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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

Ensino superior público em perigo


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Há pelo menos 7 anos, entre mestrado e doutorado, entrecortado por outros temas, venho estudando a democracia. Como conceito, como teoria, como prática e como ideia.

Aprendi que democracia envolve sim alternância de poder. Envolve, também, respeito à escolha alheia, conforto no papel de oposição e força para as instituições.

Por isso, tinha decidido não questionar o governo Bolsonaro, pelo menos por agora. Claro, ainda fico perplexo pela sua vitória, mas confiei que ele moderaria o discurso e atuaria junto à Constituição e às instituições. E até vi um pouco disso em seus primeiros discursos. Claro, falo aqui dentro dos meus privilégios por ser homem, branco, classe média. Respeito também e entendo completamente o medo e a revolta dos grupos aos quais Bolsonaro chama de "minorias" (que, sabemos, não o são).

Não concordo com ideias como a fusão dos ministérios da Agricultura e Meio Ambiente. Muito menos com o excludente de ilicitude para a polícia.

Mas pensei: ok, isso estava em sua campanha, em seus planos, e 58 mi de votos a esse plano o elegeu. Vamos ver as consequências (a meu ver, desastrosas) dessas ações e depois cobrá-lo por isso.

Mas, repentinamente, me aparece o plano de Bolsonaro para a educação superior brasileira: retirá-la da responsabilidade do MEC (Ministério da Educação) e submetê-la ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Estou há 12 anos diariamente dentro de Universidades Federais, e digo com propriedade que isso será um COMPLETO desastre.

Todo e qualquer processo da universidade pública está muito mais envolvido com a educação do que com a pesquisa científica e tecnológica. A CAPES, o INEP, o FNDE, o CNPq, todos são órgãos que trabalham em parceria com a educação básica, não sendo possível imaginá-los segmentados institucionalmente. É claro que a pesquisa faz parte do que chamamos de tripé universitário: ensino, pesquisa e extensão. Mas o ensino e as parcerias da universidade com a educação básica já são muito mais sólidas são realmente o que movem o ensino superior.

Não estou dizendo que a pesquisa não deva ser incentivada na universidade. Longe disso. Mas acredito que isso se faz na forma da educação. A pesquisa científica e tecnológica não pode ser apartada, mesmo que apenas institucionalmente, de sua dimensão formativa. Toda pesquisa deve remeter à educação, à formação humana.

Conheci pouquíssimos eleitores de Bolsonaro que são contra a universidade pública. A universidade e os institutos federais são um dos maiores patrimônios brasileiros, e é um consenso nacional que eles precisam ser valorizados e cada vez mais acessados. Públicos, gratuitos e de qualidade, como sempre foram.

Pois é. O orçamento do MEC é de 130 bi. O do Ministério da Ciência e Tecnologia são 4, QUATRO bi. O MCTI não consegue, hoje, sobreviver com o que tem. É impossível pensar que toda a rede de educação superior pública possa sobreviver segmentada do seu ministério, o da Educação. É claro que o orçamento do Ensino Superior seria transferido. Mas não há nem como fazer o real cálculo de qual seria esse orçamento, pois a rede de educação pública está toda ligada e conectada. Não existe ensino superior apartado da educação básica.

Aliás, a grande maioria da universidades têm colégios de aplicação, com turmas de ensino infantil, fundamental e médio. Como essa separação seria feita? E os institutos federais, os IF's? Oferecem formação superior, mas também têm como carro-chefe o ensino médio e o ensino técnico concomitante, quando os estudantes podem fazer ensino médio e o curso técnico juntos. Como separar isso insitucionalmente? Como poderá uma estrutura ministerial cuidar da graduação e pós-graduação e outra estrutura cuidar da educação básica, se, em vários casos, elas estão juntas?

Não são poucos os programas em que a universidade atua na educação básica. O PIBID é o maior exemplo, no qual estudantes universitários de licenciatura vão à educação básica realizar seus estágios.

O ensino superior pertence ao MEC e é por ele que deve ser gestado. Pelos profissionais da educação, da formação humana e não apenas pelo viés científico, tecnológico, econômico ou de inovação. Corremos o risco de ver o ensino superior se tornar um grande ensino técnico, onde aprende-se o fazer, o "como funciona", e deixa-se de lado o pensar, o "o que é", o olhar crítico.

Peço então encarecidamente que não só nós, da área da educação pública, professores, estudantes e pesquisadores, mas também você, que elegeu Bolsonaro pela crítica a tudo que está aí, mas que acredita numa educação pública de qualidade, que pressione o presidente eleito para que esqueça desse projeto insano. Você, que apostou nessa candidatura, com certeza também valoriza esse grande patrimônio nacional, sonho de praticamente todo jovem que se forma no ensino médio. Público, gratuito e de qualidade. Sempre.

Universidade é lugar de pensamento crítico, de formação e de cidadania. E sem esses pilares, não há democracia possível.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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