Maurício Silva

Maurício Silva é Tradutor e Revisor. Bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Além de colaborar com a Obvious, publica em Litteris. Interessa-se por cultura, artes e filosofia

A patrulha feminista nas redes sociais

Entre lutar por uma causa em que se acredita e acreditar que a causa pela qual se luta é absoluta, o fruto maduro do inequívoco progresso, que abismo. Não obstante, esse é o abismo que saltam as militantes feministas em seus blogs e perfis nas redes sociais. Ferrenhas e impiedosas, não há livre pensador que escape de suas represálias e que não seja exposto ao ridículo ante seus comparsas igualmente fundamentalistas.


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A guerra está declarada. A guerra contra a masculinidade, sim, mas, mormente, a guerra contra o livre pensamento. Não faz muito tempo, estava ouvindo um podcast de viés feminista que me forneceu o exemplo perfeito do que estou tentando expor: uma das apresentadoras, ao se referir a uma colunista d’O Globo, cujas ideias iam de encontro às suas, firmemente disse: "Não saia brandindo a sua ignorância por aí. Tudo bem ser ignorante, não tem problema, mas não fique se orgulhando, expondo ela na vitrine. Fique quietinho.”*. Aqui, neste pedacinho de linguagem, estão resumidos os dois princípios tão caros à esquerda fundamentalista: a crença de que são detentores da verdade social, ou seja, a crença em um absoluto, e a defesa de que as pessoas pensem da forma como lhes bem aprouver, contanto que não se manifestem de maneira contrária ao ideal do progresso (ou ao politicamente correto, ou a qualquer outra de suas meninas dos olhos, à sua escolha), que não se orgulhem dessas ideias (já que estar errado já é um fato dado e disto não há que se orgulhar) e que não as publiquem: em suma, que fiquem quietinhos.

Mas nós, espíritos livres, acostumados com o enxame de abelhas e seus ferrões venenosos, nunca silenciaremos. Diante do gado em estourada, permaneceremos firmes com os pés no chão. Nunca calaremos ante os que se consideram “os bons”, “os corretos”, os que, dia sim, dia não, suspiram “esperança na humanidade” ao compartilhar algum vídeo que reforce a sua ilusão degenerada.

A patrulha

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O dicionário Aulete Digital define o sentido pejorativo de patrulha como “grupo de pessoas que procura controlar ideologicamente os seus pares ou a coletividade”. O termo patrulha da Internet (ou patrulha do politicamente correto) está bastante disseminado já há algum tempo, referindo-se a um grupo militantemente muito ativo de perfis nas redes sociais que avidamente espreita o que é produzido ou colocado na mídia, a fim de expor e disseminar o que, à luz de sua ideologia, considera como burrices, preconceitos, reacionarismo, homofobia, machismos etc. A patrulha tem um quê de eufórica, um quê de justiceira, mas, sobretudo, um quê de manada. Uma manada eufórica e justiceira cujos olhos ideológicos reformatam o mundo, enxergando culpa onde só há discurso, pulga onde só há cachorro, pelo onde só há ovo.

Um caso em particular ganhou bastante repercussão nas redes sociais no início deste ano. A blogueira d’O Globo, Sílvia Pilz, publicou um texto irônico no qual discorria sobre o ethos das pessoas pobres do Brasil. Não demorou muito – nunca demora, porque se trata de uma rede em constante vigília – para que o texto chegasse a um dos cabeças do grupo (uma pessoa influente com muitos seguidores, como, por exemplo, um Pablo Villaça). Daí em diante, a coisa degringolou. Sílvia Pilz passou a ser um dos tópicos mais comentados das redes sociais. Acusaram-na de, entre outras coisas, não gostar de pobres, ter-lhes nojo e esculachá-los, quando seu texto não expunha mais do que estereótipos do imaginário brasileiro e – o que é pior – facilmente verificáveis. A polêmica envolvendo o nome da blogueira alcançou níveis absurdos na ocasião da publicação de um novo texto, em que dizia, entre outras coisas, que pessoas com deficiência mental causam desconforto à primeira interação e que a sociedade é hipócrita em não assumi-lo. Eu estou até o momento da publicação deste texto tentando encontrar o erro nestas noções, mas sem êxito. A patrulha, contudo, muito mais astuta que eu, conseguiu concluir que ter deficiência mental é tudo de bom, e que sentir desconforto na presença de uma criança com Síndrome de Down é ser a escória. Eu, optando por um caminho que me dá pé, acompanho Freud quando ele diz que não se legisla sobre afetos, e acrescento: fazê-lo é colocar empuxo na roda da hipocrisia.

A triste conclusão? Após a avalanche raivosa, O Globo desligou o blog da escritora. A patrulha conseguiu mais uma vez, se não calar, reduzir drasticamente o alcance do discurso da blogueira. Se este não é um instrumento de censura, eu não sei o que é; se isto não demonstra como a patrulha é totalitária, eu não sei o que mais poderia demonstrá-lo.

Em pleno século 21... (ou a naturalização do progresso)

Naturalização do progresso.jpg Cena de "Contos proibidos do Marquês de Sade", de Philip Kaufman

Não é incomum ouvirmos a frase de pessoas estupefatas com determinado acontecimento: “em pleno século 21, ainda assistimos a isso acontecer”. Nunca deixo de me espantar com tal espanto. Há algo de tão especial em nosso presente século que altere a estrutura moral do homem, levando-o a um patamar cada vez menos imperfeito? Parece que é nisso que acreditam os adeptos do progresso ou, de maneira mais precisa, que o ser humano melhora à medida que os séculos se adiantam. Dessa forma, o homem atual seria moralmente melhor que o homem do século 19, por exemplo.

Há de se acrescentar, claro, que um grande número de adeptos do progresso não sabe que o é. A noção de progresso é um fato dado nas sociedades ocidentais atuais, estando em simbiose com o pensamento moderno desde o advento do iluminismo e a vitória sobre a idade das trevas. Qualquer abordagem da atual esquerda sobre qualquer tema social o toma como pressuposto, e mais: como necessário. E é a isso que chamamos de naturalização do progresso, quando, em nível de pensamento, o progresso se incorpora como uma das formatações ideológicas pelas quais se enxerga a realidade.

Para Nietzsche, a própria ideia de um mundo imperfeito é uma artimanha dos negadores da vida. Os advogados da imperfeição do homem são, portanto, os negadores do homem. O forte desejo de que o homem seja algo que ele não pode ser – a saber, um homem feminista – é análogo ao desejo de que a sociedade seja mais pura, mais justa, mais... feminina.

A condenação do masculino e o assassinato da sedução

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Há no discurso feminista radical uma ânsia não só por tombar o homem de seu local de privilégio, mas, no final, de igualar os dois sexos em todos os aspectos. Onde há o desejo masculino, elas dizem “objetificação”, como se o desejo devesse passar por alguma purificação moral que o deixasse inofensivo e cândido como um cordeiro. O ataque, embora dissimulado em meio a jargões dos mais diversos, como “local de fala”, “empoderamento”, entre outros, dirige-se ao cerne da masculinidade. De modo negativo, o feminismo grita: “que o homem deixe de ser viril!”. O feminismo é castrador.

Fala-se de “social”, mas há princípios muito anteriores que estão no centro da feminilidade e da masculinidade. As marcas que a simples possibilidade de gerar um filho imprime na consciência da mulher não podem ser desconsideradas, marcas essas totalmente ausentes no psiquismo do homem. Não obstante, no processo da geração de uma nova vida, o homem engravida e a mulher é engravidada. Se pudessem, as feministas batalhariam para que os homens também engravidassem, invertendo os papéis invertíveis – maldita natureza!

Um homem não é uma mulher; uma mulher não é um homem, e nessa desigualdade reside a base do jogo da sedução – prazeroso para os dois lados. Quando uma feminista diz: “nosso corpo é nosso, existe para nos dar prazer, e seu desejo não é a medida pela qual nos avaliamos”, está erguida a bandeira da hostilidade e, consequentemente, declarada a guerra; a qual, embora recém-declarada, já conta com a sedução no campo das baixas.

Convenção e sociedade enquanto palavrões

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Quantas e quantas vezes não ouvimos frases como “comportamento imposto pela sociedade”, “isso é apenas uma convenção social”? A esquerda não esconde de ninguém que não é lá muito partidária das convenções sociais, o que ela esconde é quais são os seus motivos (mas ainda há a possibilidade de que nunca tenha parado pra pensar nisso). A verdade é que a patrulha nas redes sociais não faz senão multiplicar discursos sem refletir muito no que eles implicam ou significam. Para ser parte do grupo, é preciso defender certas ideias nucleares, sem questionar, como, por exemplo, o aborto, a não diminuição da maioridade penal, as cotas, o assistencialismo e o direito do Laerte de usar o banheiro feminino. Caso deslize em algum desses temas, você está fora – e o que eles mais temem é não ser corretos. Num maniqueísmo de mocinhos e bandidos, não importam os seus argumentos, pois um touro bravo só enxerga o vermelho. Não existe ponderação: se no caso do atentado ao Charlie Hebdo ousar-se utilizar um “mas” após declarar que o acontecimento foi uma tragédia, ser-se-á taxado de defensor de terroristas ou acusado de estar “culpando a vítima”. Não é exagero: esse é exatamente o critério utilizado. Um conselho? Não use “mas” ao se comunicar com a patrulha. Nietzsche, mais uma vez, dizia que o pensamento mais pobre e limitado é aquele que se fundamenta em oposições. Infelizmente, dele a patrulha usa e se lambuza.

Convenção e sociedade são palavrões na boca do engajamento à esquerda. Ora se dirá, com aquele desgosto desde o estômago, que crescemos sob a influência das imposições da sociedade, ora que as convenções nos impedem de ser livres. Mas eu pergunto: não há nada de bom nas tradições e convenções sociais? Mais: seria possível ter crescido em sua ausência? O liberal inglês Edmund Burke, em 1790, declarava, a respeito da Revolução de 1789 na França, ser um disparate desejar recomeçar a sociedade do nada, referindo-se à experiência que os franceses conduziam em seu país, a qual tratava de transpor sistemas exclusivamente racionais para a vida cotidiana da sociedade, em desconsideração da prática e do bom senso. Todos somos livres. Aliás, não há escapatória para essa maldição, segundo Sartre. Demonizar as convenções ou a sociedade opressora é, por meio da vitimização, esconder-se sob a sombra da menoridade. A sociedade é necessária. Os valores são necessários. E as convenções, necessárias para a estabilidade, para a paz, para a alegria. O que não é necessário são os absolutos, e eis aqui a cartada final: tudo em sociedade é convencional, e, para além das convenções, nada há de verdadeiro.

A normatividade na arte Normatividade na arte.jpg Chega a ser paradoxal: um movimento libertário como o feminismo apresentar traços tão fortes de normatividade sobre as artes. As feministas exultam quando encontram, em qualquer obra de ficção, uma personagem feminina forte, independente e livre. Contudo, quando a obra retrata mulheres como uma dona de casa, uma mulher sem profissão ou uma mulher financeira ou emocionalmente dependente, por exemplo – representações que entram em conflito com o escopo de mulheres aceitáveis pelo movimento –, não é preciso procurar com muito afinco para encontrar algumas feministas proferindo discursos normativos sobre como a mulher deveria e não deveria ser retratada nas artes. Este tipo de procedimento prescritivo se assemelha muito ao descrito no polêmico texto de Sílvia Pilz: reformar a linguagem substituindo a forma com que nos referimos às pessoas – método muito em voga em toda a esfera do politicamente correto – não começa nem remotamente a resolver o problema da discriminação social. Referir-se a uma pessoa como afrodescendente, e não negra, como deficiente intelectual, ao invés de deficiente mental, como verticalmente comprometida, e não anã é como utilizar véus transparentes para encobrir um elefante – não obstante o esforço hercúleo, todos sabem que o elefante ainda está lá. A pressão para normatizar como a mulher deve ou não deve ser retratada nas artes é a pressão de uma massa totalitária que, no fundo, não consegue conviver bem com as liberdades criativas e está ansiosa por fazer da arte o seu instrumento ideológico.

No segundo semestre do ano de 2013, o rapper Emicida lançou seu primeiro LP intitulado “O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui”. Em uma das faixas, de nome Trepadeira, conta a história de um homem que, ao sair de casa, descobre-se traído por sua mulher. A música segue em primeira voz em tom de desabafo, mas sem nunca perder o humor característico do samba, descrevendo a mulher e a situação infeliz por meio de nomes de plantas e flores – o que resultou numa obra bastante espirituosa. Não foi essa, contudo, a opinião da patrulha feminista. No mesmo dia do lançamento, as redes sociais entraram em polvorosa com acusações pesadíssimas de machismo contra o rapper em decorrência do conteúdo da canção. A Marcha das Vadias de São Paulo, importante núcleo feminista, publicou em sua página no Facebook, em ocasião da polêmica, que a música repercutia “o discurso hegemônico que deprecia a mulher sexualmente livre e justifica a violência com base no comportamento dela”. Há quem concorde com essa leitura da obra – que acho, no mínimo, tendenciosa –, mas o número de pessoas que simpatizam com essa interpretação tende a cair quando leem o que o grupo escreveu sobre a carta aberta às feministas publicada pelo Emicida para esclarecer alguns pontos. O grupo chama a carta de lastimável, dizendo-a estar “permeada por ironias, auto-congratulações e um tom bastante desrespeitoso”. Pobre leitor que sou, encontrei as ironias, sim – não muitas, para dizer a verdade –, mas não encontrei o desrespeito. Espero um dia ser tão arguto como essas ativistas, a fim de melhor interpretar o que leio. O mais triste, todavia, é assistir ao autor de raps como Rua Augusta ou Vacilão (ambos de cunho explicitamente pró-mulher) ser alvejado pelas setas raivosas da patrulha feminista sem a menor ponderação.

A questão do gênero

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Quem não se lembra da bebezinha Storm? Ou seria do bebezinho Storm? Ou, ainda, dx bebezinhx Storm? Bom... quem não se lembra do ser humano Storm? Para quem não se lembra, trata-se de um bebê canadense nascido em 2011. Ganhou notoriedade mundial quando seus pais decidiram submetê-lo à mais arriscada de todas as experiências já feitas com um filho: criá-lo sem gênero definido. Para que a experiência desse certo, batizaram-no com um nome neutro: Storm. Somente os filhos mais velhos e um amigo próximo sabiam o sexo da criança. No e-mail de anúncio do nascimento do bebê, seus pais escreveram: “Nós decidimos não compartilhar qual é o sexo de Storm por enquanto – um tributo à liberdade e à escolha ao invés da limitação, um exemplo para aquilo que o mundo pode vir a ser durante a vida de Storm”. Em outra ocasião, o pai disse: “Percebemos que os pais fazem muitas escolhas pelos filhos. É ofensivo”. É verdade, os pais fazem muitas escolhas pelos filhos. Mas não seria necessário fazê-lo? Não seria muito mais ofensivo para a criança criá-la nesse oceano aberto de possibilidades do que fornecer-lhe um porto seguro? É exatamente o que pensam os especialistas consultados sobre este caso. Para eles, esta experiência pode ser catastrófica. “Ter um senso de individualidade e identidade pessoal é uma etapa fundamental para o desenvolvimento normal e saudável”, dizem. Dentro da atual configuração social, onde os papéis masculino e feminino são tão bem definidos, ser sustentado como sem-gênero por seus pais até uma idade avançada pode configurar abuso.

Entende-se que a questão que envolve o caso não é se Storm escolherá ser menino ou menina. Os próprios conceitos de menino e menina foram forçosamente esvaziados no momento em que se decidiu pelo experimento – doutra forma, este não teria razão de ser. Não se trata de escolher entre um ou outro, mas, sim, ser o que se é. E é aí que reside o problema. Imaginemos que Storm cresça e escolha ter relações sexuais com seus cachorros de estimação: os pais permitirão? Esteja certo que não. Evidentemente, estamos já em campo completamente outro, saímos do gênero. Mas a repressão, se feita, acontecerá tendo como justificativa uma convenção social, a saber, que não se tem relações sexuais com animais. Ora, reprime-se aqui, mas se evita reprimir lá em prol da liberdade e da escolha? Uma contradição? Absolutamente: o gênero não é menos convenção do que o veto às relações sexuais com outras espécies. O gênero, a moda, a língua, a arte: todos convenções, cada qual com sua taxa de resistência a alterações.

A convenção se mantém coletivamente. O indivíduo, isolado, ao tentar radicalmente romper com a convenção, acabará ou louco ou marginalizado – ou os dois. A sociedade, por sua vez, menos flexível que o indivíduo, dada sua natureza coletiva e alçada na convenção, ou enxergará o indivíduo radical como louco ou marginalizá-lo-á – ou os dois. A crítica ao feminismo radical é exatamente essa: acreditando-se mais livre socialmente do que pode ser, crê que ao reformar a língua, censurar a arte e normatizar a vida extrapola a convenção – mas a convenção não pode ser extrapolada. Ela se metamorfoseia a passos lentos, cabendo a nós driblar, dançar, jogar o seu jogo. No fundo, esse é o jogo da vida – e o bom jogo se joga contra a mediocridade.

* Ouça o áudio do podcast aqui, a partir de 11:11.


Maurício Silva

Maurício Silva é Tradutor e Revisor. Bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Além de colaborar com a Obvious, publica em Litteris. Interessa-se por cultura, artes e filosofia.
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