filosofia tecnologia arte e pensamento

Pensando a existência para buscar a essência. O caminho é a beleza...

Bruno Lima

Doutor em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai da Anna (humana) e do Amendoim (canino)

Webquest, uma ferramenta formativa


internet.jpg

A discussão sobre a distinção e o equilíbrio entre teoria e prática é um dos maiores – talvez o maior – debate presente na área da educação historicamente. Afinal, teoria sem prática tem efetividade? E a prática sem teoria: é possível que não seja vazia, deserta de ideias? Acredito que esse equilíbrio possa ser alcançado no esforço da busca de práticas pedagógicas que estejam, desde sua concepção, carregadas de teoria, de pensamento e reflexão. Neste texto, o objetivo é apresentar o conceito da 'webquest' como uma proposta de prática formativa.

O princípio fundamental é: o ensino, a escolarização, o conhecimento e a aprendizagem são condições para a humanização. Neste sentido, esses conceitos precisam se fundir, se unir, representados por práticas intencionais, dinâmicas e significativas que, sistematizadas, precisam ter como objetivo a emancipação, a autonomia de linguagem, a formação da crítica. Tudo isso pela apropriação de conceitos científicos e do conhecimento cultural produzido e legado pela sociedade.

Sendo assim, a educação é o momento de estabelecer a relação entre o que há de universal, de total; e o que há de dinâmico, histórico, contextual. Isso quer dizer que as teorias pedagógicas, ideias universais, precisam ser adaptadas, dinamizadas, para o contexto histórico do aluno. Em outras palavras, precisam ser atualizadas. Essa atualização se fará nas práticas pedagógicas.

A integração entre vida e cultura, papel fundamental da instituição educativa, vai se dar principalmente a partir do letramento, que é quase sempre pensado como leitura e escrita. São habilidades primordiais para a vida, mas que parecem estar excessivamente focados na língua escrita. O posicionamento do sujeito frente ao mundo, a sua visão, a sua resposta...isso é essencial na formação do espírito crítico, mas ainda sente-se falta daquela adaptação, da visão do contexto, da nossa atualidade.

É o que trata-se nesse texto como materialidade histórica da educação. O corpo teórico da pedagogia e as suas interpretações continuam férteis, mas as práticas de ensino, na sua função atualizadora, precisam atuar no sentido de oferecer um letramento múltiplo, tão múltiplo quanto as possibilidades que temos hoje de acesso ao conhecimento e à informação. Refiro-me, claro, à tecnologia. Sua onipresença exige um letramento multissemiótico: imagético, musical, fílmico. Uma adaptação ao contexto, uma preparação para a vida, uma integração entre vida e cultura, que se dará a partir de práticas sistematizadas, planejadas, contínuas e que principalmente despertem o interesse do estudante.

A ideia é potencializar práticas pedagógicas planejadas a partir de ferramentas atuais, que sejam presentes na vida do estudante e que façam sentido, tenham significado, estimulem e motivem.

Nesse sentido, trago aqui as ideias principais da webquest como ferramenta pedagógica, principalmente para o momento em que a criança começa a lidar com os aparelhos tecnológicos de forma autônoma.

A webquest é, definindo simplesmente, uma atividade orientada para pesquisa através da internet e de informações provindas da rede mundial de computadores. Ela parte de questões, desafios ou temas geradores, que são escolhidos pelo professores ou pactuados com a turma. Esses temas delinearão as tarefas, que sempre vão envolver pesquisa direcionada e consulta de informações a partir de fontes sugeridas.

O professor, então, imbuído da função de orientador e mediador do conhecimento – e não mais o transmissor – vai guiar os estudantes pelos caminhos da pesquisa. Ele seleciona páginas e fontes da internet previamente, cria lista de sites e de temas, sempre com a intenção de evitar que o estudante se perca na imensidão do ciberespaço. Ele delineia, orienta o caminho.

Em curto prazo, a webquest tem por objetivo a aquisição de conhecimento, ou seja, o exercício de pesquisa parcialmente autônoma, a leitura, a relação com as fontes e a proposta de soluções. Já a longo prazo, pode-se buscar a ampliação e o refinamento de determinado conhecimento. Uma análise mais aprofundada de conteúdo, fontes e informações, objetivando a reflexão crítica e o exercício da opinião e do posicionamento sobre os temas.

Por ser um processo formativo, foram definidas algumas fases do processo da webquest, necessárias para o completo êxito dos objetivos pensados para esta metodologia inovadora. São elas: a introdução; a definição de tarefas; o processo; a apresentação de recursos; a avaliação; e a conclusão.

Na introdução, a intenção é despertar a curiosidade. O texto, a fala ou a linguagem são direcionadas para apresentar a metodologia no sentido de estimular e motivar os alunos a agirem de forma autônoma. Estimulá-los, principalmente, a prosseguirem na pesquisa e a utilizar da comunicação com o mediador quando dificuldades surgirem.

Na definição das tarefas, o objetivo é estabelecer o caminho, o norte. Qual será o desafio? Qual a relação deste desafio com o contexto e com a vida do estudante? Quais serão as ferramentas usadas para motivação? Além de responder a essas questões, é o momento também de descrever qual o produto final ou a meta esperada, além da definição de quais ferramentas serão utilizadas. A ideia fundamental é que exista a transformação da informação em conhecimento ou em produto. A meta pode ser, portanto: elaborar um resumo; resolver um problema; defender uma opinião; ou até escrever uma reportagem, por exemplo.

A fase do processo é o momento da mão na massa, da execução do plano de tarefas da webquest. É a hora de seguir o passo a passo do que fazer para resolver a tarefa previamente definida. No início desta fase, é apresentado o tema ou a questão geradora e algumas fontes primárias. Também é o momento de ficar bem claro quais as etapas e as expectativas.

Na apresentação de recursos, é o momento da ação do professor orientador-mediador. À medida em que forem aparecendo as dificuldades e as necessidades, o professor-guia vai apresentando novos recursos, novas ferramentas e também novas fontes de informação para a consulta e a elaboração do produto final.

Depois do processo finalizado, é o momento da avaliação. Definir o que será avaliado, qual será o método de avaliação e como será o feedback aos alunos. Após a avaliação, conclui-se o trabalho, resumindo o que aconteceu, relacionando os objetivos definidos às conquistas, sempre no intuito de estabelecer uma visão positiva sobre a pesquisa e sobre a importância da aprendizagem colaborativa, em parceria e autônoma ao mesmo tempo.

A webquest é, portanto, uma metodologia que traz uma base teórica construtivista e que tem o espírito de transformar a informação, efetivamente, em conhecimento. Pode desenvolver habilidades e competências cognitivas e de cooperação, e até mesmo competências técnicas relativas à tecnologia. É uma forma moderna de pensar a educação, contextualizada, que incentiva a criatividade e garante – a partir do papel do professor – o acesso à informação autêntica, o que inclusive pode nos ajudar na batalha tão difícil que precisamos enfrentar enquanto sociedade no presente e no futuro: as fake news e a pós-verdade.

É, portanto, um método formativo e uma forma de pensar a educação em um novo paradigma, que, cumprindo o objetivo da educação básica de integrar vida e cultura, pode ser colocado em prática já nos anos iniciais do ensino fundamental, momento em que as crianças estão iniciando o seu contato e sua relação com a tecnologia. Incentivar a solução de problemas e a produção de conhecimento, e não apenas a reprodução de informações: é esse o papel urgente para a escola, a educação e o professor na sociedade cada vez mais tecnológica.


Bruno Lima

Doutor em Educação. Apaixonado desde sempre por ler e escrever. Morador e amante de Florianópolis e pai da Anna (humana) e do Amendoim (canino).
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Bruno Lima