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Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutor em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai da Anna (humana) e do Amendoim (canino)

O que é ser professor na sociedade tecnológica?

Professor e tecnologia: nunca excludentes, sempre complementares


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Afinal, o que é ser professor? Essa é uma pergunta que inquieta a muitos: parte da sociedade, estudantes, pais, gestores e principalmente os próprios professores. Qual é a função do professor? Seria só transmitir conhecimento? Sabemos que nossas atividades não param por aí. Ela engloba uma gama incrível de funções que vão desde ajuda psicológica até de serviço social. Isso é inquietador pois toda profissão tem a sua definição. O arquiteto planeja, desenha; o engenheiro constrói; a babá cuida; o médico consulta e busca a cura. Já o professor... difícil definição. E isso deixa a prática também mais difícil. Nesse texto, pretendo tratar disso e também das novas dificuldades e possibilidades que a sociedade tecnológica traz neste sentido.

Se fosse possível buscar um consenso sobre a definição da nossa profissão, acredito que poderia estar em algo próximo de ‘o profissional que forma as próximas gerações, que repassa o conhecimento acumulado pela humanidade para os mais novos’. E mesmo que aceitássemos essa definição mais geral, já está nela contida a maior dificuldade – que acredito ser também uma oportunidade – da nossa profissão nos tempos atuais: o surgimento da sociedade tecnológica. Estamos de fato cercados pela tecnologia em todos os âmbitos da vida: na comunicação, nas relações, na economia, na política, no consumo. Logo, será que ainda podemos ser os únicos que repassam a informação e o conhecimento? A tecnologia já não faz isso também, nos seus mais variados vídeos, podcasts, posts, textos, memes?

A definição dessa identidade docente ganha, portanto, mais um elemento. Definir uma identidade é um processo que sempre se dá a partir de processos de socialização e sempre será um lugar de lutas e conflitos, no debate e na construção de maneiras de ser e estar nessa profissão.

A pergunta que se coloca é: a relação com a tecnologia e a participação das tecnologias na educação deve fazer parte desse conflito? O debate a ser colocado será entre incluir essa tecnologia ou não incluí-la; ou pode ser apenas o “como incluí-la”, já admitindo o processo como inevitável. A meu ver, é a segunda opção. Não há mais debate possível, a tecnologia está aí e as possibilidades e potencialidades que ela oferece são imensas. Mas a confusão entre esses debates é a principal crise que perpassa nossa profissão docente.

Como resolvê-la? Na minha visão, sempre de forma política, social, partindo de consensos. Por exemplo: é fato que, hoje, faz parte da identidade docente uma postura esclarecedora e crítica em relação aos meios de comunicação de massa e à tecnologia. Isso faz parte tanto da perspectiva social da profissão quanto do sempre presente confronto entre teoria e prática: você pode não tratar deles, mas nas aulas eles aparecerão, porque fazem parte da realidade dos alunos.

Partindo disso, dessa análise de realidade em nossas salas de aula, veremos que uma virada de paradigmas no ser professor está em curso e é inevitável. Os estudantes não são tábulas rasas. Eles chegam com um contexto, com relações, com uma demanda, com uma bagagem, um espírito construído, um conhecimento de sua realidade. E todos esses fatores envolvem, de alguma forma, a tecnologia.

Ela também é produção humana. Também é criação, inventividade, conhecimento humano. Não há maneira de nos colocarmos contra ela, ao invés de aproveitarmos de todas as possibilidades que ela traz para a própria educação. Os métodos pedagógicos e didáticos vão ter que passar por programas e softwares. A comunicação com os alunos, mais ainda. Será impossível realiza-la sem usar dos meios tecnológicos. O que chamei, portanto, de partir de consensos é isso: a tecnologia é parte do conhecimento humano e por isso agora faz parte da nossa função enquanto professor apresentá-la e utilizar da sua potencialidade para tornar nossa prática docente mais efetiva.

É, sem nenhum exagero, uma revolução na profissão e na nossa identidade. Os principais desafios, então, entre outros, são: a) preocupar-se mais com “o que” do que com o “como”; b) formação e capacitação docente; c) a confusão entre uma formação que envolva tecnologia e uma formação estritamente técnica; d) as estruturas enrijecidas da escola; e) definir claramente nosso papel político-social e, principalmente, f) aceitar e se adaptar urgentemente à ideia de autonomia do aluno.

Eles são o centro. O aluno é, agora, o protagonista. Ele define, ela demanda, ele precisa estar envolvido, motivado, ser o centro do planejamento.

O papel do professor, no entanto, não perde importância; ao contrário, ganha. Ele não é mais o centro, mas é o mediador. Ele não é mais o transmissor, mas sim o elemento que seleciona esse conteúdo e direciona o conhecimento para o rumo da ciência, da verdade enquanto dinâmica, das teorias que se revelam e desvelam.

Acredito que é esse o nosso maior desafio: mostrar nosso valor, demonstrar que, mesmo com o aluno no centro e o suporte da tecnologia, o professor ainda é e sempre será inapelavelmente indispensável. Porque ele não só apresenta ou mostra conhecimentos e informações. Ele guia, de acordo com o termo grego “agogé”, que forma a palavra pedagogia, ele conduz, ele direciona. Professor e tecnologia nunca serão excludentes, mas sempre complementares.


Bruno Lima

Doutor em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai da Anna (humana) e do Amendoim (canino).
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