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Juntos modelamos o mundo

Edu Café

Mineiro de Belo Horizonte e aquariano de 1981. Observo o conhecido e pergunto ao desconhecido quando quero imaginar. Escrevo para sobreviver às minhas emoções, pulsando em um mundo que não tenho como decifrar

O toque como último alento em um mundo vazio de sentido

O filme "Sentidos do Amor" ('Perfect Sense', 2011), imaginando um mundo em que perdemos sucessivamente os nossos cinco sentidos, associa-os a diferentes tipos de emoções, propondo uma reflexão sobre a natureza do ser humano.


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Uma inexplicável epidemia toma conta do mundo. Um a um, cada sentido humano desaparece. As perdas são precedidas por surtos emocionais, como se cada sentido fosse ligado a uma emoção, e sua expressão máxima equivalesse ao seu esgotamento total.

Esse argumento do filme Sentidos do Amor ('Perfect Sense', 2011), do roteirista dinamarquês Kim Fupz Aakeson, abre as portas para uma reflexão sobre a condição humana, em que “alma” e “corpo” se interpenetram e sinalizam um ao outro. A escolha das associações é intrigante e leva a uma ideia singular a respeito da nossa natureza.

Aceitando a proposta de reflexão que o filme faz, precisarei navegar por toda a sua extensão. Portanto, antes de ler este artigo, recomendo que assistam a esta obra poética e instigante. Os que não se importam com spoilers podem ler à vontade.

Nos minutos iniciais do filme, somos informados, junto com a epidemiologista Susan (interpretada por Eva Green), que um homem está se queixando de ter perdido completamente o sentido do olfato. Ele foi acometido por uma crise de choro, enquanto falava ao telefone com a esposa. Diz a ela que não vê nenhum significado na vida. Ela se assusta, pois esse não é um comportamento comum de seu marido. E de repente, tão subitamente como começou, a aflição termina e ele diz estar bem de novo. Só que não é mais capaz de sentir nenhum odor. A mesma tristeza e as mesmas crises de choro se reproduzem no mundo inteiro. E, como no caso narrado, o resultado é sempre a perda do olfato.

Aakeson, lembrando que o olfato é conectado, no ser humano, às memórias de cada um, sugere a perda das imagens passadas como a causa mais fundamental da tristeza. Somos feitos de memória. Todo o nosso sentido de identidade depende do registro que fazemos de nossas experiências. Perder a conexão com imagens especialmente carregadas de emoção provoca um vazio que não tem outra consequência a não ser a tristeza profunda. Somos roubados de nossa história, das belezas sutis que esculpiram em nossa alma aquilo que nos torna singulares e nos distingue como seres únicos.

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É exigido do ser humano que venha à tona uma de suas capacidades mais importantes: a adaptabilidade. Michael, um chef de cozinha (interpretado por Ewan McGregor), é forçado a usar sua criatividade para que as refeições ainda sejam prazerosas - como o olfato é ligado ao paladar, sua perda exige que enormes quantidades de tempero sejam utilizadas nos pratos, para que qualquer gosto seja sentido. As pessoas aos poucos se acostumam com a nova realidade e tentam se conformar. A vida segue.

Uma nova perda, desta vez do paladar, surge quando as pessoas são acometidas por surtos de pavor. Elas se sentem aterrorizadas por motivos que vão desde o excesso de ódio existente no mundo até a fragilidade do corpo, com sua suscetibilidade às mais diversas doenças e sofrimentos, passando pelo medo de conspirações e culminando na angústia da solidão. A sujeição total ao medo, a sensação de insegurança e desamparo, a ausência de solidariedade, integração e afeto são o que leva a vida a perder o seu sabor.

A audição vê seus dias contados quando a humanidade é envolvida por uma atmosfera de fúria, ódio e pânico absolutos. As pessoas se agridem e destroem tudo ao seu redor, perdendo a razão, o autocontrole e a empatia. Aakeson sugere que, ao deixar de ouvir uns aos outros, os seres humanos entram em uma espiral de violência que se origina na incompreensão, na falta de abertura aos pontos de vista dos outros e na compulsão por impor suas crenças e supostas certezas a todo o mundo. Deixar de ouvir é deixar de respeitar o direito de ser diferente, é lutar cega e improdutivamente por uma pobre, impossível e indesejável unidade de opiniões e modos de ser e existir.

A visão é o último sentido a desaparecer. Este é um momento desafiador para a reflexão do espectador, pois a emoção que se associa a essa perda, ao contrário das anteriores, não é desoladora, aterrorizadora ou destrutiva. É o contrário disso. As pessoas, de repente, sentem necessidade de estarem com seus entes queridos. Sentem vontade de interagir, de rir e sorrir juntos, compartilhando felicidade. Querem se tocar.

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Talvez Aakeson esteja tentando nos fazer atentar para o fato de que o amor está além das aparências. Como diz um personagem célebre de outra obra ficcional, “o essencial é invisível aos olhos”. Beleza física, dinheiro e posses, títulos e posição social, grandes feitos e intelectos privilegiados, tudo o que podemos enxergar de externo nas outras pessoas e em nós mesmos se torna inútil e vazio diante de perdas extremas.

É o exercício do afeto, a mútua compreensão, a alegria e o prazer lúdico, a gratidão profunda por tudo o que significa simplesmente estar vivo, e, principalmente, o desejo de buscar e encontrar-se com o outro em um espírito de união e amizade, que constituem aquilo que Aakeson chama de “momentos luminosos”. Oferecer carinho, conforto, perdão e aceitação – e tudo mais que constitui o amor – é o que existe de mais fundamental, importante e valioso para o ser humano.

O tato é o único sentido que resta. Se pensarmos em termos de verossimilhança, viver somente com o sentido do tato é impossível. É o fim. Mas se pensarmos em termos metafóricos, é através dele que a vida pode seguir, seja no sentido literal, como as carícias e arroubos dos amantes, o colo das mães, os abraços paternos, os afagos dos amigos e familiares, seja no sentido figurado, como as palavras carinhosas e sinceras, os gestos de generosidade e consideração, a beleza das experiências compartilhadas. É nos tocando mutuamente que cultivamos e sustentamos o alento que nos mantém vivos.

A partilha e o encontro nos fazem seguir em frente, mesmo nas mais duras circunstâncias. É o amor o nosso alimento mais essencial. Sem ele, nem mesmo a abundância material e a saúde do corpo são capazes de nos conferir a energia para enfrentar as dificuldades e os desafios que são inerentes à vida. O amor mais genuíno, aquele que se sente feliz com a felicidade do outro e com o simples fato de estar vivo, é o que confere “sentido” às nossas precárias existências.


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