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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

Edgar Morin, complexidade e universidade

A reforma do conhecimento que Edgar Morin pensa é essencialmente uma reforma da universidade que de universal não tem nada; de um ensino superior que ao se adequar às demandas da ciência que se fundamenta na técnica, se inferioriza e perde a sua essência: questionar, criticar, escrutinar a realidade posta. Saídas? Viver poeticamente, se autoformar e ser, no sentido mais pleno da palavra, professor.


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Na etimologia – sempre um ótimo caminho para compreender conceitos - , “complexidade” vem do latim complexus, que significa “o que é tecido em conjunto”. Nessa definição, já se tem uma ideia do pensamento básico da teoria complexa: a junção, o conjunto, o universo, a noção de que tudo está ligado, influi e é influenciado por tudo. É um pensamento filosófico e epistemológico que tem como grande pilar estruturante a transdisciplinaridade.

A complexidade busca conceber uma visão conjunta entre as diversas áreas de estudo para pensar, de forma questionadora, com um olhar escrutinador, a natureza, a realidade, a vida, o mundo. Sua epistemologia é audaciosa: a proposta é criar uma “epistemologia da epistemologia”, ou seja, pensar o conhecimento, colocar o próprio conhecimento como objeto. Para isso, a complexidade tem uma visão dotada de uma fervorosa crítica aos paradigmas de pensamento e de conhecimento que hoje temos (im)postos.

Pensando uma abordagem multirreferencial e transdisciplinar de todos os fenômenos, o autor propõe uma mudança de paradigma da construção do conhecimento. Ao abandonar o reducionismo, a disjunção e a especialização dos saberes, o conhecimento abriria espaço para a criatividade, a subjetividade e um tipo de organização que poderia ser chamado de ordem desorganizada. Como fatalmente percebe-se, trata-se de um pensamento que tem como grande objetivo a educação, visando não separar as diversas disciplinas, áreas de estudo e formas de ciência, abrindo espaço para a emergência de novas formas de conhecimento e de compreensão da realidade.

Afinal, para mim, pesquisador acadêmico da área da educação, e creio que para a grande maioria dos meus leitores, é difícil pensar em alguma proximidade entre as ideias complexas e nossas instituições formativas.

Edgar Morin pensa e teoriza de forma propositiva uma mudança nesse sistema educacional que se tornou hegemônico no Ocidente. Ele quer uma reforma na educação, que seja pensada com base em uma premissa principal: qualquer reforma da educação precisa começar pela reforma dos educadores. Ou seja, para o francês, o locus primordial dessa reforma-revolução é a universidade, onde estão os futuros educadores, que atuarão no ensino básico e também no próprio ensino universitário.

A universidade é a guardiã da herança cultural. Ela reexamina a cultura, atualiza-a e transmite-a. Para além disso, o mais importante: a universidade GERA cultura, que fará parte, depois, daquela herança. A universidade, então, ao mesmo tempo, conserva, regenera e gera cultura. Assim, é necessário que ela tenha imparcialidade. Precisa ter e estimular a autonomia, a liberdade de pensamento, a laicidade. É da sua essência questionar, problematizar o mundo, a vida, a natureza e Deus.

A partir da reforma universitária de Berlim, no início do século XIX, que, segundo o autor, introduziu as ciências modernas na universidade, fazendo assim coexistir, separadamente, humanidades e ciência dentro do âmbito universitário, a universidade adquiriu uma dupla função na sociedade capitalista que estava em formação: a formação para a pesquisa, com a investigação crítica - que já existia a seu modo -; e passa a ter também a função de formar para o mercado, formar profissionais que são demandados pela sociedade capitalista e industrial crescente, criando métodos de ensino técnico, profissionalizante, especializador.

Aceita o discurso iluminista do progresso a qualquer custo; da técnica que tem como essência o domínio da natureza; da negação do Deus da Idade Média a partir da construção do novo deus moderno: a ciência empírica. Dona da verdade, essa ciência se impõe e sua evolução como tecnologia cria as demandas pelas quais a universidade se torna responsável.

Esse, diz Morin, foi o principal erro histórico da universidade. Nesse momento, ela perdeu a essência de sua atuação crítica, questionadora, inquiridora, para resolver demandas técnicas da sociedade do progresso técnico, função que deveria, por lógica, ser atribuída ao ensino técnico, um tipo de terceiro grau profissionalizante. Ao se adequar à sociedade, a formação universitária começa a se adequar também, no geral, àquele paradigma: esse processo segmentador evoluído, que ensina a separar objetos e disciplinas, não as relacionando; cuja ordem principal é eliminar tudo que possa trazer desordens. Isso resulta no conhecimento linear, hierárquico, programado, mecânico. O ideal de ensino superior, que precisa questionar o instituído, pensar sua realidade, sua sociedade e seus fenômenos, perde totalmente o protagonismo.

Essa formação hiperespecializadora encontra o seu paradoxo atualmente, na dificuldade que tem em compreender os problemas e as mazelas naturais, sociais e urbanas de hoje. Fica claro que essas mazelas não são simples ao ponto de serem resolvidas por especialistas de uma só área. Elas são complexas, globais, e as soluções de especialistas nunca resolvem o problema em sua raiz – serão sempre apenas soluções mitigatórias. A questão ambiental é o maior exemplo. Como aceitá-la e buscar sua solução quando estamos ainda envoltos em uma ideia de ciência e técnica que tem como pilar o domínio e a exploração da natureza?

Por acreditar que o principal objetivo da educação deve ser formar sujeitos críticos e autônomos, que tenham plena consciência dos problemas que enfrentarão no seu futuro e que saibam como resolvê-los, Morin teoriza sobre a reforma do pensamento, primeiramente, nos educadores. Somente a interdisciplinaridade não é a solução. A interdisciplinaridade precisa ir mais além, precisa se tornar transdisciplinaridade. A interdisciplinaridade apenas une disciplinas, uma colabora com a outra em determinados projeto ou cronogramas. Já a transdisciplinaridade implica um pensamento profundo, que vai para além das disciplinas, buscando, com a colaboração de todas, organizar novas formas de pensamento. Pensamentos que sejam conectados e circulares, dialógicos, que integrem não só as partes ao todo, mas que concebam o todo no interior de cada uma das partes.

O pensamento de Morin acaba então numa proposta de reforma, tanto do pensamento quanto do ensino, que se organiza em três pontos principais: a) problematizar os paradigmas de conhecimento; b) substituir o pensamento linear pelo complexo; e c) buscar a transdisciplinaridade.

Como já foi dito, a reforma para ele deve começar na universidade, onde estão sendo formados os educadores que atuarão na formação das novas gerações. Mas como pensar essa mudança do sistema universitário de modo a formar educadores conscientes da complexidade, se a universidade hoje não se apresenta, no geral, favorável a esse pensamento? Se há ainda alguma junção dentro deste imenso ambiente segmentado que vemos, é apenas entre a universidade e a ideia de ciência que se entregou às demandas técnicas.

Morin só consegue ver um caminho: junto da defesa da formação crítica, buscar a autoeducação.

A autoeducação dos educadores, que os capacite a educar de acordo com as necessidades exigidas pelo futuro, parece ser uma quase que última esperança no sentido da consciência da necessidade de se girar o pescoço e ver essa ciência e essa tecnologia impostas de uma outra forma. A quase utopia é ver os professores se autoeducando, e depois atuando nas escolas e universidades, de modo a transformar a consciência coletiva. O autor, incrivelmente, se mostra esperançoso, pois o mundo de hoje, segundo ele, oferece cada vez mais possibilidades de se atingir essa autoeducação consciente da complexidade. A autoeducação exige constante questionamento interior, constante problematização e crítica, e isso tudo, para ele, está na essência da atuação do educador e na escolha em ser educador. A cada dia que passa, o educador tem mais possibilidades de vencer os obstáculos que a sua formação e as instituições lhe impõem, podendo se autoeducar e assim se formar plenamente.

Nesse âmbito da esperança e do otimismo, Morin nos lembra que esse processo não começa do zero. Ciências como a geografia, a história, as ciências da terra, a cosmologia, entre outras, são multidimensionais, polidisciplinares; nelas, para se obter o real conhecimento das partes, é necessário o conhecimento do todo. Ecossistema, biosfera, ecologia são alguns dos conceitos que exemplificam isso. Já existem também teorias como a cibernética, a teoria da informação e a teoria dos sistemas, que permitem que se estude e se entenda a auto-organização, a autonomia e a liberdade contidas dentro de seus processos.

A formação precisa criar os cidadãos preparados a enfrentar os problemas de seu tempo. E se os problemas se mostram complexos, nos desarmam e nos surpreendem a todo o momento, o caminho não é outro senão rearmarmo-nos intelectualmente.

A reforma pensada por Morin, é necessário deixar claro, não quer suprimir as disciplinas, e sim articulá-las, relacioná-las, religá-las, enfim, vitalizá-las. Ele deixou isso claro quando foi convidado pelo governo francês, em 1997, para pensar um programa de reorganização do ensino secundário francês. Sua proposta foram as jornadas temáticas, com grandes temas como Mundo, Vida, Ciência, Humanidades, Poesia, Artes, entre outros, ou seja, grandes temas que envolvem disciplinas que vemos hoje isoladas, separadas. Não é surpresa dizer que a proposta não foi implementada. Mas a discussão que gerou foi altamente positiva para o campo pedagógico.

As disciplinas, como as temos hoje, só hierarquizam o conhecimento científico, o divide e especializa. Mas elas, assim como as instituições que as modelam, tem nascimento, maturidade e evolução. É quase natural que chegue a hora, então, da decadência.

Morin se mostra otimista no sentido de dizer que o caminho se faz ao andar. É um filósofo, não um projetista. Ele dá ideias, indica caminhos, evidencia as finalidades e a complexidade dos problemas; mas deixa bem claro em sua obra que o caminho e a evolução virão a partir dos desafios que o tempo nos reservar.

A reforma, então, assim como o mundo, não pode andar sobre um caminho já traçado, visto que o futuro é incerto. A reforma precisa ser um empreendimento histórico; precisa ser compreendida pelo universo docente, e, junto com a autoeducação, estabelecer a expansão do pensamento e da consciência. Como repete o autor a todo o momento, a premissa é: não se pode reformar as instituições sem antes reformar as mentes e os espíritos.

O desafio é grande, e nele seguimos.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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