da reflexão sobre o objeto. Tecnologia, então, ou “o logos da tekhné”, seria a descrição, o discurso sobre a técnica e a arte, vistas como conhecimento da essência, como idealizações.

O grego pensava a tekhné como um conhecimento, uma disciplina. Era o objetivo a ser atingido, o ideal da produção, anterior à atividade. Já a atividade prática, a produção, era poiesis, e nunca seria uma cópia perfeita da tekhné. A tekhné era o objetivo teórico da produção, que transcendia o real e o possível.

O pensamento moderno, que surge com o Renascimento e tem como expoentes principais Bacon e Descartes, ao mesmo tempo em que inicia a questão do “sonho tecnológico”, um modo de vida que nos facilitaria a busca da felicidade e do conhecimento, paradoxalmente, o esgota. A tecnologia acaba fundamentada como ciência, triunfa sobre os valores e acaba adquirindo valor em si mesma, um valor absoluto e fetichista. Essa concepção moderna confunde não só ciência e técnica, mas ciência, técnica e ser, pois a técnica e suas demandas se tornam as guias de nossas ações enquanto sociedade. Ciência e técnica se fundem e se confundem.

No seu “Discurso sobre as Ciências e as Artes”, o filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau é instigado a responder a uma pergunta: questionava-se se o restabelecimento das ciências e das artes, em seu tempo, o século XVIII, contexto histórico de maturidade do que conhecemos por modernidade, contribuiu para a purificação dos costumes. Rousseau, de forma enfática, responde negativamente, pois, de acordo com ele, a ciência e as artes modernas não defendem ou não contribuem para a formação de um homem virtuoso.

Rousseau deixa claro, durante o discurso, que a sua concepção de virtude é próxima a que tinha o filósofo Sócrates na Grécia Antiga. Acreditava principalmente na virtude professada por Sócrates. Nomeando-o como um dos poucos sábios que resistiram aos vícios, Rousseau demonstra, no mesmo discurso, como Sócrates criticava os indivíduos que se consideravam sábios, e que, ao serem questionados, não conseguiam demonstrar seu conhecimento ou sua arte, se mostrando assim como os piores ignorantes.

A gana da sociedade pelo saber, o esforço em buscar o conhecimento serve para deslumbrar os homens, trazer esse vício pelo poder, empoderar a ciência e as artes como reis, nos colocando como súditos ou escravos. Rousseau, como Sócrates, acredita que a verdade não pode ser concebida, e que, se o desejo de buscá-la for mesmo verdadeiro e filosófico, deve começar pelo reconhecimento de que nada se sabe e que a busca será infinita.

No tipo de mentalidade tecnicista que funda o conhecimento moderno, o saber cientifico se torna comprovável materialmente, a partir de provas práticas. Ou seja, o saber teórico pode ser julgado correto ou verdadeiro se for demonstrado assim na prática humana. Esse tipo de mentalidade instaura a consciência do subjetivismo e torna o saber, antes livre, refém do homem. O homem, no discurso positivista moderno, agora é “livre”, mas somente se seguir regras ou métodos práticos bem delineados. Ou seja, uma liberdade ilusória. Esse homem moderno pode demonstrar o que ele crê ou deseja que seja verdadeiro a partir da experiência e dizer que provou a verdade. Ou seja, o real e a natureza se tornam manipuláveis, controláveis pelo homem.

Ora, nesse contexto, o homem se torna dono do mundo. Afinal, não é esse o desejo do homem moderno? Mas essa liberdade tem muitos limites, e esses limites acabam por se assenhorar do ser, da mesma forma e na mesma medida que o homem busca se assenhorar da natureza.

A tecnologia moderna e contemporânea é o maior exemplo disso e hoje chega a ser o locus conceitual desse equívoco. Se o ser não mais pode aparecer, o que aparecem são representações. Está formado o espetáculo. O espetáculo social é a evolução da representação. A sociedade moderna, especialmente após a consolidação da mentalidade capitalista, desenvolve suas representações de modo a viver em função delas. É o total triunfo da técnica sobre o ser. Na sociedade do capital, ser um cidadão não é virtude. O indivíduo “virtuoso” e “feliz” é o que possui bens acumulados, principalmente “inovações tecnológicas” e dinheiro.

A vida social acaba então, colocada em um imenso palco, onde atores – os homens – representam algum tipo perverso de peça contínua, buscando os aplausos, a satisfação de si e da opinião pública, da plateia. É preciso representar para agradar, pois somente assim seremos considerados, o que se tornou a felicidade em si. Com a técnica moderna totalmente atrelada a esse ideal de vida, a tecnologia se torna, como dito, também o locus do espetáculo. O leitor mais atento, ao ler isso, com certeza, lembrará de algumas páginas do Instagram, alguns posts no Facebook ou a mania incrível das tais selfies. As redes sociais são pequenos nós da grande rede. Mas dizem muito sobre esse paradigma filosófico em que se encontra a tecnologia e a sociedade.

Já ultrapassou-se o velho clichê “o ter tem mais importância que o ser”. Hoje, vê-se que, mais que valorizar o “ter”, o esforço é “mesmo não tendo, parecer ter”.

A pergunta vem sem esforço: existe uma saída? Parece impossível que surjam “novos Sócrates”, mas ao mesmo tempo é impossível continuarmos a viver na representação do mundo tecnológico. Qual o caminho? Ainda acredito que a esperança reside na formação humana. A contradição está presente em todo o processo do espetáculo. E, no âmbito da formação, ela se faz presente de forma mais intensa. Esse mesmo processo alienador pode carregar em si o seu contrário.

O que falta? O estímulo formador, a força educativa que venha para mostrar que a tecnologia é criação humana e pode atuar partindo de outras bases. Precisamos pensá-la, recuperar a dimensão filosófica, ética, política e educativa da tecnologia.

Quando a liberdade desejada se transforma em novas prisões, o ser continua em eclipse, com sua luz encoberta por uma imensa sombra, como na caverna de Platão. Aliás, é essa a conclusão a que podemos chegar: ainda habitamos a caverna do mito de Platão. Uma outra caverna, agora com luz artificial, televisão e ar condicionado. Uma caverna repleta de tecnologias que facilitam a nossa morada dentro dela, e que facilitam à nossa visão assistir as sombras. O que fazer? Girar o pescoço, rumo à luz.

É cada vez mais necessária uma reinvenção filosófica da tecnologia.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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