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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

O que ler Platão ainda nos ensina sobre educação?

Independente da forma como estudamos Platão - aceitando-o, negando-o, discordando de sua metafísica, compreendendo-o ou criticando-o -, há ensinamentos em seus diálogos que são fundamentais para os nossos dias: discutir ideias e praticar a dialética exige o respeito e a aceitação do outro.


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Bom, apesar de não tratar especificamente sobre arte ou tecnologia, acredito ser esse um tema fundamental para dialogar neste espaço. A educação, na filosofia platônica, é um fio condutor, o núcleo de uma estrutura de pensamento que, tendo o conceito de formação estruturado, vai buscar definir filosoficamente conceitos como justiça, amor, piedade, amizade e também a arte, a ciência e a técnica. Se o pensamento de Platão sobre a justiça, as leis e o amor ainda são atuais, logicamente o seu pensamento formativo também fornece bases para que pensemos a educação de nosso tempo.

É também importante dizer, logo no início deste escrito, que mesmo sugerir esgotar esse tema em algumas linhas aqui é simplesmente impensável. Que meus leitores pensem então neste artigo como um convite a pensar, uma abertura à continuidade do tema, um gérmen de discussão.

Fundamentalmente, Platão acreditava na transmigração: existe uma alma humana, que é eterna e imortal. A partir desse pensamento, chegou ao seu famoso mundo das Ideias. A realidade em que vivemos é um mundo projetado, materializado, rascunhado do mundo das Ideias, onde não conseguimos chegar pela simples percepção sensitiva, e que conserva todas as formas ideais das coisas e sentimentos. Com isso, defendendo a filosofia e a razão como o caminho, Platão, até certo ponto, tirou dos deuses a posse do mundo perfeito, deixando claro que é possível o atingirmos a partir do distanciamento e da contemplação.

É importante pensar neste mundo que Platão “cria” como uma figura absolutamente metafórica. Somos quase viciados, muitas vezes, em pensarmos “ao pé da letra”. Neste caso, imaginar um outro mundo, cheio de coisas perfeitas, mostra-se rapidamente como algo absurdo, de certa forma até ridículo. Por isso a importância de interpretar como realmente é na obra do filósofo: uma figura metafórica, um artificio retórico e ilustrativo.

A partir dele, Platão busca nos ensinar que para construir o modelo de cidade perfeita, precisamos nos conscientizar de que a perfeição está para além deste mundo. O que encontraremos aqui são apenas sombras, o imperfeito, o mutável, o apropriado. Durante nossa vida terrena, portanto, nossa função, como indivíduos, é buscar o conhecimento dessa condição e, para que possamos nos tornar melhores, refletirmos sobre o essencial, os sentidos, os princípios de cada coisa, de cada criação humana, tentando sempre nos aproximar do ideal, do perfeito, do que cada coisa surgiu para ser.

Sócrates, apesar do seu método refutativo, sempre partia do princípio primeiro de que a verdade deve ser buscada na alma, em si, na transcendência de si mesmo: a famosa frase “só sei que nada sei” era realmente um guia de suas ações, e, apesar de admitir não entender sobre determinado assunto, isso não o impedia de refutar os argumentos de quem se achava sábio sobre o mesmo tema. Refutar alguém num debate não significa ser sábio sobre o tema tratado, e sim apenas uma prova a mais de que seu interlocutor só pensava ser sábio, mas não o era, o forçando então a reconhecer sua ignorância.

Eis aí o método que tanta falta faz nos nossos dias atuais, onde vemos, em todos os lugares, a figura dos especialistas, dos experts, ou seja, os donos da verdade, absolutos, irrefutáveis.

A partir dessa teoria das essências e da metodologia dialética, Platão detectava a ética em si mesma, que em seu pensamento seria a virtude, a verdade e o Bem, que deve objeto da busca de toda e qualquer discussão, política, educacional, ou qual for o tema. A função da educação seria então propiciar aos cidadãos, através do método dialético, que buscassem atingir esse distanciamento do mundo material, para que assim possam contemplar o mesmo, vendo o que nunca viram, pensando o nunca pensado, para que possam ver o que pode ser, e não apenas viver a partir do que já é.

Para que no mundo material seja possível chegar a esse mundo da ética, o único caminho é o da filosofia e o da discussão dialética. O debate argumentativo, por refutação, confronto e conflito, pode levar os participantes, de forma natural, ao que é irrefutável. A essência, o imutável, o eterno só se mostram ao homem a partir do exercício dialético. Ou seja, resulta-se algo como o equilíbrio ou o consenso.

Pensar desta forma pode ser bastante desanimador quando analisamos as discussões de temas atuais no âmbito social e político. Posso dizer que o que vejo é quase que totalmente o contrário: uma negação do equilíbrio, uma ode à oposição, uma tendência quase que viciada em antagonizar opiniões e posições, tornando o outro o inimigo, o estranho, o que deve ser eliminado, extinto. O ódio pelo contrário onde deveria existir o amor pela discussão e pelo conhecimento.

Até mesmo na área da educação, tema que deveria fundamentalmente não aceitar esse confronto quase que militar entre posições ou ideologias, é o que vemos: educação pública versus educação privada; exatas versus humanas; formação para o mercado versus formação acadêmica; teoria versus prática.

Creio que está aqui a lição fundamental que Platão nos oferece, 2.500 anos depois de seus escritos: A dialética precisa estar presente em toda discussão pública, com o objetivo do consenso, do equilíbrio, da aceitação e da compreensão do outro também como formador. Sem o respeito prévio, não há discussão formadora. Cabe a nós a prática dessa lição nos debates e discussões diárias.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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