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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

O espírito selvagem de Paul Cézanne: inspirações para a teoria e a filosofia

“Espírito Selvagem”: expressão criada por Merleau-Ponty, na qual o autor quer compreender o que estimula a prática do artista, o que realmente faz a intenção e a visão do artista se tornar ação prática, linguagem. A expressão é bela quando pensada em sua profundidade: espírito me leva à lembrança da alma, do que realmente somos em nossa essência, ou seja, que lembra e nos faz pensar no próprio Ser. Já o termo selvagem vem para trazer a imagem da transgressão, da mudança, da força que impulsiona o diferente, que contempla mas não aceita o pronto. Merleau-Ponty conseguiu, em uma expressão, dimensionar o que deve fundamentar o trabalho do artista e ao mesmo tempo o que essa arte deve ambicionar, ou seja, a busca do Ser e a vontade de transgressão. Poético e sucinto.


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“Que é Espírito Selvagem? É o espírito de práxis que quer e pode alguma coisa, o sujeito que não diz “eu penso” e sim “eu quero”, “eu posso”, mas que não saberia concretizar isso que quer e pode senão querendo e podendo, isto é, agindo. O que torna possível a experiência é a existência de uma falta ou de uma lacuna a serem preenchidas, sentidas pelo sujeito como intenção de significar alguma coisa precisa e determinada, fazendo do trabalho para realizar a intenção significativa o próprio caminho para preencher seu vazio e determinar sua indeterminação, levando à expressão o que ainda e nunca havia sido expresso”. (Marilena CHAUÍ, em “Merleau-Ponty: entre a arte e a filosofia”).

A ideia deste ensaio é, partindo da compreensão do que é ter o Espírito Selvagem, buscar elementos para uma demonstração de similitudes entre a atitude do artista e do teórico. Se o artista também é um teórico, o contrário também urge se aplicar. A busca pelo Ser, impulsionada pelo espírito selvagem, pode tomar forma na filosofia tanto quanto a partir da arte, mas de forma mais bela quando estas trabalham juntas. Os seus diferentes métodos e diferentes linguagens encontram a sua intersecção quando são, em sua essência, criação advinda da experiência. Mas como demonstrar isso de forma prática? Tese do ensaio: o pintor francês Paul Cézanne. Cézanne é quase a personificação do artista-teórico: criador, rigoroso e dono de um Espírito Selvagem.

Cézanne parte do existente, do instituído, para buscar o instituinte, o que há para se ver, o novo. Parte do humano para paradoxalmente fugir do humano. Com isso, sua arte expande a sua beleza e nos deixa ver ali inspirações para o trabalho de escrita acadêmica, de construção teórica e filosófica.

O seu método era fugir do mundo humano mesmo se dedicando a ele; a liberdade criadora fica clara em seus quadros, e ao mesmo tempo segue leis materiais e cromáticas rigorosamente, ou seja, busca forma no caos imaginativo. A liberdade vem inclusive com seus movimentos, suas expressões, os modos de pincelar, seu corpo. O Espírito Selvagem faz do corpo objeto de reflexão. O que está ali, que age, que se expressa, reflete a obra junto com a consciência. O que o corpo sente, de forma selvagem, vai aparecer na obra. Eis a primeira das inspirações que chegam pela visão do artista-filósofo francês: a filosofia e a pesquisa precisam deixar com que o corpo fale, que apareça, permitir que o processo de execução, de escrita, ofereça algo ao resultado final imaginado, ao conceito.

Ao pensarmos nesta relação quase que intrínseca entre filosofia e arte, essa força formativa que leva à unidade de “artepensamento”, Cézanne surge com naturalidade. O pintor francês luta contra a cisão e o dualismo entre arte e pensamento não somente a partir de sua especificidade de linguagem. Cézanne produz linguagem dentro da linguagem, pois faz de sua prática um elemento tanto de busca da emoção originária, da inspiração, quanto um elemento que descreva, que transforme em teoria a força criadora.

“Nem arte nem pensamento impõe-se como primeiro”, afirma Adauto Novaes. Artepensamento - termo criado por Novaes e título de sua obra - juntas em um só termo, portanto, é a negação desta cisão compreendida como método, caminho constelativo, pois demonstra que são, arte e pensamento, uma unidade essencial, que busca o mesmo prêmio - a liberdade criadora, através de diferentes linguagens. A arte precisa dizer, simbolizar, deslumbrar; o pensamento compreende e teoriza em linguagem. A origem, inclusive, de ambas é a mesma: a imaginação como força criativa.

Tanto a filosofia, então, como a arte, podem realizar esta transgressão necessária ao Espírito Selvagem, desde que se instituam como criação e que cumpram um fundamental requisito: o de trabalhar a costura, o laço, o jogo entre realidade instituída e o momento instituinte, fazendo do resultado deste jogo criação.

Cézanne, penso, me parece ser então algo como o artista-teórico em sua essência, um fabricante de artepensamento. Negando os dualismos a partir de sua criação, da produção e da linguagem, ele demonstra em sua prática esse habitar no “entre”, enfrentando inclusive o dualismo natureza/cultura. A forma da pintura direto da natureza é uma alienação, como já dito, uma fuga do humano, mas ao mesmo tempo essa devoção pelo mundo sensível era consciente; uma consciência de que vivemos na obra do homem, e que por isso a busca do que está ai e aqui é necessária, na busca da natureza humana que se esconde detrás dessa obra. O modelo é a natureza – a “obra perfeita”, nas palavras do pintor -.

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[Emily Bernard, amigo de Cézanne, pergunta] “A natureza e a arte não são diferentes?” – [Resposta de Cézanne] “Gostaria de uni-las. A arte é uma apercepção pessoal. Coloco esta apercepção na sensação e peço à inteligência organizá-la em obra” (MERLEAU-PONTY, em “A dúvida de Cézanne”).

A valoração da natureza, como objeto primeiro, podemos interpretar também como inspiração para o trabalho de teórico-filosófico. A abundância do indivíduo e o valor extremo concedido à subjetividade pelo esquecimento do Ser na modernidade se fundamentam na falta de apoio em uma natureza que seja criadora de paradigmas e de inspiração. A filosofia que quer transgredir, portanto, pode se inspirar neste retorno, neste giro do olhar para as ordens e a complexidade da natureza.

É o que faz Cézanne: ele não só se apoia na natureza para a busca deste Ser da experiência, como ela é para ele a inspiração de seu método e, pode-se dizer, de sua filosofia. Cézanne vai à origem, vai ao que é físico, natural, para, a partir da visão do universal, namorar o particular e se situar no entre, no meio. O trabalho do pintor-filósofo francês elabora, estuda e habita esta lacuna. Ele ambiciona esse meio, essa “quase-presença” do ausente no presente, do originário no real.

Ele consegue permanecer no meio, e nisso está outra lição inspiradora para o trabalho filosófico: a experiência do Espírito Selvagem, como o vê Merleau-Ponty, não é aceita pela tradição filosófica, pois não dá à razão posição hierárquica privilegiada frente à sensibilidade. Cézanne também nos inspira, portanto, a enfrentar a tradição filosófica que dá poderes divinos à racionalidade. A filosofia, a pesquisa, precisa fazer esse enfrentamento para que possa despertar a selvageria do espírito. Mas há aí uma armadilha: enfrentá-la, ou criticá-la, não significa negá-la por completo. Precisamos também habitar esse entre, esse meio, incorporarmos em nós essa relação que precisa ser constante, para nela encontrarmos nossa linguagem.

Algo como uma racionalidade poética!

Quando e se compreendermos a experiência e a criação como a iniciação aos segredos do mundo, e não como caminho a um mundo ideal pronto, posto, conseguiremos fundamentar a necessária crítica à tradição filosófica e renunciar ao desejo de posse do objeto, buscando a relação entre ele e nós. Ter posse de si, posse do Ser e posse do conhecimento significam a domesticação do espírito.

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Precisamos, finalmente, como teóricos, demonstrar todo esse trabalho em linguagem, em escrita, em discurso. E aqui vive mais uma inspiração da arte de Cézanne: o aspecto e a aura de transmissão da obra, que desperta experiências e consciências a partir de sua “interminabilidade”. Essa é outra característica que traz similitudes na obra de arte e no trabalho filosófico cultuado por espíritos selvagens: o espectro de continuidade. Os quadros de Cézanne me trazem essa impressão catártica, de se sentir convidado a ver, a ler, a admirar e construir experiências ali. A escrita tem também esse potencial, nos resta a busca subjetiva pelo nosso método, nossa linguagem artística.

Se, como foi dito, a pintura era o método de investigação do Ser de Cézanne, o filosófico-teórico será a teoria e a filosofia pensadas como arte. Para isso, será necessário – inspirados em Cézanne – que reinventemos nossa linguagem, principalmente em relação aos vícios e fórmulas acadêmicas. Fazer da palavra poesia, já que a prática poética tem o poder de subverter a função racionalizante da palavra.

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Ficam então cinco grandes inspirações de Cézanne para o filósofo: valorizar a atuação do corpo; pensar arte e pensamento como “artepensamento” – laço constante -; valorizar a natureza como primeira inspiradora; negar a tradição filosófica na questão do endeusamento da razão; e pensar a obra como algo interminável, que demande continuidade.

O fundamento originário destas inspirações está em buscar a criação, junto com o Espírito Selvagem, de uma lógica compreensiva que trabalhe junto com a imaginação; construir essa fraternidade, essa amizade entre a inteligência e a poesia, entre linguagem e pensamento, entre arte e método e imaginação e compreensão.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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