filosofia tecnologia arte e pensamento

Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

Se a filosofia não vai se diversificar, vamos chamá-la do que realmente é

Me proponho aqui à tradução deste texto, publicado no New York Times pelos professores estadunidenses Jay Garfield e Bryan Van Norman.
Eles falam da realidade do estudo da filosofia no seu país - mas acredito que a discussão cabe bastante para a realidade brasileira, na área da filosofia.
Apesar de estarmos em uma região historicamente bem diversa, ainda vejo muito dessa centralidade eurocêntrica e ocidental nos nossos departamentos de estudos em Filosofia. Acredito que tanto a realidade descrita quanto os conselhos que propõem se aplicam aos estudos e departamentos de filosofia no Brasil.
É extremamente necessário que essa discussão tome forma - está em jogo uma real liberdade de pensamento, essência da filosofia como saber.


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A vasta maioria dos departamentos de filosofia nos Estados Unidos oferece cursos (disciplinas) somente na filosofia derivada da Europa e do mundo que fala inglês. Por exemplo: dos 118 programas de doutorado em filosofia existentes nos Estados Unidos e Canadá, apenas 10% tem pelo menos um especialista em filosofia chinesa como parte de seu corpo docente. A maioria dos departamentos de filosofia também não oferecem cursos em filosofia africana, indiana, islâmica, judia, latino-americana ou de qualquer tradição não europeia. De fato, nos 50 mais conceituados programas de doutorado em filosofia dos países de língua inglesa, apenas 15% tem qualquer membro docente ensinando QUALQUER filosofia não ocidental.

Dada a importância das tradições não europeias na história da filosofia mundial e no mundo contemporâneo, e dado o aumento do número de estudantes não europeus nas faculdades e universidades americanas, isto é surpreendente. Nenhuma outra disciplina das ciências humanas demonstra em seus domínios uma negação tão sistemática da maior parte das civilizações. Essa situação é difícil de justificar moralmente, politicamente, epistemologicamente ou mesmo como afirmação de uma boa prática de pesquisa e educação.

Nós, autores – junto com vários colegas e estudantes – trabalhamos por décadas para convencer a filosofia americana a ampliar os cânones de seu trabalho e do seu ensino; demonstramos aos colegas a urgência de olhar para além do cânone europeu em suas próprias pesquisas e atividades. Enquanto alguns poucos departamentos tornaram seus currículos mais diversos, e mesmo com a Associação Americana de Filosofia lentamente ampliando sua representação da filosofia mundial em seus programas, o progresso ainda vem sendo mínimo.

Muitos filósofos e muitos departamentos simplesmente ignoram os argumentos para uma maior diversidade; outros respondem com argumentos pró-eurocentrismo que nós e muitos outros já refutamos várias vezes. O campo da filosofia como um todo permanece resolutamente eurocêntrico. Por conseguinte, parece inútil pesquisar, pensar e ensaiar novos argumentos por uma maior diversidade, por mais atraentes que nos pareçam.

Ao invés disso, nós pedimos então àqueles que sinceramente acreditam que faz sentido organizar nosso campo inteiramente em volta de textos e figuras americanas e europeias que realmente defendam essa ideia abertamente e com honestidade. Sugerimos que todo departamento que ofereça regularmente somente cursos sobre a filosofia ocidental que se renomeiem “Departamentos de Filosofia Americana e Europeia”. Essa simples mudança mostraria claramente o domínio e a missão desses departamentos, e já sinalizariam aos estudantes e colegas suas verdadeiras intenções e compromissos intelectuais. Não vemos justificativas para resistir a essa pequena reestruturação (embora comentários com visões opostas a este artigo sejam bem vindos), particularmente daqueles que endossam, implicitamente ou explicitamente, essa orientação eurocêntrica.

Alguns de nossos colegas defendem essa orientação com o argumento de que a filosofia não europeia pode pertencer apenas aos departamentos de “estudos de áreas”, como “Estudos da Ásia”, “Estudos da África” ou “Estudos Latino-americanos”. Nós pedimos a quem tem essa visão que sejam coerentes, e que aloquem seus departamentos também como “estudos de áreas”, no caso, “Estudos de Filosofia Anglo-Europeia”.

Outros podem argumentar contra a renomeação dizendo ser injusto segmentar a filosofia: “Não temos departamentos de matemática ou física euro-americanas”. Isso não passa de pobres sofismas. As tradições filosóficas não europeias oferecem distintas maneiras de pensar e soluções para os problemas discutidos pelas filosofias europeia e americana; elas focam e dão importância a alguns problemas que a tradição americana e europeia não se preocupam tanto; também enfatizam e discutem mais profundamente problemas filosóficos que são marginalizados na filosofia anglo-europeia. Não há diferenças consideráveis ou comparáveis na forma como a matemática ou a física são pensadas e praticadas em outras culturas contemporâneas.

É claro que acreditamos que renomear departamentos não teria um valor nem próximo ao de efetivamente ampliar os currículos do campo da filosofia e todos termos esse nome: filosofia. A filosofia como campo tem o problema sério da diversidade, com mulheres e minorias sendo mal representadas em todos os níveis do corpo estudantil e docente, mesmo com o crescimento desses grupos no número de estudantes e universitários em geral. Parte do problema é a percepção de que os departamentos de filosofia são templos onde só chegam os homens de descendência europeia. Nossa recomendação é direta: aqueles que estão confortáveis com essa posição que tenham a boa fé de confirmar e defender essa posição de maneira honesta; se não podem fazê-lo, é urgente que diversifiquem seu departamento e seu currículo.

Não é nossa intenção desprestigiar o valor de trabalhos realizados no cânone filosófico contemporâneo. É claro que não há nada errado com a filosofia escrita por homens descendentes de europeus; mas a filosofia sempre se torna mais rica quando é mais diversa e plural. Tomás de Aquino reconheceu isso quando seguiu seus colegas muçulmanos e leu os trabalhos do filósofo pagão Aristóteles, ampliando assim o currículo filosófico das universidades de seu tempo. Nós esperamos que os departamentos de filosofia dos Estados Unidos algum dia ensinem Confúcio tão rotineiramente como ensinam Kant; que os estudantes de filosofia eventualmente tenham tantas oportunidades de estudar “Bhagavad Gita” como tem com “A República”; que o pensamento do Homem Voador, do filósofo persa Avicena seja tão conhecido quanto o “Cérebro na Jarra”, da filósofa americana Hilary Putnam; que o exame crítico do ser feito pelo ancião indiano Candrakirti seja tão estudado quanto o de David Hume; que Franz Fanon, Kwazi Wiredu, Lame Deer e Maria Lugones sejam tão familiares aos estudantes quanto seus igualmente profundos colegas do cânone filosófico contemporâneo. Mas, até lá, sejamos honestos, encaremos a realidade e chamemos os departamentos de filosofia europeia-americana do que eles realmente são.

Oferecemos um ultimo conselho aos departamentos de filosofia que ainda não adotaram a diversidade em seus currículos: por razões demográficas, políticas e históricas, a mudança para uma concepção mais multicultural da filosofia nos Estados Unidos parece inevitável.

Acatem o ditado estoico: “O destino leva aqueles que o seguem de boa vontade; e afasta os que não o fazem”.

Jay L. Garfield – Professor da Yale University em Cingapura. Bryan W. Van Norman – Vassar College

Fonte original: http://www.nytimes.com/2016/05/11/opinion/if-philosophy-wont-diversify-lets-call-it-what-it-really-is.html?_r=0


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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