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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim.

Formem estudantes de doutorado para serem pensadores e não especialistas

Esse artigo é uma tradução do artigo de Gundula Bosch, "Train PhD students to be thinkers not just specialists", publicado em 14 de fevereiro na revista Nature.
Link para o texto original: https://www.nature.com/articles/d41586-018-01853-1


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Sob pressão para rapidamente tornar os membros de laboratório produtivos, muitos programas de doutorado nas ciências biomédicas estão encurtando seus cursos, retirando oportunidades de ver a pesquisa em seu contexto mais amplo. Consequentemente, a maioria dos currículos de doutorado provavelmente não está nutrindo interesse pelos grandes pensadores e por formas criativas de solucionar problemas que a sociedade precisa.

Isso significa que os estudantes aprendem cada detalhe do ciclo de vida de um micróbio, mas aprendem pouco sobre a vida científica. Eles precisam ser ensinados a reconhecer como erros podem acontecer. Estagiários devem avaliar estudos de caso derivados de pesquisas que falharam na realidade, ou então usar jogos interdisciplinares para encontrar erros e falácias na literatura. Acima de tudo, os estudantes precisam ser apresentados ao processo científico como ele realmente é – com suas limitações e potenciais armadilhas, assim como também ao lado divertido, como as descobertas fortuitas e os erros hilários.

Esse é exatamente o ponto que estou tentando defender na Universidade Johns Hopkins em Baltimore, Maryland, onde um novo programa de graduação de ciências está entrando em seu segundo ano. O microbiologista Arturo Casadevall e eu começamos a demandar pela reforma no início de 2015, dizendo sobre esta necessidade de colocar a filosofia de volta aos doutorados; isto é, o “Ph” de volta ao “D”. Nós chamamos nosso programa de R3, o que significa que nossos estudantes aprendem a aplicar Rigor nos seus projetos e na conduta de experimentos; a ver o seu trabalho pelas lentes da Responsabilidade social; e a pensar criticamente, se comunicar melhor, e com isso melhorar a Reprodutibilidade. Apesar de estarmos cientes sobre as inovações individuais que os cursos como são agora conseguiram, nós estamos lutando por uma reforma mais ampla.

Nossas ofertas são diferentes das outras em nível de graduação. Nós temos tarefas que precisam do pensamento crítico, nas quais os estudantes analisam, por exemplo, erros de raciocínio num artigo de opinião do New York Times sobre o açúcar, ou também as implicações éticas dos argumentos em um artigo na New Yorker escrito pelo cirurgião Atul Gawande intitulado “A desconfiança da ciência”. Nossos cursos focam na pesquisa rigorosa, na integridade científica, na lógica, e as habilidades matemáticas e em programação são integradas no campo de trabalho e nos laboratórios dos estudantes. Aqueles que estão estudando o vírus influenza, por exemplo, trabalham com série de dados de pacientes reais e lutam com os desafios da estatística aplicada.

Um novo currículo começa quando se ganha aliados. Os estudantes e docentes precisam ver valor nessa saída do caminho padronizado. Nós utilizamos entrevistas informais e grupos focais para identificar áreas nas quais os estudantes e docentes detectaram aberturas em seu treinamento. Temas recorrentes incluem a falta de habilidade para aplicar conhecimento teórico nos testes estatísticos em laboratório, erros frequentes na escolha de um aparato adequado para controle de experimentos, e também uma significante dificuldade em explicar seu trabalho para quem não é especialista. Introduzir esse programa para os colegas na Johns Hopkins e seus departamentos de ciências foi ainda mais delicado. Eu fiquei assustada pela frequente opinião de que a produtividade científica depende mais do conhecimento repetido mecanicamente do que da competência no pensamento crítico. Vários dos principais investigadores se disseram desconfortáveis com os estudantes comprometendo seu tempo em formas de educação manos convencionais. O melhor jeito de ganhar seu apoio foi café: nós repetidamente nos encontrávamos com os chefes de laboratórios para entender suas preocupações.

Com esse projeto piloto ainda tão novo, nós ainda não podíamos produzir dados sobre a performance dos estudantes, mas podíamos falar sobre o ceticismo do corpo docente. Alguns colegas estavam apreensivos porque os estudantes iriam estudar menos conceitos especializados para abrir espaço para os cursos interdisciplinares em ética, epistemologia e habilidades quantitativas. Particularmente, estavam preocupados que o programa R3 poderia alongar o tempo requerido para os estudantes completarem seus graus, deixando-os com conhecimento insuficiente nas suas áreas de trabalho, resultando em profissionais menos produtivos nos laboratórios.

Nós argumentamos que um melhor pensamento crítico e menos disciplinas específicas obrigatórias poderiam resultar até em alunos ainda mais produtivos. Nós convencemos vários professores a tentar o novo sistema e participar nas avaliações estruturadas sobre a contribuição do R3 para a performance dos estudantes.

Até agora, nós construímos cinco novos cursos e temos 85 estudantes envolvidos de aproximadamente uma dúzia de diferentes departamentos e divisões. Os cursos tratam da anatomia dos erros e da má conduta na prática científica e ensina os estudantes a dissecar a literatura científica. Uma série de discussões interdisciplinares encoraja um amplo e crítico pensamento sobre a ciência. Nossos estudantes aprendem a considerar as consequências sociais dos avanços das pesquisas, assim como aprendem a habilidade de alterar geneticamente esperma e ovos.

Discussões sobre os problemas mais amplos da atuação científica faz com que os estudantes reflitam sobre os limites da ciência, e onde é que a habilidade da ciência de fazer algo compete com o que o cientista deve fazer no ponto de vista moral. Além disso, nós temos seminários e workshops sobre habilidades profissionais, particularmente de liderança a partir de comunicação efetiva, docência e tutoria.

Ainda é cedo para uma avaliação. Até agora, no entanto, estagiários tem enfatizado repetidamente que estão ganhando uma perspectiva mais ampla e que isso tem ajudado. No futuro, nós coletaremos informações sobre o impacto que a participação no R3 teve nas escolhas de carreira e no sucesso dos graduandos.

Nós acreditamos que pesquisadores formados de maneira mais ampla trabalharão com a ciência de forma mais pensativa, o que resulta em que os outros cientistas, e a sociedade em geral, estarão aptos a contar com o trabalho científico para um mundo melhor e mais racional. A ciência precisa esforçar-se para sempre melhorar e não sempre corrigir-se.


Bruno Lima

Doutorando em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Minduim..
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