florescer

Semeando ideias em mentes inquietas

Francy Rocha

Plante uma ideia, jamais obrigue alguém a engolir o fruto de seus devaneios filosóficos!
Pessoa intrinsecamente inquieta e buscadora de mediação para as muitas verdades existentes.

A tecnologia simplifica mesmo a nossa vida?

Os recursos tecnológicos são mesmos capazes de simplificar nossa vida? Será que damos a real importância para os aparelhos modernos de comunicação e seus infinitos aplicativos? Vivenciamos um momento, onde tudo gira em torno da automação tecnológica, mas será que conseguimos acompanhar essa evolução? Estamos nos tornando quem realmente desejamos nos tornar. A tecnologia invadiu nosso cotidiano de forma tão avassaladora que acabou por reconfigurar nosso modo de ser e agir.


jetsons_pc.jpg A evolução da tecnologia é tão inerente quanto a evolução da humanidade. Hoje vivencia-se uma grande variedade de itens tecnológicos capazes de facilitar a vida e impulsionar a produtividade. Entre os grandes avanços há os dispositivos móveis com seus infinitos aplicativos capazes de localizar em segundos qualquer coisa ou qualquer pessoa. Essa realidade foi preconizada pelo desenho animado “Os Jetsons” criado por Hanna-Barbera, conhecida como a “Família do futuro”, e originalmente transmitido na década de 1960, sendo relançado na década de 1980. Em sua temática encontra-se uma família do ano de 2062, onde a tecnologia está extremamente avançada, com prédios suspensos, carros que voam, robôs substituindo as empregadas domésticas e uma infinidade de botões que auxiliam nos afazeres domésticos. Esse desenho esteriotipou em nossa mente um conceito de futuro ultramoderno e facilidades cotidianas que nos dariam mais tempo para nós mesmos.

Ainda nos encontramos em 2015, porém já experimenta-se algumas inovações que mexem com o modo de se relacionar. Há uma gama de opções para estabelecer comunicação com uma pessoa em qualquer lugar do planeta, é o que se conhece como a “era mobile”, onde o contato se dá por meio de dispositivos móveis: celulares, tablets, entre outros. Essa facilidade se alastrou de uma forma muito intensa e modificou a comunicação, inclusive da empresa para com seus clientes/consumidores. Uma empresa por menor que seja é considerada obsoleta se não possuir perfis nas principais redes sociais. Muitas criaram canais de comunicação online do tipo: “reclame aqui” ou elogie marcando com uma “hastag”. Em meio à essa inversão comunicacional percebe-se cada vez mais empresários investindo em profissinais especializados em gerenciamento de mídias sociais. Vive-se a fase em que mandar um “Tweet” é mais eficaz que ficar horas aguardando a telefonista atender.

Esse “bum” interativo também provocou alterações nas relações pessoais, não é possivel mais reunir os amigos sem postar nas redes uma foto para registrar o momento e marcar o local do encontro, denotando um estilo de vida glamouroso e bem agitado. Em seguida, cada um se recolhe em seus mundos virtuais para acompanhar a repercussão da foto e a quantidade de curtidas. A conversa descontraída não acontece ao vivo, mas pelos comentários, ainda que todos estejam ao redor da mesma mesa. Também pode-se verificar que em tempos de “whatsapp” receber uma ligação tornou-se prova de amor ou amizade, pois muitas são as opções de aplicativos capazes de enviar mensagens instantâneas com respostas mais rápidas ainda. Em meio a tanta popularidade, com muitos grupos, curtidas, comentários e confirmação de recebimento de mensagens encontramos pessoas incapazes de lidar com a rejeição ou com uma simples frase: “não posso responder agora, logo falo com você”. Parece que nos tornamos extremamente urgentes, onde é necessário parar tudo e responder o “zap” senão haverá brigas homéricas com justificativas dantescas. Em que ponto da evolução humana e social perdeu-se a necessidade de estreitar as relações interpessoais a despeito da facilidade tecnológica? Porque não se consegue ser feliz como os Jetsons eram em sua realidade, usando os recursos tecnológicos em benefício de todos?

A humanidade se encontra num ponto de extrema e necessária mudança. Observa-se valores invertidos e distorcidos, onde cada um vive de acordo com a sua verdade e vontade. Todos querem se destacar, mesmo que para isso precisem fazer as coisas mais impensáveis e imagináveis. Por essa necessidade criam aplicativos capazes de viralizar as maiores idiotices humanas, ganhando muitos cliques e alguns milhões. Talvez essa facilidade em ganhar dinheiro fazendo idiotice reforce a cultura do pão e circo iniciada pelos romanos em suas arenas. Hoje o circo são as redes sociais acessadas de qualquer lugar, e o pão são as criações esdrúxulas que idiotizam uma geração. Os espetáculos são proporcionados por todos que invadem o direito de alguém dizer algo e se posicionar, onde pula-se ferozmente gritando impropérios a fim de vencer uma discussão a base de gritos.

Paradoxalmente, ansiava-se pelo século 21, entretanto não buscou-se um avanço pessoal e emocional de modo a acompanhar a tecnologia que desponta todos dias, com mais e mais novidades. Há um livro que discursa sobre o sequestro da subjetividade, e trazendo muitos exemplos claros, de como nos perdemos de nós mesmos antes de se conhecer na totalidade. Quem eu sou? O que gosto de fazer? Quem eu quero me tornar? De certa forma a tecnologia usurpa essa significação pessoal, já que todos acabam fazendo a mesma coisa; frequentando os mesmos restaurantes; assistindo aos mesmos filmes e até “gostando” das mesmas coisas. Isso porque um mundo virtual se confronta com uma realidade cotidiana, nada glamourosa. Mas de uma forma, meio que automática, necessita-se da “hastag”, da curtida, do comentário como uma injeção de ânimo para sair de nossa ostra íntima.

Continuaremos a vislumbrar a felicidade da Família Jetson, que em meio a tantos botões, não deixaram de perceber que a melhor forma de avançar é estando juntos, e que tanta tecnologia os ajudou a aumentar o tempo de convívio familiar. A tecnologia ainda será um grande entrave ao avanço íntimo, mesmo que os recursos sejam cada vez mais otimizados e aprimorados. Incluindo mais e mais funções, não será possível criar uma otimização emocional, pois cada um precisa saber lidar com as facilidades da vida moderna, das notícias meteóricas e com o excesso de informações desnecessárias e sem nexo. Precisa-se saber filtrar o que realmente importa e o que fará diferença nessa caminhada, sozinha ou acompanhada. Saber usar em nosso favor tantos recursos é inteligência, mas saber conviver com o próximo é sabedoria.


Francy Rocha

Plante uma ideia, jamais obrigue alguém a engolir o fruto de seus devaneios filosóficos! Pessoa intrinsecamente inquieta e buscadora de mediação para as muitas verdades existentes..
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