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Juntos modelamos o mundo

Edu Café

Mineiro de Belo Horizonte e aquariano de 1981. Observo o conhecido e pergunto ao desconhecido quando quero imaginar. Escrevo para sobreviver às minhas emoções, pulsando em um mundo que não tenho como decifrar

Em um círculo, fim e começo ocupam o mesmo espaço

No romance “Enquanto Deus não está olhando” (2014), de Débora Ferraz, a quebra temporal instaurada por momentos definidores é esticada, em uma narrativa permeada pela mistura entre ausências efetivas e iminentes.


Enquanto Deus não está olhando, de Débora Ferraz.jpg

Érica é uma artista plástica de vinte e poucos anos que, repentinamente, é confrontada com a ausência do pai. Seu desnorteamento desliza na fronteira do delírio, enquanto sai em uma busca desesperada em direção a um passado que, embora anterior à sua própria existência, reverbera nela como ondas geracionais que se reproduzem de maneira aparentemente fatalista.

Seu ofício, entrelaçado com sentimentos de culpa em relação ao pai que a queria médica, é suspenso como a corda sobre o abismo, em uma rejeição que lhe atribui responsabilidade e peso, tal qual uma mistura de cores malsucedida em um quadro inacabado.

Recorrendo a um velho amigo, que não vê há anos, busca nele um amparo que talvez lhe sugira um retorno que vai além do restabelecimento de uma antiga relação, semelhante a ecos do passado ressoando nas lacunas do presente.

Na interseção entre uma perda e um reencontro, uma ardilosa cumplicidade se desenha, uma ligadura frágil em que expectativas mútuas são difusas e pouco claras sob o domínio das coisas que não são ditas. No extremo da vulnerabilidade, as ponderações submergem, como tinta se desprendendo de pincéis, expondo a carne viva do vazio insuportável que anseia por alívio.

Mas algo sempre falta ao ser humano, apesar de todos os disfarces, e à medida que uma nova distância desponta no horizonte, Érica parece abraçá-la e apegar-se a ela, como se a despedida consciente e a preparação para a ausência já prevista neutralizassem a perda inesperada. Mas perdas não se neutralizam.

Débora Ferraz.jpg Débora Ferraz

A escritora Débora Ferraz, através de um texto fluido, embora quebrado por frequentes inversões temporais em que o presente, a memória, o sonho e o devaneio se alternam, desfia uma teia de fragmentos e ambiguidades que, aos poucos, vão delineando contornos que, necessariamente imprecisos, formam um todo tão inapreensível quanto os milésimos de segundo em que vidas são irremediavelmente alteradas.

Enquanto Deus não está olhando, no propósito ousado de estender o instante em que fim e início se tocam, envolve o leitor na apreciação de uma narrativa intimista, reflexiva e comovente.


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Mineiro de Belo Horizonte e aquariano de 1981. Observo o conhecido e pergunto ao desconhecido quando quero imaginar. Escrevo para sobreviver às minhas emoções, pulsando em um mundo que não tenho como decifrar.
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