Maurício Silva

Maurício Silva é Tradutor e Revisor. Bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Além de colaborar com a Obvious, publica em Litteris. Interessa-se por cultura, artes e filosofia

O futuro da Psicanálise na sociedade da tolerância

Resistirá a Psicanálise à tormenta da tolerância?


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Imagem gentilmente cedida por Juan Osborne (http://juanosborne.com)

O filósofo trágico e psicanalista Luiz Felipe Pondé disse, em sua coluna na Folha de São Paulo, que periga de a Psicanálise acabar abrindo as pernas para as bobagens do século XX, mesmo após ter bravamente a elas resistido por tanto tempo. Na dita coluna, ele trata especificamente do narcisismo, mas, pelo andar da carruagem, algo de mais grave desponta no horizonte. Num momento em que a inteligência média sofre uma coação quase irresistível no sentido da aceitação de tudo e da crítica a qualquer tipo de discriminação, a Psicanálise corre o risco de gradualmente perder a sua força na cultura geral dos centros urbanos – golpe que ela deverá à escalada do discurso da tolerância rumo à hegemonia.

Aconteceu coisa semelhante com a Igreja. A despeito dos esforços do Concílio de Trento (1545 – 1563) em condenar o protestantismo, do Papa Pio X em condenar o modernismo (1907), do Papa Pio XI em condenar o comunismo (1937), a Igreja se reuniu em concílio de 1962 a 1965 para proibir a missa promulgada pelo Concílio de Trento (substituindo-a por uma nova com ares protestantes), abraçar o modernismo e passar a chamar de irmãos aqueles que antes chamava de hereges. A teologia comunista, apesar de ter sido condenada pela Igreja na segunda metade do século XX (Teologia da Libertação), ainda sobrevive nas células da Renovação Carismática. Nem todos, contudo, se renderam. O grupo clerical de resistência mais proeminente é a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), fundada por Marcel Lefebvre, arcebispo católico.

O destino da Psicanálise começa a despontar com horrorosa semelhança. Num momento em que a visão teísta pessimista do homem sucumbia frente ao modernismo otimista, a Psicanálise ateia e materialista como que tomou para si o bastão, a tarefa de descrer da maleabilidade do humano, da ilusão de que o homem seria senhor de si mesmo. “O homem, evidentemente, não é dono de si mesmo, é um barco que vaga à mercê de um oceano violento de instintos e pulsões que o consome para além de sua consciência”*, disse Pondé. A técnica e o aparato teórico inicialmente desenvolvidos por Freud para tratamento de transtornos psicológicos têm como pano de fundo a noção de “normalidade”, esta sendo o parâmetro para identificação do que é transtorno e do que é saudável. Sim, a homossexualidade, por exemplo, era considerada um transtorno, e não é difícil imaginar por quê. Numa sociedade ocidental desenvolvida tendo como núcleo a família, onde os homossexuais seriam exceções, e não regra – ou a exceção que confirma a regra –, elementos de desarranjo – e, portanto, desarranjados – do convívio social, a heterossexualidade se impõe como “normal” frente ao “desvio”.

Hoje, mais do que a noção de hierarquia e autoridade, a própria ideia de normalidade está sob fogo cerrado – Gramsci, afinal de contas, talvez estivesse certo. O discurso da tolerância – apesar de seus inúmeros pontos de contradição internos – prega, basicamente, a aceitação irrestrita do outro como ele estáou quer estar –, não só de um ponto de vista social, mas também de si para si, solapando, de uma só vez, tanto a normalidade quanto o transtorno, o material básico de trabalho da Psicanálise. Não se deve mais tentar ajudar um rapaz que nunca superou o que Freud chamou de Complexo de Édipo, e que, por isso, hoje experimenta insegurança social e afetiva, mostrando-se tímido e recluso: “ele não tem um problema, este é apenas um modo de ser”.

Num contexto como esse, a força da Psicanálise declina ao passo que a aceitação de uma normalidade perde força. Quanto mais hegemônico e influente for o discurso da irrestrita tolerância, à Psicanálise será relegado um lugar cada vez mais à margem. Estará ela fadada a se tornar propriedade de um clubinho como o da FSSPX, a que a adversidade deixou mais claros os conceitos e as fronteiras, sim, mas – diga-se a verdade – de influência numérica ínfima, culturalmente falando? Talvez, deslocada à força para a marginalidade, transfigure-se em polo de resistência e, afinal, não abra as pernas para as bobagens do século XXI.

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Referências:

*PONDÉ, Luiz Felipe. Contra um mundo melhor. Ensaios do afeto. São Paulo. Leya, 2013. P. 213.

Publicado originalmente em Litteris


Maurício Silva

Maurício Silva é Tradutor e Revisor. Bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Além de colaborar com a Obvious, publica em Litteris. Interessa-se por cultura, artes e filosofia.
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