fotoverbese

Uma paixão pela fotografia, outra pela palavra.

Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com

A todos nós, cansados de falar sozinhos

Sobre a solidão e as incompreensões da rotina; é preciso coragem para dizer e muita ousadia para escutar.


Foto: Paulo Andrade /fotoverbe-se.com IMG_1899.jpg

Palavras. Não bastam serem ditas. Não querem reverberar soltas ao infinito. Querem encontrar abrigo. Palavras querem a finitude de um destinatário, ou de muitos – mas querem destino. E querem dizer o que dizem enquanto impossível traduzido. Senão é extravio.

Por isso palavra pede escuta. E escuta é quando a gente ouve o outro, e não a gente mesmo no que o outro diz. Escutar é esvaziar-se de si e ser o [re]pouso daquele que quer [tentar] fazer-se compreender. Escutar é tirar as nossas marcas, e nos deixarmos sentir e marcar pelas marcas de quem quer [tentar] dizer. É não trazer para a boca dele as nossas irritações, os nossos preconceitos, as nossas neuras, as nossas dores, os nossos modos e desejos. É ficar pelado. É não apelar. É dar-se sem qualquer apelo – nem atropelo.

O outro sempre fala dele, nunca da gente, ainda que fale da gente, mais do que com a gente. Então relaxa! Flutua! Olha pra ele! Poucas sensações no mundo são tão apaziguadoras quanto poder exclamar: “É disso que eu estou falando”. Permita: esse espasmo é tão raro e sublime em dias de sensibilidade perdida. São tantos os analfabetos na arte de ler com os olhos dos outros. É por isso que o mundo anda tão louco e tudo parece tão vazio. Vazio do sentido de cada um; cheio demais pelos sentidos que se impõe, surdos.

Não há acolhida na palavra tolhida, mas tudo é urgente e emergente demais para que possamos expor o coração. Por isso que a gente pensa abrir o coração aquele que fala. Que nada! Abre o coração quem escuta. O egoísmo impede de calar, de dar voz a quem nos diz e não à voz que o dizer de alguém convoca. Ninguém compreende nem apre[e]nde sem desligar-se de si. Mas a auto crítica anda tão em baixa, que a gente não escuta nem a gente, que dirá esse estranho que implora comunicar-se.

Ah, somos todos estrangeiros! Não há intervalo de silêncio para encaixar novos sentidos. E nessa solidão tremenda, nesse desencontro diário, nessa ausência de pausa, resta vazar pelos olhos o que precisa ser dito e não encontra eco. Lágrimas! Parecem ser ainda a forma última de silenciar minimamente o Narciso que habita [e grita!] em quem oferece ouvido, mas não escuta.


Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com.
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