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Uma paixão pela fotografia, outra pela palavra.

Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com

A ficção como lugar da fantasia – Luigi Pirandello

A vida prescinde de qualquer verossimilhança. Por que a nossa dificuldade em aceitar na arte o absurdo? Uma perspectiva de leitura a partir do ensaio "Sobre os escrúpulos da fantasia".


IMG_1411.jpgFoto: Paulo Andrade/fotoverbe-se.com

O autor italiano Luigi Pirandello, ao final de seu romance “O falecido Mattia Pascal” (que é, a propósito, meu livro favorito) tomou a liberdade de inserir em 1921 (na terceira edição da obra) um apêndice ao qual deu o nome de “Sobre os escrúpulos da fantasia”.

Pirandello, perspicaz em trazer aos leitores histórias para surpreendê-los quanto a intrincada psique humana, justifica seu estilo ao mesmo tempo em que aponta e responde aos excessos críticos dirigidos às obras de arte que escapam a um retrato da vida chamada “normal”. Ao dizer que os absurdos da vida não precisam parecer verossímeis porque são verdadeiros, ao contrário dos da arte que, para parecem verdadeiros, precisam ser verossímeis e sendo verossímeis, deixam de ser absurdos, o autor marca a autonomia que arte e vida tem (ou devem ter) entre si. Ou seja: não se pode julgar a arte pela vida. Contudo, será mesmo que a arte e a vida conseguem efetivamente ser percebidas sob critérios distintos? Não seriam as duras críticas feitas à obra de Pirandello um indicativo de que algo de inquietante para o humano emerge de suas histórias, numa arte que faz questão à vida?

O autor nos alerta que somos acostumados a reconhecer o comportamento humano por meio de padrões - estamos habituados a lidar com o humano na condição de homem e não de sujeito; trabalhamos com a percepção do “homem médio”. A arte em geral (embora nesse caso falemos especificamente em literatura) lidará com cada um desses sujeitos naquilo que eles tem de mais idiossincrático. A literatura rompe com padrões e expectativas, portanto.

Contudo, creio que a vida é quem primeiro realiza essa quebra, embora nós não estejamos nunca preparados para lidar com o desconhecido e imprevisível que é o nosso semelhante. A noção de outro nos perturba desde logo pois supõe um deslocamento da nossa própria identidade. Daí nossa dificuldade (ou impossibilidade) em cumprir, por exemplo, o mandamento “amar ao próximo como a ti mesmo”. A psicanalista Maria Rita Kehl fala a esse respeito ao afirmar que “amar (ao estranho, diferente de mim) como a mim implica a anulação de toda a alteridade. Anulação bastante tentadora: ao fazer do próximo um idêntico, suprimindo nele tudo que é estranho ao eu, o sujeito tenta também se livrar do outro que o habita”.

A inquietação provocada pelo absurdo quando este emana do campo da arte talvez incomode tanto porque nos aponte para o indomável que é o outro, capaz do que, não sabemos. “Se eu sou este e ele se assemelha tanto a mim mas não é eu, quem é ele? Diante dele, quem sou eu? Só depois de nos desestabilizar dessa maneira – se aguentarmos o tranco – é que o próximo pode se revelar fonte de aprendizado, de experiências compartilhadas, de novas identificações”.

A arte tem o poder de nos apresentar um grande número de diferentes – e nos mostra que não é possível compreendê-los, mas é preciso fazer com eles uma interlocução. Até onde estamos dispostos a isso? Não seria o absurdo na arte uma denúncia à nossa incapacidade de diálogo com o absurdamente humano, sempre inapreensível?

É interessante observar que pela valorização do particular a arte literária tem grande impacto no coletivo – um leitor aprende pouco a pouco a se deparar com os mais variados tipos humanos e a tolerar, também pouco a pouco, tê-los todos dentro de si. Fernando Pessoa talvez tenha sido o escritor que mais levou a efeito essa ânsia, a partir da criação de vários heterônimos que lhe permitiram sentir e olhar o mundo a despeito de si. Não seria o aceite aos absurdos da arte uma via possível de tolerância para os absurdos da vida?

Parece-nos que é no desapego ao critério geral de “humanidade” e pela empatia com os mais variados tipos humanos que podemos desenvolver auto-crítica - é preciso construir novas maneiras de significar a relação do homem com seu semelhante. Para Pirandello, a propósito, a humanidade não pode mesmo existir em abstrato – existe, sim, dentro da variedade de homens - os quais são capazes de cometer absurdos que não necessitam parecer verossímeis porque são verdadeiros.

As particularidades de cada sujeito, acredito, falam de seus sofrimentos e inquietações, os quais segundo Pirandello são situações da vida que incentivam o racicionar - se a felicidade é gozo pleno, é nas situações mais improváveis e mesmo inverossímeis que podemos enxergar mais a fundo o que é da condição humana, ainda que tais absurdos possam escapar àquilo que à primeira vista pensamos nos aproximar do conceito de "universalmente humano".

O “anormal” da vida cotidiana e das personagens de Pirandello parece não ser mais do que o estouro de um imenso real – aquele que, quando enxergado, avassala. Os personagens de um livro de literatura vestem máscaras, as alternam e a máscara por vezes pode rasgar-se e ser pisoteada diante do leitor. Nós, sempre investidos de máscaras temos, me parece, dificuldade em vê-las arrancadas em literatura, na ficção que surge como factível.

Diz Pirandello: "É a máscara para uma representação, o jogo dos papéis, aquilo que desejamos ou devemos ser; aquilo que parecemos ser aos outros, enquanto o que somos, até certo ponto, nem nós mesmos sabemos. É a metáfora desajeitada e incerta de nós mesmos, a construção frequentemente complexa que fazemos de nós mesmos e que os outros fazem de nós”

Num mundo que nos impõe o padronizado, o óbvio e a aparência, o quanto podemos suportar personagens viscerais?

A provocação de Pirandello me faz pensar que o absurdo mais aceito na vida (e menos na arte) não é o inverossímil, mas a capacidade humana de sustentar por tanto a máscara e ser marionete de si mesmo – não seria a arte uma ferramenta de denúncia de toda a potencialidade da vida, que nos desconforta tanto justamente por nos lembrar que o desejo transcende aquilo que é nomeável e por vezes representável?

Acredito que sim, afinal, por ironia da arte ou da vida, o romance Falecido Mattia Pascal, considerado por muitos à época de sua publicação como uma história sem a necessária pregnância com a realidade, encontrou alguns anos depois - nas folhas de um famoso jornal – a sua confirmação em uma notícia verdadeira. A arte pode, então, preceder a vida? Já disse Pirandello: de quais inverossimilhanças reais a vida é capaz, até nos romances onde sem querer ela é cópia da arte?

O título do meu texto afirma a ficção como lugar da fantasia – penso que a arte, a qual surge como faculdade imaginativa, como o lugar do que não tem ligação estreita com a realidade, também cumpre a função de nos ligar à fantasia em sentido para além da inventividade. Quando destaco a ficção como lugar da fantasia, me refiro à fantasia segundo seu lugar em psicanálise – o lugar do desejo.

A história de “O falecido Mattia Pascal” me provoca justamente na medida em que questiona até que ponto podemos usar diferentes máscaras e até que ponto elas podem confundir-se com nós mesmos.

Referências: PIRANDELLO, Luigi. O falecido Mattia Pascal; tradução de Rômulo Antonio Giovelli e Francisco Degani. São Paulo: Ed. Abril, 2010.

KEHL, Maria Rita. Sobre ética e psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com.
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