florescer

Semeando ideias em mentes inquietas

Francy Rocha

Plante uma ideia, jamais obrigue alguém a engolir o fruto de seus devaneios filosóficos!
Pessoa intrinsecamente inquieta e buscadora de mediação para as muitas verdades existentes.

A cultura do desabafo

Desabafar, expor sentimentos e pensamentos é um ótimo remédio para aliviar um coração oprimido. Por muito tempo fazia-se longos desabafos em cadernos pessoais, sem que ninguém nunca tivesse acesso. Hoje expõe-se fácil e rapidamente os descontentamentos pessoais e sociais. Mas será que é preciso tanta exposição? Será que deve-se falar tanto, a tantos "estranhos"? Será que quem curte os inúmeros relatos se compadece com tais dores?


respirar.jpg

Historicamente, o ser humano sente a necessidade de expor seus sentimentos, anseios e pensamentos. Estudiosos acreditam que os desenhos encontrados em cavernas são as primeiras representações de diários pessoais, pois os desenhos eram feitos em cavernas de difícil acesso, exprimindo lutas pessoais e relatos cotidianos. Ao longo do tempo, a escrita em diários ganhou forma no Japão, na corte de Heian (794-1185), quando surgiram os “livros de travesseiros”. Foi somente em meados do século XIX que a figura feminina foi incorporada à arte de escrever ocorrências pessoais em cadernos. Alguns diários ganharam ampla repercussão, por seu conteúdo ser símbolo de resistência, no caso do diário de Anne Frank. Em sua maioria, eles abordam o cotidiano de pessoas que precisam se expor de alguma forma, ainda que seja limitada pelas folhas de um caderno, e guardados numa gaveta.

Os diários, em essência são imbuídos de lágrimas e dores da alma, aquela tristeza que não se consegue exprimir em palavras ou ações. Assim eles são usados como forma de expurgar o mais íntimo sentimento, tal qual, se estivesse falando com alguém. Alguns nomes da história mundial chegaram a usá-lo, principalmente pela sua conotação terapêutica. Em outros casos, os diários ajudaram a compreender os ditames de épocas, onde se detalham relações e normas sociais, sendo úteis para parametrizar social e psicologicamente períodos da história.

Com a criação dos computadores e da internet, bem como da sua popularização, a forma tradicional dos cadernos pessoais foi quase extinta. A partir dos anos 2000, os diários ganharam vida online, quando começaram a surgir os blogs, com histórias pessoais, sentimentos, pensamentos expostos no mundo cibernético a disposição de quem quisesse ler. Com o tempo, as pessoas foram cada vez mais escrevendo sobre si, saindo de seus mundos particulares, como forma de dizer o que sentem sem precisar falar diretamente, deixando exposto para milhares, seus embates íntimos e pessoais. Acredita-se que a necessidade de interligar esses blogs pessoais impulsionou a criação das grandes redes sociais.

Hoje há várias redes sociais, com as mais diversas utilidades: postar vídeos, fotos, mensagens inspiradoras ou simplesmente compartilhar pensamentos. Vê-se todos os tipos de conteúdo, seja o passeio em família, o fim de semana badalado, os locais visitados, e muitas outras coisas “íntimas” compartilhadas com dezenas de “amigos” que curtem e comentam. As mídias sociais se tornaram o grande celeiro de diários pessoais virtuais, uma vez que os blogs perderam essa função, pois elas tem maior rapidez e permitem o compartilhamento instantâneo.

Cada vez mais as redes de interação ganham destaque na vida das pessoas. Há aqueles que fazem relatos imensos sobre coisas corriqueiras, situações que nem ocorrem com elas. Compartilham frases e pensamentos apenas por concordar, e não por compreender e refletir sobre tais dizeres. Encontram-se também outros que as transformam num campo de batalha, e usam as postagens para criticar os outros, como se existisse um manual do politicamente correto.

Encontra-se ao longo do dia, verificando incessantemente as atualizações, inúmeros desabafos: como foi o dia, como foi estressante ficar preso no engarrafamento, esperar na fila da padaria. Parece que sobrevive-se de lamentações. Querem mudanças, mas não se movimentam para que algo mude. Fica-se atrás da tela aguardando quem vai fazer algo, pois é mais fácil desabafar, para que aquele sentimento de descontentamento passe, e alivie.

As redes sociais pegaram o lugar do velho caderno de capa florida, onde se escreviam os medos de falar os sentimentos àquela pessoa amada. Hoje as redes assumiram um espaço em que se expõem e desnuda-se sem pudores. Entretanto, lá mesmo exige-se respeito e liberdade de expressão. Profundamente, deseja-se poder falar de intimidades, mas não se sabe como. Com isso, é comum ouvir gritarias, sem distinguir as palavras, e continuarão eternamente gritando, enquanto não souberem se expressar e comunicar.


Francy Rocha

Plante uma ideia, jamais obrigue alguém a engolir o fruto de seus devaneios filosóficos! Pessoa intrinsecamente inquieta e buscadora de mediação para as muitas verdades existentes..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Francy Rocha