filosofia tecnologia arte e pensamento

Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

A filosofia do Ser em Wish You Were Here

Afinal, seremos parte da luta pelo Ser, ou protagonistas de seu sumiço?


capa.jpg

Wish You Were Here, quase literalmente “Queria que você estivesse aqui”, é o nono álbum lançado por um dos maiores grupos musicais que nosso mundo já viu – os maravilhosos do Pink Floyd. O álbum foi lançado em 1975 e posso dizer que, apesar de odiar estes pequenos rótulos, faz parte do período de maturidade da banda, notadamente a década de 70, quando lançaram suas maiores obras de arte.

Baseando-me em 3 fatores, a saber: as composições; a arte gráfica de todo o álbum; e principalmente o documentário “The Story of Wish You Were Here” (recomendadíssimo e disponível legendado aqui) quero mostrar neste ensaio que o álbum é muito mais do que uma obra de arte musical. Wish You Were Here é uma obra artística em sua essência – combina diversas expressões de arte – e, além disso, é uma obra filosófica (como também é The Wall, que veio depois), que parte de um tema central, a “ausência”, para se explodir e pensar a sociedade, de forma ontológica; o que realmente somos, SE realmente somos, a questão da representação, o capitalismo, nosso modo de produção e de vida...é, enfim, em si mesma, como obra, uma filosofia do Ser.

syd e roger.jpg

Antes de ir para o conteúdo filosófico da obra especificamente, é impossível mesmo iniciar essa análise dessa obra artística sem falar sobre Syd Barrett. Syd foi um dos fundadores e o primeiro guitarrista do Pink Floyd. Criado o grupo, em 1965, Syd foi o criador das ideias musicais e pela autonomia estilística do Floyd. Guitarrista inovador e genial compositor, Syd criou os princípios do chamado rock psicodélico pelo qual ficaria conhecida a banda, além de ser também o responsável pelo nome da banda e pelos vocais do primeiro álbum, The Piper at the Gates of Dawn. Não é exagero dizer, creio eu, que Syd era (ou é? Ou sempre foi?) a essência da banda. O princípio, a origem do que é e foi o Pink Floyd estão em Syd, e a história de Wish You Were Here deixa isso claro. Devido ao abuso das drogas, principalmente LSD, Syd deixa a banda já em 1968. Mas o que parece ser o fim acabou sendo só o começo.

Idealizado e gravado 2 anos após o lançamento da então obra prima The Dark Side of the Moon, Wish You Were Here nasce em um ambiente que confrontava a falta de concentração, a desmotivação e o desânimo da banda com as pressões da gravadora por algo novo, por outra obra. Waters, sobre essa pressão, em Have a Cigar (faixa do álbum), dando voz à gravadora, exige: “You gotta get an album out, you owe it to the people!”. Ou seja, fazer música, produzir, estava se tornando obrigação da banda, o que descaracteriza totalmente o processo criativo e artístico.

Os membros da banda e principalmente Waters deixam claro, no documentário sobre o disco, que esse sentimento de desânimo da banda acabou por ajudar a criar o tema central que originaria a obra: AUSÊNCIA. Ausência de ânimo, ausência de motivação, ausência de vontade de trabalhar e criar nos moldes dessa indústria com a qual estavam desiludidos...e também – a mais importante – a ausência de Syd Barrett.

Nesse ponto, Roger Waters amplia e torna analógica toda a sua acidez crítica e a estrutura de seu pensamento filosófico: a sua crítica recorrente à indústria fonográfica e os seus pensamentos sobre a sociedade e a cultura do dinheiro abrangem novos e ainda mais amplos temas e horizontes. A crítica às gravadoras e à indústria crescem para se tornar a crítica ao capitalismo e à mentalidade do lucro a qualquer custo - a crítica ao modo de produção de arte que os filósofos da Escola de Frankfurt chamaram de indústria cultural – ou seja, a forma com que o capitalismo se apropria da arte para satisfazer seus próprios interesses econômicos.

A ausência de Syd também amplia o pensamento de Waters para uma filosofia da ausência do Ser na sociedade onde impera a mentalidade do dinheiro; onde, mesmo no campo artístico, já não se consegue ser o que realmente se é, onde se é obrigado a, primordialmente, interpretar-se, representar-se, agradar, ser aceito. A arte, que deveria ser a fuga, torna-se parte do caminho pelo qual o sistema nos guia. Diz Waters, no documentário: “Você não é mais um indivíduo, você é uma cifra. Você apenas interpreta, não é mais dono de si”. O disco seria então, diz ele, “uma expressão universal de meus sentimentos sobre ausência”. Uma ausência que seria até mesmo uma auto ausência, pois pensar dessa forma em tudo isso, como também ele diz, “te faz querer se afastar da sociedade”. Como fez Syd.

A arte gráfica da obra, idealizada pelos sempre geniais Storm Thorgenson (idealizador também da magnífica arte de The Dark Side) e pelo cartunista Gerard Scarfe, colabora de forma primordial com a filosofia do Ser de Waters. A capa do álbum, que aparece no início deste ensaio, é simplesmente, para mim, estarrecedora.

Nick Mason diz, no documentário, que o homem se queimando poderia representar Syd, pois “Syd se sentia queimado a todo momento pela indústria fonográfica”. A expressão “queimado”, ou “burned”, é comum na língua inglesa como uma gíria no campo dos negócios: quando se cede, conforma-se com algo ou aceita-se algo que não agrada-te, por pressão ou por obrigação, está se queimando. A capa então representa não só Syd, mas a banda toda sendo queimada, “burned”, pelo acordo – o aperto de mão – com o empresário, o capitalista, o representante da indústria. A foto foi tirada tendo como fundo alguns prédios pertencentes aos estúdios da Warner Bros. Warner Bros, onde se gravam filmes e séries; Hollywood, lá onde só se representa, onde ninguém é o que realmente é. Diz Storm: “O que poderia ser mais ausente?”

Em sintonia com a “ampliação da filosofia” de Waters, os próprios Storm e Gerard comentam que a arte do álbum é mesmo “um convite a uma atitude acerca de todo o status quo e a todos os tipos de poderes”. A arte gráfica traz também outras figuras dessa filosofia que pensa e afirma que, nessa forma de sociedade, não há mais Ser, ele se perde, desaparece. Há, no encarte, a figura de um “homem invisível”, oferecendo ao público um disco; só se vê as suas roupas, chapéu e formas, ele não tem rosto, membros e nem expressão. Ora, não é essa a realidade que vivemos? Somos conhecidos, julgados e “curtidos” pelo que realmente somos? Ou somente pelo que fazemos, oferecemos, temos ou vestimos?

homemsemnada.jpg

Há ainda uma animação de Scarfe com um homem voando, aparentemente livre, e que, depois, por sua própria escolha, entra em um buraco negro. É, então, muito mais do que a ausência de Syd, é a ausência do Ser nessa sociedade. Mas é incrível como em toda essa simbologia crítica, e especialmente na capa com o homem se queimando, os membros da banda sempre acabam por identificar Syd ali, sendo queimado, sendo engolido, frustrando-se, apagando-se.

Syd é o Ser. Sim, para Mason, Wright, Gilmour e Waters, Syd é a personalização do Ser, é o exemplo do que é se expressar como realmente se é. O seu talento, sua liberdade, seu espírito, sua arte e sua LUZ! Isso é Ser, e isso era Syd. E agora Syd havia se apagado. A sociedade, as pressões e demandas da indústria e a vida pelo dinheiro apagaram a luz de Syd. Syd não conseguiu lidar com a sociedade do não-ser, pois ele era o Ser em essência. Era um confronto que ele não podia vencer, deixando-se levar, assim, às trevas.

Waters, inspirado, discursa “Você pode realmente libertar-se o suficiente para conseguir experimentar a realidade da vida, enquanto ela flui, enquanto fazemos parte dela? Ou não? Porque, se não, fique enquadrado até morrer.” Fica claro então que Waters nos convida para uma atitude diferente da de Syd. Syd era o Ser, mas não pôde aguentar a adequação. Syd não se entregou, mas também não lutou. Buscou a fuga, mas a fuga é impossível.

Waters nos convoca para a luta pelo Ser frente ao não-ser. Diz ele, ainda inspirado, agora pela canção homônima do título da obra: “Quero ter a coragem para não aceitar o papel de liderança em uma jaula. Quero exigir de mim mesmo continuar nesta caminhada, nesta guerra. EU QUERO ESTAR NAS TRINCHEIRAS. NEM NOS QUARTEIS-GENERAIS E NEM SENTADO OBSERVANDO. NAS TRINCHEIRAS!”. Esse é o convite e o pressuposto prático do seu pensamento. Há que se lutar pelo brilho do Ser, pois não há fuga possível.

Mas vamos então às faixas e em como elas corroboram com essa ampla e complexa filosofia do Ser de Roger Waters:

Shine on You Crazy Diamond é uma ode a Syd. É um chamado por Syd. Até por isso, ela inicia e também fecha o disco. A letra é quase um “Volte, Syd, volte, por favor!” – Mason diz ter dito essa frase várias vezes para os olhos apagados do amigo -. Syd foi, como diz a composição, exposto à luz e acabou ameaçado pela sombras da noite. Agora “ninguém sabe onde ele está, quão perto ou longe”. Mantendo a analogia, é um chamado a Syd, mas também um chamado ao Ser nessa sociedade que vive de máscaras. Brilhe, seu diamante louco! Volte, Syd! Brilhem, seres! Saiam do escuro da caverna e brilhem com a luz; lutem e escapem em direção da luz, como ensinou Platão!

Welcome to the Machine parece ser uma crítica a todo o aparato tecnológico que surge e tem papel fundamental nesta perda do Ser que sofre a sociedade da ilusão. Na animação que a acompanha, Scarfe traz o sangue correndo, mas batendo em grandes estacas de aço, fazendo com que saia de seu caminho nas veias. Após isso, o sangue se transforma em mãos, que oram para algo, procurando a salvação em algo superior a nós. Afinal, se saímos do caminho e nos perdemos, não poderemos nos encontrar sozinhos...precisamos de algo salvador. Deus? Ou as máquinas? A sempre espetacular tecnologia? Será?? Diz a letra: “O que você sonhou? Calma, tudo bem, nós vamos lhe dizer com o que deve sonhar...bem vindo, meu filho, bem vindo à máquina”.

Have a Cigar seria a música que representa a capa do álbum. Waters dá voz a um desses empresários da tão detestável indústria fonográfica, que faz todas as promessas possíveis e dá em troca as pressões (“Você tem que lançar um álbum novo! Você deve isso às pessoas!”) e pequena parte do dinheiro que ganham. Venha! Torne-se um imortal! Torne-se parte dessa máquina de compra e venda! “Tudo vai dar certo se trabalharmos em equipe...e já te disseram o nome do jogo, garoto? Chamamos de andar no trem da alegria”. As promessas são lindas, mas ilusórias, pois a pressão e as cobranças poderão acabar com seu Ser e com sua arte. E no fim, eles não se importarão com isso. Afinal, “qual de vocês é o Pink?”

Já Wish You Were Here, apesar de seu toque e aparência romântica ou “para namorar”, não me parece ser essa música que muitos mandam para a namorada quando ela está longe e nem a música tema dos relacionamentos a distância. A composição trata sim, de duas pessoas, mas que estão em uma situação até oposta: eles estão juntos, mas ainda há uma ausência. Estão juntos, mas são “duas almas perdidas, nadando em um aquário, ano após ano”. Ou seja, presos. Um deles parece estar deixando se levar pela adequação, pelo espetáculo; ou pela fuga a tudo isso. E a outra parece estar tentando evitar, tentando buscar a consciência, tentando chamar-lhe para a luta, mas no final dizendo que queria que ele estivesse ali, ou seja, ele se perdeu, ele se foi. Como Syd, que foi para o outro lado, para a total desesperança, mas também se foi. A ausência é a mesma.

Quem a composição “deseja que estivesse aqui” é o nosso já famoso Ser, o ente em sua essência, a pessoa como ela realmente é e não a o que o mundo quer que ela seja. Diz o “salvador”: “Você trocou seus heróis por fantasmas”. Você acha que consegue distinguir o sorriso da máscara? Os campos verdes do trilho de aço?

E a pergunta principal, então, que nos deixa Waters, sua filosofia e a obra: afinal, queremos ser um entre os muitos que não aparecem, mas que lutam essa guerra pela liberdade? Ou os protagonistas dessa sociedade da representação, mas que estão presos dentro de uma jaula?


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
Saiba como escrever na obvious.
version 21/s/musica// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Bruno Lima
Site Meter