filosofia tecnologia arte e pensamento

Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

O Brasil precisa de um Pepe Mujica

Talvez um título mais apropriado para o texto seria "O que a esquerda política no Brasil precisa é de um Pepe Mujica". Mas, apesar de partir de uma visão tida como de esquerda, acredito que o escrito é de um tom totalmente conciliatório (assim espero).


mujica uerj.jpg

A intenção é partir de um principal pressuposto: a crise política que o Brasil vive é consequência de uma polarização política que já está ultrapassada. Não só o PT x PSDB, direita x esquerda; mas o trabalhador x empresário; o intelectual x o burguês; o coxinha x o mortadela; e também e principalmente o eterno "capitalismo x socialismo".

Acredito que boa parte da esquerda já entendeu isso, mas é preciso reafirmar: gente, o capitalismo venceu. A forma capitalista de ver o mundo e a economia são hoje hegemônicas. Suas formas de produção, de tecnologia e de monetarização dominam as relações sociais.

Isso não significa uma declaração de derrota; uma boa parte do pensamento político de esquerda já há tempos conseguiu aceitar isso e fazer disso a definição de seu novo caminho. Não se trata mais de uma luta entre capitalismo x socialismo. Hoje, o confronto se dá entre um tipo de capitalismo estrito, hierárquico versus um capitalismo mais socializado, igualitário.

É preciso aceitar: desde a Comuna de Paris, passando pela Revolução Chinesa, pela Revolução Sandinista, a Revolução Vietnamita e a Revolução Russa, as alternativas revolucionárias com objetivo de superar o capitalismo como sistema de vida não conseguiram se manter. A Revolução Cubana conseguiu assumir o poder em seu país, mas sob o custo de uma liberdade política bastante tolhida. Esses movimentos, historicamente falando, são importantes e, de certa forma, vitoriosos. São exemplos, histórias, experiências. Mas por mais difícil que seja, aceitemos: o capital tem mais vitórias. Ele venceu e hoje é regra.

A partir da efetiva hegemonização do capitalismo como sistema econômico, a esquerda desenvolveu o caminho que para mim é a sua maior vitória: conseguiu colocar as suas pautas mesmo dentro da lógica econômica do capital; e busca desconstruir o extremismo do capital por dentro dele próprio.

Adam Smith, grande teórico do capitalismo, dizia que em um ambiente totalmente livre para o mercado e para a concorrência, uma mão invisível faria a necessária redistribuição de recursos, a partir do crescimento da economia. A história nos mostra que isso não se efetivou.

As lutas políticas progressistas são as responsáveis por grande parte das conquistas sociais, que se deram na esfera da igualdade. Igualdade: essa é a palavra mágica. Palavra da conciliação. Talvez a única posição em que se possa hoje buscar consenso é a sua defesa. Mas essa observação é necessária: toda tendência que lute pela igualdade, é, por definição, uma tendência socialista. O capitalismo puro, teórico, utópico, não tem face igualitária; ele é basicamente mais-valia e exército de reserva. A face igualitária que o capitalismo pode hoje apresentar é o que o ideal socialista arrancou dele no confronto.

Por isso, aquele velho "ah, mas tu é socialista? Me diz, onde o socialismo deu certo?" é facilmente confrontado. Deu certo em todo lugar! Principalmente onde não foi ao poder, atuando por dentro. A preocupação com valores humanos, com as culturas e com a igualdade são realizações de lutas socialistas. Mas quais são essas vitórias? Para tratar rapidamente, uma palavra basta: direitos. As tendências socialistas às quais o capital teve de ceder ao menos um pouco, tiveram sucesso em instaurar valores universais e oficializá-los como direitos. Direitos humanos, direitos trabalhistas...ou alguém realmente acredita que em um ambiente puramente capitalista o trabalhador teria direito a férias remuneradas, décimo terceiro, previdência e jornada de 8 horas? Os trabalhadores industriais que dormiam ao lado dos seus postos para acordar e começar logo o trabalho em 1860 com certeza nem sonhavam com isso. O capitalismo, enfim, está embebido de socialismo.

Mas ok, quando esse papo vai chegar em Pepe Mujica? Vamos lá.

Como toda essa introdução pôde nos fazer perceber, se a dicotomia "esquerda x direita" hoje já se mostra em vias de superação, ainda mais está aquela "capitalismo x socialismo". O que temos é um sistema econômico vitorioso mundialmente, mas que politicamente e socialmente pode se dizer híbrido. Uma mistura, um consenso resultante do confronto. Então, a meu ver, essa guerra fria ideológica não cabe mais. O que precisamos é progredir nessa luta para a evolução de um modo de vida mais igual economicamente e mais justo. E como fazê-lo? Como sempre foi: na atuação política.

Neste sentido é que tenho Pepe Mujica como um grande exemplo. E cada dia mais me vejo imaginando que somente um fenômeno como ele pode ser uma esperança para a crise política brasileira. Resumo meu pensamento em 4 pontos.

1) O acordo de coalizão da FAU - A Frente Ampla Uruguaia, partido do qual Mujica é membro, ao contrário de grande parte dos partidos políticos brasileiros, deixa claro em seu nome o que é a sua constituição. Uma frente ampla. Não se trata nada mais do que uma união entre diversos partidos, nascida em 1971, a maioria de tendência à esquerda, para discutir, debater as suas ideias e buscar um consenso para uma sistematização de atuação política. Uniram-se então o Partido Comunista, o Socialista, o Operário e até mesmo cristãos-democratas. Uniram-se também dissidentes dos Partidos Blanco e Colorado, que polarizavam a política uruguaia à época, com tendência mais à direita. Uniram-se também movimentos sociais e movimentos representativos de setores sociais de luta (negros, homossexuais, estudantes, por exemplo). Em 1984 (percebam, foram 13 anos de debates), a Frente Ampla lança a sua "Declaração Constitutiva de Coalizão", um acordo sistemático que iria, a partir daí, basear a atuação política da Frente. Desde esse momento, a Frente Ampla Uruguaia, em todos os processos eleitorais que participou, só viu crescer o seu número de vereadores, prefeitos, parlamentares e senadores, até chegar ao governo do país, em 2004. Governa o Uruguai até hoje.

O que quero dizer é que para que haja uma efetiva atuação política mirada para ideais progressistas, será inevitável a coalizão. FHC, sociólogo e autor ligado intelectualmente à esquerda, sabia disso, quando pediu, ao assumir a presidência, que esquecessem o que ele havia escrito. Lula também sabia, quando em meio à campanha de 2002, onde seria eleito, divulgou a "Carta aos Brasileiros", interpretada como um meio de acalmar os mercados e o empresariado frente a iminente vitória de um metalúrgico socialista. Mas ambos não conseguiram estabelecer esse debate dentro da sociedade brasileira; nenhum deles conseguiu realmente buscar uma sistematização resultante de um acordo político. A polarização política que vivemos no Brasil é resultado disso.

2) A defesa do coletivo frente ao individual na política - Em uma das primeiras entrevistas que assisti de José Mujica, ele contou que no início de seu governo surgiu a ideia de comprar para o Uruguai um avião presidencial. Junto a isso, surgiu também a proposta da compra de um helicóptero bem equipado com recursos de socorro e de resgate, que fosse colocado em um ponto estratégico do pequeno país para que pudesse haver socorro a acidentes de forma mais rápida e eficiente. Só havia dinheiro para uma delas. A resposta para ele foi simples: um avião para mim ou um serviço coletivo para salvar vidas? Era óbvio para ele.

Há uma genuína preocupação de Mujica em separar a economia da política. É claro que crescer economicamente é importante para o país, mas a prioridade precisa ser a distribuição desta renda em serviços para a sociedade. O capitalismo sempre apostou que o crescimento econômico seria em si mesmo o autor dessa redistribuição econômica. Há diferentes percepções nessa questão, mas para mim está claro que não houve êxito. O que fazer então? Não permitir que a política, como atividade coletiva e social, se reduza aos interesses econômicos. Defender a ideia basilar do homem como animal político, gregário, que busca a civilização, a associação.

Sua humildade ficou famosa: o presidente andava de Fusca, morava em sua fazenda e doava mais de 90% de seu salário para a filantropia. Alguns o viam como alguém que "odiava os ricos e os ambiciosos". Em uma entrevista, ele desmente: "Não sou intolerante com quem gosta de dinheiro. Que entrem para o comércio, para a indústria, que multipliquem suas riquezas! Só não use da política para fazer essa multiplicação".

Aqui Mujica deixa claro o seu tom conciliatório. Todos têm suas ideias, objetivos e modos de viver. Mas a política e o social são o lugar do coletivo, e precisam ter prioridade frente ao modo individual que a economia age em um ambiente capitalista. Será que não precisamos disso em nosso país? Humildade de nossos políticos? Atuação política fora de interesses econômicos? Uma visão mais igualitária de sociedade?

3) Habilidade em se comunicar com os jovens - É notório, não só no Brasil, mas até globalmente falando, a descrença dos mais jovens em relação à política. Esse velho modo de fazer política, segmentado, regrado, hierárquico, repressivo, onde impera o tal do toma-lá-dá-cá, não estimula a juventude a participar de sua construção, discussão e efetivação.

A grande maioria das palestras proferidas por Pepe Mujica são feitas em universidades. Como vemos na foto de capa deste artigo, seus discursos são capazes de encantar um público jovem, em formação, e dar-lhes esperança na atuação política, na construção da democracia e na luta por igualdade econômica. Considero isso de extrema importância, pois, como vimos na constituição da Frente Ampla Uruguaia, o debate pode, e deve, ser longo. Discutir ideias, construi-las, sistematizá-las e discuti-las é algo que, por exemplo, na velha política brasileira, será quase impossível. O ambiente político no Brasil cada vez se mostra mais e mais contaminado por interesses econômicos, ideológicos e religiosos.

Acredito que quem poderá oxigenar essa forma de fazer política em nosso país só pode ser a juventude. Movimentos sociais, estudantes e militantes podem e buscam, em seus locais de atuação, fazer essa desconstrução crítica e ainda ter o gás de pensar o que pode ser o novo, o que está por vir. Por isso, o estímulo de uma figura como Mujica seria primordial. Dilma Rousseff poderia ter sido essa figura. Guerrilheira contra a ditadura, torturada, conheceu o que de pior nossa política pode produzir e ainda assim manteve sua esperança na atuação, chegando ao cargo maior da república. Não conseguiu, porém, construir a discussão e a conciliação em um país fragmentado pelo ódio e pelo rancor.

Por fim, o ponto 4) A importância de se ter um horizonte - Mujica diz sempre que o mais importante na atuação política é ter um rumo, um horizonte, algo quase como que uma utopia, um sonho. Uma visão de uma sociedade que viva melhor, e uma atuação política que vá rumo a essa visão.

Dentro desse ponto, fica ainda mais difícil aceitar a velha polarização direita x esquerda. Ela cada dia fica mais antiga e fatalmente vai caducar, como caducou a guerra fria ideológica entre capitalismo e socialismo. Já temos hoje exemplos. A desilusão com a globalização é o mais claro. Tanto uma parcela da "direita" como da "esquerda" encontram-se nessa desilusão com o processo da globalização dos mercados. Tanto a direita nacionalista do caso Brexit, por exemplo, quanto a esquerda que governa a Grécia. Tanto a Espanha com o Podemos quanto a extrema direita francesa dos Le Pen.

Dois polos políticos se encontram em uma mesma bandeira: é necessário voltar à política local. O problema está no "como fazer". Um lado se extremiza para a discriminação e a xenofobia. Outro em alguns momentos quer o poder fora de princípios democráticos. Mas há uma bandeira, uma luta, e os que estão "entre os extremos" estão fazendo essa atuação independentemente de espectros ideológicos.

Acredito que essa é uma lição de Mujica perfeita para finalizar esse texto. A conciliação da polarização violenta pode vir no sentido do horizonte que se tem, do ideal, da estrela, do fim, do objetivo final. Buscar, pensar e discutir esses ideais parece ser hoje mais importante do que fragmentá-los em lados, espectros ou formas fixas de pensamento. O ideal estará lá e pode nunca ser alcançado. Mas essa liberdade que nos oferece o simples fato de ter uma causa, um propósito, uma orientação, um compromisso é o que pode construir o caminho que, tendo essa estrela como guia, será belo, será o verdadeiro triunfo. Com certeza, foi essa liberdade de pensamento que ofereceu as forças com que Mujica resistiu há 13 anos de prisão de seu corpo físico, ressurgindo para atuar politicamente em seu país e ser hoje um exemplo, um desses guias do caminho para uma nova política.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// //Bruno Lima