filosofia tecnologia arte e pensamento

Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

A filosofia e a arte do futebol, a guerra pacífica

Por que o futebol desperta tanta paixão? Só podia ser assim! Arte, cultura, política e representatividade aparecem juntas em uma atividade esportiva! Triste aquele que pensa ser o futebol só um jogo.


obv fut arte.jpg

Há evidências de que já no século III a.C., durante a dinastia Han, na Antiga China, era praticada uma atividade recreativa onde o indivíduo, ou o jogador, tinha o objetivo de, com os pés, golpear uma bola rumo a uma rede. O jogo se chamava “cuju” e consistia também na possibilidade de o jogador precisar evitar ataques do adversário, que precisava defender a sua rede. Ou seja, há no mínimo 2.300 anos, o homem descobriu o prazer e a diversão de chutar uma bola em uma rede.

Passando pelo haspartum romano, pelo marngrook australiano e também pelas diferentes atividades que originaram o rugby e o futebol americano, chegamos ao dia 26 de outubro de 1863, onde 12 clubes londrinos se reuniram para dar início a “association football”, o primeiro conjunto de regras que, por consenso, diferenciaram este novo desporto de outros e fundaram oficialmente o football. Só 11 clubes assinaram o consenso, pois um deles achou o esporte muito leve e foi para o rugby. Uma das principais e primeiras regras que o diferenciavam de outras atividades, curiosamente, era o impedimento - para alguns não atenciosos (brincadeira!), incompreensível até hoje; mas que aqui já demonstra a sua importância.

obv fut surg.jpg

Enfim, estava criado o football. Simplesmente foot e ball. Pé e bola. O crescimento e desenvolvimento do novo esporte se deu naturalmente. Já em 1871, jogava-se a primeira FA Cup, atualmente conhecida como Copa da Inglaterra, torneio mais antigo do mundo.

Mas a minha intenção aqui não é histórica. A apresentação é importante para despertar a atenção a dois pontos; primeiro, ao fato de já há 2.300 anos ou mais alguém já estar chutando uma bola; e segundo, ao rápido desenvolvimento da nova modalidade como esporte. O que pensei realmente em me dedicar, aqui, é analisar o futebol de uma maneira mais complexa: como expressão cultural, artística, política e – por que não? – até mesmo filosófica.

A pergunta primeira, que surge junto com a ideia, é quase que geral – tanto amantes do esporte, como eu, quanto os mais céticos e críticos normalmente a fazem: por que este esporte desperta tantas paixões?

O que apresento aqui é uma tese. Discutindo-a com amigos e até em aulas com um professor, foi desenvolvendo-se. Eis: o que é o futebol, senão uma representação de guerra? Sem armas. Quase pacífica. Mas sim, a representação, quase teatral, de um campo de batalha? Uma representação da guerra de forma divertida, prazerosa. Uma divisão igual, de 11 soldados para cada lado, misturados no campo, buscando o ataque à base adversária.

Vamos a alguns detalhes etimológicos: esporte, em português, vem do inglês sport, que veio do francês desport, que significa passatempo, recreação, prazer , jogo, diversão. Guerra surge do alemão werre, que em tradução mais antiga, levava a algo como “trazer confusão”. Confusão, por sua vez, do latim confusio, significava mistura ou desordem. A diversão pela mistura, o prazer na confusão, o jogo na mistura de elementos. Não é isso que vemos, também nas competições oficiais, mas principalmente nos campos de bairro, nos clubes ou em qualquer espaço onde existam um grupo de pessoas, uma bola e no mínimo 4 chinelos ou tijolos para fazer 2 traves?

obvious fut meninos.jpg

Sei que a analogia pode ser pensada para vários esportes, principalmente os de campo ou quadra. E até no xadrez, ora! Mas no futebol, isso parece mais forte. Nas expressões linguísticas do esporte, até.

Os que mais atacam as bases adversárias são os “artilheiros”. Ás vezes, atacam tão forte que chutam uma “bomba”. Os protetores das bases são chamados de “arqueiros”. Ficam na retaguarda, na proteção, evitando os ataques.

Já que o objetivo do jogo é o ganho de território para que o ataque fique mais próximo e mais fácil, no meio-campo estão as trincheiras. Alguns ficam na “contenção” e outros fazem as “assistências” à artilharia. Ali se decide quem está atacando e quem tem que se defender. Nas laterais, os responsáveis pelos “flancos”. Ajudam no ataque, mas precisam voltar para compor a guarda. Lembram a torre do xadrez. Os defensores são os responsáveis pela guarda, mas também podem aparecer como “elemento surpresa”.

Assim como nas guerras, também o futebol tem as suas cortes internacionais, ou seus juízes. Eles devem supervisionar o combate e conhecer as regras. Tão criticados como a ONU, eles devem intervir quando há violência desnecessária. Quanto o ataque é covarde, devem proibir, pois estão “impedidos”. Os treinadores, como os generais, definem a “estratégia” ou as “táticas” de ataque. Buscam atacar as fraquezas e substituem tropas quando estas estão fracas. O que diferencia os soldados na batalha são os uniformes, que funcionam como as fardas. Cores, símbolos e diferentes identificações.

E as torcidas? O que seriam senão as populações dos territórios? Quando o adversário está em maioria, está se jogando fora de casa, preocupa-se mais com a defesa. Quando se joga em casa, com apoio de sua população, ataca-se mais, a chance de vitória é maior, conhece-se melhor o campo.

Uma parada para um parêntese aqui: acredito que qualquer pessoa que se dedicou, em algum momento, a estudar e conhecer com alguma profundidade a história humana chega à conclusão de que a história do homem na terra é feita de guerras. O que vivemos hoje, onde estamos, nossa tecnologia; tudo é resultado de guerras. A história é feita de conquistas, de competição por território, de conflitos. Posso talvez dizer que gostaria que assim não fosse, mas é fato. O humano, por toda a história, precisou de guerras. Sempre sentiu a necessidade de proteger e guardar o seu local, sua pátria e de defender seus valores e símbolos, junto com a vontade de expandi-los, na busca por mais poder e influência. A palavra torcedor, etimologicamente, embora a origem seja incerta, era entendida como “aquele que manifesta predileção por um lado, que deseja vivamente vitória”. Por isso ele está sempre ali: gritando, motivando, apaixonado. A sua pátria precisa vencer a outra. Seu território tem que ser protegido.

Muita gente acha uma paixão boba. Não vê sentido. E de fato, é apenas uma representação. Como uma peça teatral, um filme, não é real. Mas é - como o mesmo filme, como a peça teatral, como uma dança ou como uma pintura – expressão artística. É arte. Sim, arte! Aquela seleção brasileira de 1982 não fazia arte? Aquele Arsenal de 2004? E o Barcelona de 2009 a 2011? São verdadeiros artistas, e como! Transformam a sua técnica, a sua habilidade, em demonstração de beleza estética, em imagens catárticas.

Não há corpos. Sangue, só em alguns acidentes. É uma guerra pacífica. Melhor assim, não? Não se pegam em armas, não se veem explosões nem se ouvem tiros. São necessárias, sem dúvidas, a habilidade e a técnica. Ou seja, o corpo capaz, preparado, o elemento físico; e o conhecimento, o saber como, o passar da teoria para a prática, da cabeça para o pé, o elemento mental.

Pensamento e corpo se fundem para expressar arte, cultura. O futebol é inegavelmente elemento cultural. E isso não pode significar, como dizem alguns, sinal de pobreza cultural. Há como ranquear formas de arte? O que é melhor, pintura ou música? Cinema ou fotografia? Não existe resposta. Arte é expressão. Indiferente é o método. É cultura, é beleza.

Para além ainda da sua função como cultura, como arte e como expressão, o futebol – e aqui ele se aproxima ainda mais da analogia da guerra – ganhou, com o tempo, grande poder político.

Alguns exemplos mais conhecidos e próximos: o uso feito pela ditadura militar brasileira da Copa de 1970 como ferramenta de união de um país politicamente em frangalhos – todos conhecemos o “90 milhões em ação”, não? ; assim como o uso pela ditadura militar argentina da Copa de 1978, realizada no país, na tentativa de popularizar o regime e distrair sua população. Aliás, foi frequente a utilização política do futebol pelas ditaduras militares na América Latina. Sobre o tema, nada mais é preciso além do excelente documentário do mais excelente ainda jornalista Lúcio de Castro, “Memórias do Chumbo – o futebol nos tempos do condor” (disponível aqui: https://www.youtube.com/watch?v=cCb_UjiskbA&list=PLXdvLr8TDW05jVmhJPmsVnKO-tExdF-jt), onde ele conta a história do uso político do futebol realizado pelas ditaduras no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Chile, em 4 episódios.

Mas não só na América assistimos essa expressão política do futebol. Na Escócia, por exemplo, considerado por muitos o maior clássico do mundo, Celtic x Rangers levam sua rivalidade para muito além do campo. A questão é religiosa: o Celtic é o clube que representa o catolicismo do país; o Rangers representa o protestantismo anglicano. E também é puramente político: O Celtic tradicionalmente defende a separação da Escócia do Reino Unido, enquanto o Rangers é a favor da unidade do Reino.

Na Espanha, o futebol também expressa a questão política a partir de seu clássico: O Real Madrid é tido como o time da realeza, do poder financeiro, sendo inclusive o time de coração do General Franco, ditador durante 35 anos. Já o Barcelona representa a rebeldia e a independência da Catalunha, província que reivindica até hoje a sua separação da Espanha. Até hoje, o Real Madrid tem essa aura de time que compra, que se impõe financeiramente; já o Barcelona investe bastante na formação, em jogadores catalães, na sua base.

obv fut catalunya.jpg

Na Turquia, outro exemplo: O Fenerbahce é o representante da parte asiática do país, representando os trabalhadores e os mais pobres; enquanto o Galatasaray, na parte europeia turca, representa os mais abastados, mais ricos. Essa rivalidade entre classes representada pelo futebol acontece também na Argentina: o Boca Juniors, residente do bairro La Boca, tem a sua simbologia voltada para a comunidade, o povo, o trabalhador; enquanto o River Plate, que também surgiu em La Boca, se mudou para Belgrano, bairro rico de Buenos Aires, representando assim os empresários, os mais ricos.

Na Inglaterra, um exemplo da influência política do futebol na rivalidade entre cidades. Manchester, território do Manchester United, fica a apenas 50 km de Liverpool, casa do tradicional time vermelho. Ali pelos meados do século XIX, Liverpool tinha o principal porto da Inglaterra, enquanto Manchester era grande produtora no setor têxtil, necessitando, porém, dos produtos que chegavam no porto de Liverpool. Para estimular a sua economia, Liverpool impunha altas taxas para enviar as matérias-primas para Manchester. Manchester, por sua vez, construiu um canal que facilitava esse transporte direto, estimulando a rivalidade entre cidades. Esse canal, inclusive, é representado no próprio escudo do Manchester United.

O que essas histórias mostram enfim? Que o futebol passa a ser, no seu desenvolvimento, muito mais do que uma distração ou uma simples representação. O futebol é o elemento cultural e histórico onde diversos grupos de pessoas encontram a sua representatividade, encontram seu lugar, seu símbolo, sua paixão, sua cultura. Encontram nesses símbolos a sua vida, seus pares, seus iguais. Sua classe social, seus valores, suas expressões.

E encontram, principalmente o modo pacífico de se confrontar: não pela guerra, mas sim pela torcida, pela expressão, pela representação, pelos gols, pela arte!

Não podemos ser cegos, porém. É claro que essa paixão traz também problemas: por paixão demais, em alguns casos torcedores confundem a analogia e partem para a guerra em si: violência, ódio, até mortes. Por paixão de menos, os soldados, da analogia, são hoje em sua maioria nada mais que eram os mercenários: jogam com o uniforme e fingem amor, mas na verdade só trabalham por dinheiro. Aliás, no futebol moderno, quase tudo o que aqui foi dito pode estar sendo enterrado pela influência do dinheiro. Paixões são compradas e vendidas, símbolos desaparecem e mercenários comprados por valores astronômicos. Até entrar no campo para assistir a batalha e torcer está cada vez custando mais. Quando o campo de batalha se esvazia de torcedores, quem os soldados representam?

Mas a essência do esporte não é essa. A essência é aquela: expressão artística, representativa, a guerra pacífica, a diversão a partir da mistura.

Arrigo Sacchi, italiano, um dos maiores treinadores e conhecedores desse esporte, uma vez disse que “o futebol é a coisa mais importante dentre as menos importantes”. Ele acertou naquele Milan do fim da década de 80, mas errou nesta frase. O futebol traz, em si, o que é mais importante para o humano: conquista, arte, cultura e política. Não há hierarquia de importância; e não há separação possível: são partes de um todo.

Não, não são só 22 loucos correndo atrás de uma bola. Triste aquele que pensa ser o futebol só um simples jogo.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
Saiba como escrever na obvious.
version 9/s/sociedade// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Bruno Lima