Ciça Guazzelli

Psicóloga, convicta de que escrever nos permite expressar até o que ainda não sabemos...

Um ensaio para sair da cegueira...

A obra de José Saramago, “Ensaio sobre a cegueira” foi retratada como filme. Na história, as pessoas vão ficando cegas de forma epidêmica, sendo isoladas do resto da população para não haver contaminação. Uma única pessoa consegue enxergar em meio a esta população. Fazendo uma ponte entre a obra e a nossa realidade, proponho o seguinte questionamento: Estamos ficando cegos? São poucos os que realmente enxergam nossa real situação?


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Não sei se a cegueira instalou o pânico ou se o pânico instalou a cegueira. A frase de destaque da obra de José Saramago “Ensaio sobre a cegueira” torna-se palpável diante da realidade que estamos enxergando, ou talvez, deixando de enxergar. O autor conta a história de uma cidade na qual as pessoas foram ficando cegas.

Inicialmente um homem começa a apresentar os sintomas e a partir daí as pessoas que tentam socorrê-lo são contaminadas pelo mesmo mal. A cegueira então se alastra como uma epidemia. O governo decide isolar todos os contaminados em um manicômio desativado, com o intuito de livrar o resto da população do risco de contaminação. Em pouco tempo o espaço reservado para quarentena está superlotado, as condições mínimas para a manutenção da saúde física e mental não existem e começa a haver intensa disputa pelo poder. Grupos dominantes passam a submeter os mais fracos aos seus interesses. Na história, apenas uma pessoa consegue enxergar em meio a esta então numerosa população. Trata-se de uma mulher que infringe as regras para conseguir entrar no espaço de confinamento junto ao marido que estava cego, subtendo-se a uma situação lastimável para estar ao seu lado. Ela guia grande parte da população “doente” e administra conflitos entre os grupos. Tal personagem protagoniza cenas de liderança, sofrimento e lealdade.

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São muitas as possibilidades de significados e analogias atribuídas a esta obra de José Saramago. Livro que virou filme, nos permite refletir de forma metafórica sobre as mais diversas maneiras de vivenciar a escuridão. Afinal, estamos ficando cegos? Penso que sim. Infelizmente são poucos os que têm a oportunidade de enxergar o que realmente está acontecendo em nosso país, em nosso mundo, em nossas relações...

Na vida real, também temos deixado de enxergar o essencial para uma convivência social saudável, digna de nos tornar íntegros e felizes. Como mencionado na obra, alegria e tristeza não são como água e óleo, elas coexistem. Podemos nos sentir felizes em meio ao caos, quando valorizamos nossas conquistas pessoais e entendemos que podemos sempre nos superar, mas isso não descarta nossas angústias. Estar feliz assistindo a dor do outro nos faz confusos.

Diante de tudo que estamos presenciando, pensar não me parece suficiente. A necessidade real não está somente no campo das idéias, está nas atitudes.

Vivemos em um país no qual o Presidente que sofreu Impeachment se tornou Senador e teve este ano alguns de seus bens apreendidos recentemente. Entre eles, mais de cinco milhões em carros importados. Além disso, assistimos a guerra e gravamos imagens tristes. Temos a consciência de que crianças morrem em busca de abrigo em outros territórios, junto aos seus familiares. Acompanhamos de perto uma roubalheira sem proporções e sem cabimento. Roubalheira esta que prejudica não apenas a saúde financeira do nosso país, mas afeta de forma significativa a saúde mental de cada cidadão que precisa se armar com todas as ferramentas psíquicas para lidar com tamanha instabilidade. Recrutamos todos os nossos mecanismos de defesa para lidar com a pior instabilidade que pode existir, a interna.

Há tempos somos obrigados a fazer restrições em consequência do egocentrismo daqueles que estão no poder. Explicando o Egocentrismo de forma prática, seria a inabilidade para deixar de olhar para o próprio umbigo e enxergar o outro. De acordo com a Psicanálise, o indivíduo deveria se distanciar desta característica durante seus primeiros anos de vida, quando deixa de viver somente sob princípio de prazer e passar a viver sob princípio de realidade. É neste movimento que o ser humano desenvolve empatia - capacidade de se colocar no lugar o outro. Um indivíduo que não desenvolve esta capacidade terá dificuldades para se relacionar com o todo e tenderá a manipular as situações para defender apenas os seus ideais.

Qualquer semelhança entre os nossos “líderes” e as explicações anteriores não são mera coincidência. A palavra está entre aspas porque vai contra o significado apropriado do termo. Líder é aquele que inspira, que motiva. Somos “liderados” por pessoas que não conseguiram desenvolver empatia e que ainda vivem sob princípio de prazer. Pessoas que não querem despertar em nós a vontade de pensar, não querem que encontremos motivos para uma ação que foge dos padrões egocentricamente planejados.

Já conhecemos essas figuras de longa data e continuamos optando por elas. Damos assim, o aval para que direcionem parte da nossa vida e daqueles que dependem de nós. Vocês enxergam algum tipo de cegueira nisso? Tamanha cegueira! Aos poucos que não estão cegos, o sofrimento é maior, e a responsabilidade também. Estes precisam encontrar formas de conduzir os que estão na cegueira total. Precisam despertar sua motivação, ou seja, fazer com que passem a enxergar quais são os seus motivos para mudar. A motivação é interna e significa ter motivos para ação.

Como disse o compositor Renato Russo em 1986, “e pra piorar, quem nos governa não presta” então, “chega de passar a mão na cabeça de quem nos sacaneia”. Nós somos responsáveis pelas nossas escolhas e está aí o grande problema, não estamos preparados para escolher. Hoje somos prisioneiros dos erros recorrentes que cometemos. Apesar disso, penso que o nosso passado nos constrói, mas não nos condena e que, diante da crise, temos a oportunidade de rever nossos critérios, de desenvolver autonomia – capacidade de realizar escolhas e levá-las adiante. Acredito nas possibilidades de crescimento diante deste triste cenário. Prefiro pensar que o ser humano cresce com a dor e que, portanto, estamos diante de uma grande oportunidade de crescimento.


Ciça Guazzelli

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