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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutor em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Amendoim

Duas anedotas sobre um ministro da educação 'vazio'

Para criticar a gestão de Vélez Rodriguez, dados não são mais necessários. As denúncias já foram feitas aos montes, e Tabata Amaral nos representou a todos. Resta, agora, o humor.


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Há menos de 2 meses, exatamente no dia 14 de fevereiro do presente ano, defendi a minha tese de Doutorado em Educação. Sou um educador, um amante da Educação. Começo assim para dizer que entendo a dor de todos os leitores, pessoas, movimentos e sociedades interessadas e afetadas pela gestão do nosso MEC. Mas, acreditem, a dor de alguém envolvido nos estudos da Educação há tanto tempo é ainda mais intensa.

Por isso, criticar a gestão do ministro Vélez Rodriguez com argumentos técnicos já tornou-se até cansativo. Foram 98 dias de gestão e com certeza muito mais de 98 motivos para denunciar, entristecer-se e velar pela educação brasileira. Na verdade, a jovem deputada Tabata Amaral já nos representou a todos na bela "tabatada" (termo cunhado por Rebecca Lerer e difundido por Rosana Pinheiro-Machado) que ofereceu ao ministro em sessão com ele no Congresso.

Portanto, no dia de sua saída, resolvo, junto com um escritor que tanto gosto, recorrer ao humor. Talvez rir nos faça esquecer destes 98 nefastos dias e buscar a resistência necessária para suportar o que virá; mesmo sabendo que algo pior é difícil. O nosso querido, genial e saudoso Ariano Suassuna conta em um dos seus vídeos duas anedotas sobre um melancólico dirigente brasileiro (um dos presidentes militares da ditadura) que tinha a fama - que crescia, obviamente pelas suas costas - de ser burro. Sim, 'burro' mesmo, simplesmente ausente de inteligência. No fim delas, vocês leitores perceberão que o 'vazio' com que descrevo o ex-ministro no título é um eufemismo para nada mais do que isso: burro.

Na primeira anedota, Ariano conta que, em uma oportunidade, esse presidente resolveu que era dia de demonstrar atenção pela educação. A ideia era visitar uma escola, verificar estruturas e currículos, bater suas botas pelo pátio, mostrar autoridade. Um assessor veio com a ideia: 'Presidente, é de costume, em visitas assim, que a autoridade, em uma sala de aula, faça perguntas aos alunos para verificar se sabem as respostas'. O presidente, que era burro, mas tinha alguma sabedoria socrática - saber que nada sabia - se assusta e replica: 'Estás louco? E se respondem algo que eu não sei se está certo ou errado?". O assessor, prestativo: 'Não preocupa; faremos uma colinha para o senhor'. Ideia aceita.

Na sala de aula, o presidente, cara séria, sentindo-se professor, escolhe um aluno e pergunta: 'Ei você, quem foi que descobriu o Brasil?'. O estudante, orgulhoso: 'Pedro Álvares Cabral, presidente'. Disfarçadamente, o dirigente-maior dá uma olhadela na cola e aprova, sem sorrir: 'É isso mesmo, parabéns, meu jovem.'. Era a vez de uma garota: 'Você agora: quem rezou a primeira missa em terra brasileira?'. 'Foi o bispo Henrique de Coimbra, senhor', respondeu, orgulhosa. O presidente, depois de checar a cola fingindo alongar-se, também orgulhoso, mas sem demonstrações: 'Muito bom. É isso mesmo.'.

Chegou a vez de outro garoto. A voz saiu grossa, imperativa: 'Você aí, jovem! A quantos graus ferve a água?'. O garoto, sem hesitar: '100 graus, senhor presidente.'. Mais um disfarce, mais uma conferida na sua cola e desta vez o presidente estava decepcionado: 'Não, senhor! A água ferve a 90 graus!'. Silêncio na sala. O garoto, confuso, nada conseguia dizer. Entre os assessores, também ninguém pensava em contrariar a máxima autoridade. Sobrou para ela, claro, a professora. Com a voz tremendo, já um tanto pálida, ela balbucia: "Desculpe, senhor presidente, mas o senhor está errado. A água ferve mesmo é a 100 graus". A coragem da professora em corrigi-lo desconcertou o homem. Ele, confuso, novamente conferiu a cola e, resoluto, bradou: "É verdade! Me confundi. O que ferve a 90 graus é o ângulo reto!". A cara de Vélez, não acham?

Na segunda anedota, Ariano conta que chegaram em um trem, da Espanha para a França, no mesmo vagão, esse mesmo presidente, o pintor Pablo Picasso e o músico Igor Stravinski. Todos os três estavam sem a documentação necessária e ao chegarem na fronteira foram presos. Picasso reivindicou: 'Ei, vocês não podem me prender. Eu sou o grande pintor Picasso'. Os soldados carcereiros: 'Ah é? Então prove'. Picasso pegou um papel e uma caneta e desenhou em alguns minutos a imagem de uma tourada, perfeita, ao estilo cubista. O coronel da fronteira, vendo aquilo, ordenou na hora: 'Podem soltar, realmente é Picasso'. E o pintor se foi.

Stravinski percebeu sua chance e não hesitou: 'Ah, não seja por isso. Vocês precisam me soltar também, pois sou o grande músico russo Stravinski'. "Ah é? Pois prove.". Stravinski pegou o papel e o lápis e fez em poucos minutos a partitura da sua Petrúshka. "Soltem-o já. Ele é realmente Stravinski". E o músico seguiu seu destino.

O mandatário tupiniquim não se fez de rogado. Levantou-se todo militar e disse em voz firme: "Ah, então devem me soltar também. Pois eu sou o presidente do Brasil!". "Ah sim? Prove então". O presidente sentou-se em uma cadeira por 40 minutos, com pose de pensador. E depois, já cansado: "Não me ocorre nada!".

É claro que a primeira analogia que nos vêm à cabeça é referente ao ocupante atual do mesmo cargo. Mas por agora, essa honra ainda cabe a Vélez Rodriguez. Uma pena que não foram apenas 40 minutos que ele esteve na cadeira de ministro da Educação, mas sim 98 dias. Vélez é a imagem e semelhança do personagem das anedotas. Talvez, por isso, para que a semelhança fosse ainda maior, teve como sua última proposta a revisão de livros didáticos buscando suavizar a história do Golpe Civil-Militar de 1964. São, realmente, da mesma laia. Sem inteligência.

Desejo, sinceramente, sorte ao seu sucessor. A Educação (sempre com maiúscula!) brasileira precisa, antes de tudo, de pragmatismo: O FUNDEB, maior programa de financiamento da Educação da história, perde validade no ano que vem. As escolas não tem papel, nem aquele para os futuros Picasso's e Stravinski's desenharem nem o higiênico no banheiro. As universidades, cada dia mais, precisam conviver com orçamentos apertados e sucateamento.

Novo ministro, não seja como o ministro 'vazio'. Deixe para lá a revisão de golpes, as paranoias de doutrinação, os terraplanismos e outros temas de seus gurus astrólogos.

Apenas trabalhe na gestão e invista. Ainda que às vezes não demonstre nas urnas, o Brasil merece.


Bruno Lima

Doutor em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai do Amendoim.
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