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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

Já esquecemos de Aylan Kurdi: Dinheirofilia e o poço da alteridade

Quando impera a dinheirofilia, ou todas nossas relações se resumem a dinheiro, estamos em um poço. Agora, quando o próprio ser humano se torna cifra, já não existe mais perigo, ele já se concretizou: acaba-se a civilização.


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Dinheirofilia: neologismo, desses tão comuns em tempos de reinvenção da linguagem; confesso que não tão criativo, mas fica clara a intenção: palavra dinheiro e o sufixo filia, do grego philía (amizade fraterna, algo como amor, desejo). Sufixo complicado de explicar ou traduzir, já que tem suas boas significações, como em “filo”sofia, e também suas significações mais sombrias, como em pedo”filia” ou necro”filia”.

Para além da discussão do uso do termo, a dinheirofilia vem para ser parte do lado sombrio das significações. O desejo doentio pelo dinheiro, quero argumentar, traz para o humano o mau e é quase que o perfeito antagonismo para uma chamada “sociedade globalizada”. Enquanto o discurso quer reunir as pessoas, a dinheirofilia causa crises e traz o individualismo. No individualismo, vê-se o fim da civilização.

A última das crises sociais globais foi a chamada “crise migratória” da Europa. O verbo no passado aqui diz muito. O “foi” na verdade é, continua sendo. Mas na sociedade da informação, o que é e o que foi são separados por segundos. Mas não existe – ou não existiu? - crise migratória. Existe uma crise da civilização, e já há tempo.

Eu sempre me impressionei com o poder que tem a charge. Como instrumento de opinião, de consciência, político e formativo. Um quadro, um desenho, às vezes um balão de fala, e essa peculiar expressão artística pode explicar, demonstrar, pensar e refletir uma situação ou tema muito melhor que vários textos ou livros prolixos. Enfim, neste tema da chamada “crise migratória”, ou “crise dos refugiados”, muitas me chamaram a atenção.

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Essa mostra um barco com refugiados chegando à costa de algum país europeu, e em terra, um homem, que provavelmente representa um governante, pergunta “De onde vocês vem?”. “Do planeta Terra”, respondem. Certíssimo. E por que essa tal “crise” é tão vista como uma questão local europeia, e não mais um sintoma da doença da civilização? Da crise da Terra? Só posso crer que um bom motivo é a exigência que isso traria de uma autocrítica forte, maior do que estamos acostumados e maior do que podemos oferecer. Exigiria saídas muito difíceis, de pensar e de praticar.

Surge uma foto. Ah, a foto. A crise migratória torna-se assunto mundial. A foto do menino morto na praia emociona o mundo, e quase que por mágica as grandes forças políticas são atingidas por certo espírito santo de solidariedade. As 52 pessoas mortas sufocadas em um porão de um barco em 27 de Agosto não foram suficientes. Nem as 71 pessoas que morreram asfixiadas em um caminhão frigorífico na Áustria, abandonados ao tentar entrar ilegalmente. Ao tentar entrar. Ilegalmente. Na Terra. Os inúmeros mortos afogados no Mar Mediterrâneo dia após dia também não foram capazes de impulsionar ações solidárias dos chefes de Estado europeus. Centenas, milhares de Aylan Kurdi’s...

Não quero dizer que, por esses fatos, a morte da criança não tenha que ser chorada. Não. Só questiono o fato de uma imagem que causou tanta comoção ser simplesmente capitalizada. Ora, não nos deixemos enganar. Nós, meros mortais, em nossos cotidianos “normais”, realmente nos surpreendemos e nos chocamos com uma foto de uma criança morta afogada na praia. Os governantes, não. Já viram muita coisa pior. O que os levou à reação instantânea de solidariedade foi a comoção pública. Suas populações se emocionaram, e eles precisaram provar que são seus representantes. Dá-lhe discursos vazios. Nada de emoção, tudo racional. A emoção foi capitalizada. Capital político, ok...mas que no fim é dinheiro. E dá-lhe selfies com a Merkel.

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A crise é a crise do ser humano, é a crise da civilização. Vários dizem que seria o evento mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. É isso mesmo, um evento. Um evento em um grande e constante congresso. Uma batalha na grande guerra que se tornou o que aqui chamo de dinheirofilia versus alteridade. Sei que tudo é mais complexo, mas minha cabeça não evita de resumir o grande problema: gente virou cifra. Monetarizou-se o ser humano. Tudo capitaliza-se.

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Nessa outra charge, vê-se a Síria em guerra, pegando fogo e os imigrantes buscando fugir para a costa europeia. Os E.U.A, representados pelo “Tio Sam”, estão lá, sempre de olho em tudo. Mas viram as costas, esperando a próxima, pois esse problema, dessa vez, não é deles. Afinal, a maior economia do mundo não pode aceitar prejuízos. São somente humanos. E árabes ainda! A empatia e alteridade que possam ter surgido caem de volta ao poço. Como torres atingidas por aviões...

O homem de terno, representando, na minha visão, empresários e/ou comerciantes, vê mão-de-obra barata. Claro, esse será o papel deles agora. E que cumpram bem e ganhando pouco. Deixando o pedaço que lhes cabe na tal Terra, deixaram também a dignidade.

Já a representação da Europa vê dor de cabeça. Claro, afinal, mais gente para cuidar. Mais gente em um continente que está em outra das tais “crises”, desta vez a econômica. Mais seres humanos. Gente é problema.

Neste momento há de entrar a autocrítica. Não, esse pensamento não é só dos governantes. A população, ao ser atingida por uma catarse de comoção, desperta a sua essência natural de empatia para com o semelhante. Responde e apoia, em sua maioria, as ações solidárias para com os imigrantes. O ser humano emerge do poço. Mas a corda que o traz à superfície é fraca. Está bem gasta, roída. A empatia é frágil: eles ainda não são humanos. São apenas alguns seres que precisam de ajuda – e que seja provisória! -. Uns coitados, que viviam em meio a loucos lá na parte da Terra que lhes cabe, ou cabia.

E quando eles, forasteiros, são contratados para o emprego que interessa aos habitantes deste pedaço da Terra que é a casa de outros? E quando afanam um pacote de biscoitos para matar a fome? São odiados, julgados e discriminados. Afinal, o que fazem aqui? Deviam estar contribuindo para a ECONOMIA. Mas não há dinheiro! Ora, então que saiam daqui! A fotografia de Aylan Kurdi vai se apagando até desaparecer.

Tudo se monetariza. Onde se vê gente, se vê dinheiro.

As instituições que criamos são elas próprias avaliadas apenas pelo dinheiro que geram. Governos, empresas e instituições públicas não são avaliadas pelo bem social que trazem, pelo serviço que prestam ou pela sua contribuição para o bem-estar. São avaliadas pelo tal do “grau do investimento”. Já perceberam? Alguém duvida que o Estado Islâmico teria nota AAA na Moody’s ou na tal da Standard and Poor’s? Rico. Expansionista. Bom poder bélico. “Bom” poder de comunicação. Seguidores só aumentam. É quase que o retrato do sucesso econômico! Mas e as pessoas? Ora, são só humanos...

Ok, entendo que o texto pode parecer sem profundidade ou não visualizar a complexidade do fenômeno que vive a Europa. Há diversos fatores específicos: os econômicos, claro, mas também políticos, religiosos, culturais...que foram belamente discutidos pelos colegas autores da Obvious no “Dossiê Refugiados”.

A minha profundidade é pensar em uma crise que é um todo cheio de partes. Não há somente a crise econômica, as crises políticas, a crise migratória, a crise africana...há uma crise da civilização, uma crise da humanidade. O imperialismo, as guerras mundiais, a xenofobia, o preconceito, a violência contra povos nativos e o racismo são picos históricos. Grandes redes pertencentes à enorme rede da crise civilizatória. Mas o poder conferido ao dinheiro fez dos picos quase regras. A alteridade está na lona.

A esperança está no fato de que cada uma dessas ramificações práticas da crise da civilização é uma chance para a conscientização dessa profundidade. Urge o pensamento que denuncie que a dinheirofilia e seu consequente individualismo já vence a alteridade há tempos. Sem esse pensamento mais profundo, viveremos sempre de pequenas crises. Crises passageiras, tragédias das quais vamos esquecendo, apenas esperando as próximas.

A comoção existe e a emoção aflora, mas não entender essa profundidade faz das ações solidárias pequenas gotas que pingam no poço sem fundo.

A partir da filosofia que busque a recuperação da alteridade, buscar-se-á a recuperação do instinto humano que acredito ser inato: ver o outro como semelhante, sofrer com ele, chorar com ele. Enfim, ver-se nele. E buscar, com ele, o bem, a felicidade e a paz.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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