filosofia tecnologia arte e pensamento

Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

Há ainda como ser flâneur?

O olhar reto e o pescoço que gira X o olhar para baixo e o pescoço parado.


flaneur obv.jpg

A uma passante

A rua em derredor era um ruído incomum,// Longa, magra, de luto e na dor majestosa,//Uma mulher passou e com a mão faustosa// Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.// Eu bebia perdido em minha crispação// No seu olhar, céu que germina o furacão,// A doçura que embala o frenesi que mata.

Um relâmpago e após a noite! — Aérea beldade,// E cujo olhar me fez renascer de repente,// Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!// Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,// Tu que eu teria amado — e o sabias demais!

Charles Baudelaire (Trad. Paulo Menezes)

Para pensar a modernidade, em qualquer das suas formas – economicamente, politicamente ou culturalmente -, será impossível não refletir sua talvez mais intensa transição: o homem agora vive na cidade. A sociedade industrial, comercial, tecnológica é, primeiramente, isso; o êxodo da vida humana para as grandes junções populacionais, onde a vida agora acontece.

Mesmo o mais idealista dos pensadores reflete a partir de sua existência. Parte do que está ali, efetivamente, do seu contexto. Pensar a cidade moderna demanda a atitude do flâneur. O termo surge, com Baudelaire e Benjamin, para designar o novo pensador moderno: o pensador da cidade. Muitas vezes confundido com vagabundo, vadio, preguiçoso, ele é na verdade um tipo de pensador que ama seu cotidiano. Um explorador, o sujeito que realmente vive a experiência moderna de forma artística e empírica, nas ruas, nos bares e com as pessoas.

Contradizendo suas interpretações mais preguiçosas, ninguém é mais ativo que o flâneur. Ele é o filósofo empírico por excelência, aquele que fala do que vê, do que sente na realidade, aquele que trabalha não somente com os livros, mas com os personagens em potencial que se encontram pela cidade, vagueando, cuidando das suas coisas. Esse passeador urbano pode dizer com muito mais propriedade. E isso Baudelaire fez; ele, a definição do flâneur, conseguiu pensar, através das suas andanças por Paris, a estética do seu tempo, que ainda trazia as sobras idealistas de Hegel. Como poderia uma cidade tão dinâmica, tão mutável, tão cheia de devir, ser expressada por uma estética pura, conceitual, sólida?

O imaginar, que brota no flâneur depois da observação, não tinha chances de ser pré-determinado. Nada havia de transcendente a priori! O que existe e pode ser dito, escrito e pintado é o real, são as ruas, as pessoas, o ambiente. Essas são as inspirações.

Numa viagem “flâneurística”, diz-se que Tolstoi escreveu “Guerra e Paz” nas praças da Rússia, pois os rostos das pessoas o inspiravam. Em Paris, o que inspirou Baudelaire foi uma mulher, a passante; nessa descrição poética do observado e imaginado, o homem moderno faz sua arte. Ele diz o que ali está, de forma bela; e com isso inspira a vida real na cidade cheia, suja e desigual a buscar o que ainda há de brilho, de bonito, de catártico. Essas serão as inspirações para os poetas e filósofos que virão, e que terão o dever de, ao mesmo tempo em que fazem sua denúncia, de apontar para o que pode ainda ter de belo essa vida dentro dos dilemas eternos da modernidade.

O leitor mais atento percebe que tudo que aqui escrevo está no tempo presente. Mas a questão é urgente: há como ser flâneur na sociedade do smartphone?

O contato com as pessoas é mais amplo do que nunca! As amizades são feitas, desfeitas e produzidas em um ou dois cliques. A pessoa trabalha, a pessoa viaja, a pessoa tem um cão? Está tudo ali.

Mas e o que ela realmente é? Qual o poder que existe no contato tático, no cruzar do olhar? Qual o poder da rua? O que tem esses elementos que capacitam o pensar artístico, o olhar cru e a leveza da imaginação que cria?

É a altura do olhar. O olhar reto, altivo, postural, observa girando o pescoço. O corpo age poeticamente, ele anda como um todo complexo e universal...os joelhos flexionam, o peito estufa, os pés sentem, as pernas se movimentam...e o olhar gira. O nariz cheira.

É, acho que não...o olhar baixo ao aparelho nunca poderá ser o olhar do flâneur. O olhar baixo não pode ver o que passa. Nunca poderá fazer homenagem tão bela a uma passante...


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Bruno Lima