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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

As Humanidades ensinam os estudantes a pensar. Onde estaríamos sem elas?

O texto é uma tradução minha do artigo "Humanities teach students to think. Where would we be without them?", da jornalista Francine Prose, na versão estadunidense do grande jornal britânico The Guardian.
Escolhi traduzir este texto porque traz um tema muito importante e que também afeta o Brasil. Por muitas vezes, o que ela nos reporta é também o que acontece na nossa academia. Pensar uma sociedade mais igual, mais respeitosa, mais tolerante e menos violenta é pensar na experiência humana neste mundo. Por que cada vez mais esse pensamento perde seu valor, mesmo nas instituições em que deveriam ser prioridade?


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Os departamentos de Humanidades nos Estados Unidos estão novamente sofrendo cortes. As razões, ouvimos, são de caráter econômico e não ideológico. Não é que as escolas não se importem com as humanidades - elas simplesmente não as podem custear. Mas, se olharmos para as prioridades dessas instituições, encontraremos sim uma ideologia trabalhando, mesmo que velada.

No início deste mês, a State University of New York (SUNY) anunciou um plano para eliminar vários de seus conceituados departamentos, por razões orçamentárias. Os estudantes de graduação não poderão mais obter grau em Literatura Comparada, Cinema e Estudos Culturais e nem em Artes Teatrais.

Três programas de Doutorado serão cortados e outros três (Linguagem e Literatura Europeia, Linguagem e Literatura Espanhola e Estudos Culturais) serão convergidos em apenas um. Não só os estudantes mas também os docentes serão afetados; muitos professores de menor titulação perderão seus empregos, e os candidatos de doutorado terão que levar seus estudos para outro lugar.

Isso acontece em um momento em que altos salários são pagos aos cargos de administração das universidades, enquanto diminuem os pagamentos de professores mais jovens ou até mesmo mais antigos que estejam em departamentos "sob risco". Essa discrepância só pode ser explicada por ideologia. A decisão de reduzir a educação ao modelo de mercado-consumidor, provendo serviços para estudantes-clientes é, também, ideológica.

A SUNY está gastando milhões em um programa plurianual intitulado "Muito Além", que tem a intenção de renovar a imagem da universidade. A logomarca e o site serão refeitos e redesenhados, além de uma nova identidade visual, banners e bandeiras pelo campus. Será que as universidades agora se importam mais com suas imagens e marketing do que com seu ensino? Será que a universidade se tornou um parque temático, Parque Universitário, produzindo apenas trabalhadores que preencherão nichos específicos? Muito além...de que?

A ameaça de cortes que a SUNY enfrenta não é inteiramente nova. Em 2010, o campus de Albany anunciou que estava se livrando dos seus departamentos de Russo, Classicismo, Teatro, Francês e Italiano - decisão mais tarde anulada. A Universidade de Pittsburgh cortou seus programas de Alemão, Classicismo e de Estudos Religiosos.

O problema encontra paralelos internacionalmente. No Reino Unido, protestos ocorreram na Universidade Middlesex depois da decisão de eliminar o departamento de Filosofia. Em Junho de 2015, o ministro da Educação do Japão enviou carta a todos os presidentes de universidades no país sugerindo que eles fechassem programas de graduação e de pós-graduação em Humanidades e Ciências Sociais, e focassem em coisas mais práticas. Mais recentemente, o governo húngaro anunciou restrições que praticamente tornou impossível o funcionamento da Universidade Centro-Europeia, fundada por George Soros, em Budapeste.

São tempos difíceis. Estudantes precisam de empregos quando se graduam, claro. Mas está sendo desperdiçada uma oportunidade singular ao negar a esses estudantes o estudo de línguas estrangeiras, dos clássicos, de literatura, filosofia, música e artes. Quando, nas suas tão ocupadas vidas após a universidade, eles terão essa chance?

Algumas eloquentes defesas das Humanidades apareceram - ensaios explicando porque precisamos desses temas e o que suas perdas significariam. Nós, que as estudamos e ensinamos, sabemos o quão essencial é o aprendizado nessas áreas: a habilidade de pensar criticamente e independentemente; a tolerância à diferença; a importância de ver os dois lados de um tema; o olhar mais profundo frente ao que nos é dito; a habilidade de ver os caminhos nos quais a linguagem pode nos ajudar a entender o Outro mais claramente e profundamente - ou, por outro lado, como a linguagem pode também esconder e deturpar. Elas nos ajudam a aprender como pensar, e nos ajudam a viver em - e construir - uma democracia.

Estudar os clássicos e a filosofia ensinam os estudantes de onde nós viemos, e como nossos modos de pensar mudaram com o tempo. Aprender línguas estrangeiras e as suas culturas dá ao estudante oportunidade de entender como outras sociedades se assemelham e se diferem da nossa. É paranoico imaginar que essas áreas estão sob ataque exatamente porque habilitam os estudantes a pensar de modo mais complexo do que as reduzidas simplificações tão convenientes ao nosso atual discurso político e econômico?

Eu não creio que são as Humanidades que farão pessoas decentes. Sabemos que Hitler era um grande fã de Wagner e tinha ávido interesse por arquitetura. Mas a literatura, as artes e a música podem focar e expandir nosso senso sobre o que é o humano, onde ele pode chegar e o que ele pode criar. As Humanidades nos ensinam sobre aqueles que existiram antes de nós; uma língua estrangeira nos leva para mais perto de pessoas com as quais dividimos o planeta.

As Humanidades podem tocar esses aspectos da consciência que chamamos de intelecto e coração - órgãos que parecem faltar entre os nossos políticos cujas visões sobre a Saúde, por exemplo, dão a entender que há zero de compaixão e um pobre entendimento da experiência humana, suas crises e contratempos.

Os cursos de Humanidades são tão formativos e benéficos quanto os que os substituirão. Ao invés de Francês ou Shakespeare, teremos (talvez já tenhamos) cursos nas universidades sobre como reduzir gastos corporativos - cursos que nos instruem a eliminar os "frívolos" programas de estudos que podem realmente ensinar estudantes a pensar.

Texto original

https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/may/12/humanities-students-budget-cuts-university-suny

Publicado em 12 de maio de 2017.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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