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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

O nascimento das polis na Antiga Grécia: inspirações para o mundo em crise

Será que as inspirações políticas do século XXI ainda podem ser buscadas na experiência de mais de 2.500 anos atrás? O que fundou a política e a democracia como sistema foram as polis. E hoje parecemos estar cada vez mais distantes de seus ideais.


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Século VIII ou VII a.C. na Grécia Antiga: as invasões dóricas e as transformações estruturais, econômicas, sociais e políticas que elas trouxeram, junto com a participação dos poetas no período anterior às polis, prepararam o clima, o universo, uma atmosfera em que surgiriam a visão da cidade, da comunidade como pólis, revolucionando, também, o mundo grego como um todo.

Abriu-se espaço para um clima intelectual inédito, uma atmosfera onde o homem era o único responsável por suas ideias, pensamentos e realidade, um conjunto de transformações que giraram o olhar do homem para a coletividade, para o despertar do sentimento de grupo, para a preocupação antes com a cidade do que consigo mesmo. O nascimento das polis já traz, em si, as bases da paideia, o ideal grego de formação cultural e humana.

A paideia, compreendida como elemento estruturante da polis, tem como principal instrumento a volta da escrita, que fora abandonada no fim do reino micênico. As leis da cidade, inclusive, e isso é fundamental, passam a ser traduzidas pela escrita, o que assegura sua compreensão e manutenção. Sendo escritas e discutidas em praça pública, se tornam realmente leis públicas. Elas já não se garantem pela força de uma vaidade social ou de um clero religioso; devem demonstrar sua coerência e aplicabilidade nos debates e na dialética. Era ela, a palavra, e o discurso, os instrumentos da vida política. O fato de ser escrita permite que se divulgue conhecimentos e as bases de uma cultura comum, antes reservadas a poucos. Inspirada nos fenícios e transformada para os sons e o modo de falar grego, a escrita traz essa função pública de ser um bem comum a todo cidadão.

Como as leis, ou, no termo grego, a dike, era agora uma prática aberta e de interesse comum, a polis oferece uma abertura pública de todos os assuntos de interesse coletivo discutidos na, pela e sobre a cidade. Dike era, na mitologia, a deusa dos julgamentos e da justiça, filha de Zeus. Pelas leis, portanto, se subentendia a noção de justiça, construída por acordos coletivos. A cidade pertencia realmente a seus cidadãos.

Mesmo no momento de decadência das polis, quando o problema da questão agrária e as mudanças econômicas trazidas pela volta do contato com o Oriente aparecem, a polis Atenas reage de forma a recusar essa situação crescente e as mudanças das estruturas sociais. O corpo político e social em Atenas sempre buscou limitar as ambições, suscitar o equilíbrio na cidade, estabelecer uma norma maior que guiasse as aventuras individuais rumo ao equilíbrio. Essa norma é materializada na noção da dike. É a lei, o acordo, o consenso coletivo, que garantia o equilíbrio e o que o grego chamava de eunomia: a divisão equitativa das honras, do poder e dos cargos diretivos entre as diversas comunidades, territórios e "bairros" da cidade, que eram os demos. Por isso, diz-se que ali, na polis, a democracia foi inventada. Kratio, o poder, é dos demos. Isso é o conceito de cidadania: ser parte de um demo e agir de forma cidadã, com base nas leis e acordos coletivos.

A polis, então, primordialmente Atenas, desenvolveu, com essa nova mentalidade, um receio, um temor mesmo, de tudo que pudesse trazer desigualdade e desequilíbrio à cidade. Já haviam vivido e aprovado o equilíbrio, a harmonia, que se baseava no conflito, mas ainda era harmonia. Por isso, desenvolveu também uma desconfiança contra as bases do poder aristocrático, ou seja, o luxo, a ostentação e até mesmo certas crenças religiosas. Temiam a ambição, pois acreditam que tê-la significa ter o suficiente, mas mesmo assim desejar mais. Propagou-se em Atenas a consciência plena de que a riqueza substitui valores, e que o dinheiro é o que passaria a fazer o homem. A ambição e a riqueza trazem, em si mesmas, o descomedimento, o desequilíbrio, a busca pelo prazer individual, e isso é negativo para a cidade.

Descobrimos nessa consciência, inclusive, uma total semelhança à função que o dinheiro tem hoje, no nosso contexto atual. A modernidade parece ter se esquecido da filosofia da polis, do coletivo, o que abriu espaço para o dinheiro, a riqueza e o descomedimento se instalarem em nossa sociedade como elementos estruturantes e hegemônicos, se tornando, inclusive, paradigmas. No caso grego, conseguiu-se pensar em um ideal que confrontasse esse pensamento aristocrático, que foi chamado por eles de sophrosyne. De tradução complicada, mas significando algo como o comedimento e a prudência, era o contrário da hybris, identificada primordialmente com os ricos ou no clero, ou seja, a vaidade, o hedonismo. A temperança agora era a grande virtude: a fórmula de sabedoria era o "nada em excesso". Tida como virtude, em parceria com as leis e o nascente sistema democrático, estariam postos os alicerces de uma ordem política equilibrada e justa.

É todo esse processo, essa mudança, essa nova compreensão da virtude, essa revolução, que faz a cultura grega, nesse momento, ser considerada uma cultura comum. Cultura do coletivo, da polis, construída nela e por ela. Até mesmo as tradições, os mistérios, os mitos, as crenças religiosas são publicizadas. A cidade os interpreta como ensinamentos e também vai discuti-los, na tentativa de fazer uma “dessacralização”. Deixar os deuses, os mistérios e os mitos de lado ao tentar atingir a verdade traz o incômodo, é instigante, é, enfim, filosófico.

A filosofia que nasce então, nesse contexto, é inseparável e inalienável em relação a polis. E, sendo inseparável da polis, é também inseparável da paideia, do ideal de educação e formação humana grego. Sem polis não pode existir a paideia e vice-versa. A filosofia já nasce então com uma função primordialmente educativa. E, sendo educativa, é também política, porque educação e política para o grego são atividades inseparáveis. Semelhanças da história grega com nosso contexto histórico atual não são meras coincidências. A história é cíclica, e pensar criticamente o passado é o primeiro passo para se construir um presente justo. Os gregos construíram seu presente baseando-se nos ideais contidos na paideia, portanto, se formos pensar na Grécia como uma semente, um início, um ideal para o mundo contemporâneo, não poderemos pensar somente em criar uma nova sophrosyne. O mundo ideal grego está ligado ao todo. Será necessária então, uma nova compreensão de cidade, de coletivo.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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