fotoverbese

Uma paixão pela fotografia, outra pela palavra.

Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com

Você já ouviu falar em cinema Super 8?

Sobre a experiência de vivenciar um modo "vintage" de fazer cinema amador e os caminhos que a vida nos apresenta quando ousamos sonhar!


IMG_2467.JPGFoto: Paulo Andrade/fotoverbe-se.com

Em setembro de 2014 durante uma visita a Lisboa estivemos em uma das feiras de usados mais famosas da cidade, a Feira da Ladra. No local é vendido de tudo um pouco: livros, CDs, eletrônicos, peças de decoração, objetos pessoais e antiguidades de todo tipo. Contudo, em meio a tantas opções, o que mais prendeu nossa atenção foi a variedade de máquinas fotográficas antigas à disposição do público. Ao vê-las tive um forte sentimento de familiaridade – de onde mesmo é que já as conhecia?

De volta para casa descobri, com o auxílio de minha mãe, que a impressão tinha mesmo uma forte razão de ser: meu pai havia deixado como herança uma Praktica LTL, uma daquelas câmeras de aço fabricadas em Dresden ao final dos anos 60. Utilizá-la foi simples: bastou comprar rolinhos de filme tradicionais, os quais embora um tanto em desuso continuam a ser vendidos e revelados sem dificuldade. A descoberta e a experimentação com uma câmera fotográfica analógica nos fez reaprender a ter paciência e “a trabalhar no escuro”. Não tínhamos certeza quanto ao resultado das fotos, especialmente pela ausência de funcionamento do fotômetro movido a uma bateria de mercúrio já inexistente no mercado.

A brincadeira com meu namorado fotógrafo valeu a pena: ganhamos um novo suporte e o resultado das fotografias nos despertou para a possibilidade de produzir imagens poéticas dotadas de uma nova estética. Além disso, resgatamos a memória de um tempo que vivemos: o tempo da nossa infância, guardado em negativos iguaizinhos àqueles. Quem nasceu até meados dos anos 90 sabe bem do que estou falando.

Foi durante esse processo de sensibilização para uma novidade (com décadas de existência) que, por obra do acaso ou do destino, descobrimos que meu pai havia deixado também uma outra câmera – uma Super 8 Canon 1014, surpreendente. Ao encontrá-la, tivemos a impressão de estar tão somente diante de um objeto curioso mas sem possibilidade de uso. Na tentativa de melhor compreender o que tínhamos em mãos, pesquisamos e descobrimos que havia, ainda, possibilidade de vê-la trabalhando. Entramos em contato com Tiago Hedler, entusiasta do formato Super 8 que, muito paciente, explicou o modo de funcionamento, as características peculiares e, inclusive, nos vendeu uma película, a qual havia encomendado da Turquia.

Enquanto o filme fornecido pelo Tiago viajava do RS ao PR para chegar até nós, era preciso descobrir se a câmera estava de fato em funcionamento. Lembro bem do dia em que, pelo telefone, eu acompanhei o primeiro teste feito pelo Paulo: um barulho emocionante que, depois, vim a saber tratar-se tão somente do som do zoom. Sem uso há mais de 35 anos, ela parecia acordar aos poucos de um longo sono, ora respondendo, ora não. No dia seguinte, no sofá aqui de casa, assistindo a tutoriais no YouTube, descobrimos juntos que o mecanismo de rodagem do filme não estava funcionando – ao apertar o chamado “trigger” houve um breve movimento e mais nada. Desânimo!

Contudo, mais alguns dias de persistência e ouvimos o som da câmera à toda velocidade: ela definitivamente havia dis-parado e voltado a funcionar. A película enviada pelo Tiago não demorou a aparecer na caixa de correio.

Foi então que surgiu a necessidade de pensarmos um roteiro e personagens para um curta metragem com uma média de três minutos de duração – essa é a extensão dos filmes domésticos gravados em Super 8 pois a película, embora cinematográfica, possui a mesma lógica dos desenhos animados: são tiradas em média dezoito fotos por segundo, as quais transformam-se em cenas com movimento. Já pensou a quantidade material de cumprimento de película que seria preciso para filmar durante uma hora? Alguns rolos de filme Super 8 foram produzidos com a inclusão de uma fita sonora, mas hoje, a única fabricante (a Kodak) fornece apenas os formatos mudos (coloridos ou em preto e branco). Ainda, há uma diferença entre os filmes positivos e negativos. Os positivos são aqueles que podem ser exibidos nos projetores pois aparecem em cores e os negativos são como os negativos de fotografia mesmo - é preciso submetê-los à telecinagem (esse é o nome que se dá à conversão digital das películas de Super 8 para DVD). A revelação de filmes Super 8 ainda acontece no Brasil (temos apenas uma única empresa que presta esse serviço) e em países como os Estados Unidos e a Alemanha. Vez por outra, os apaixonados pela arte organizam festivais ou mostras. Uma das mais famosas acontece em Curitiba (Curta Super 8!).

Voltando à nossa experiência com o formato: Sem quaisquer conhecidos no universo do teatro e do cinema, a solução para o elenco seria contar com a boa vontade dos amigos. Quanto ao roteiro, semanas antes havíamos assistido ao meu longa preferido, Cinema Paradiso, do diretor italiano Giuseppe Tornatore: Por que não fazer, então, uma releitura da cena final, na qual um cineasta, apaixonado por cinema desde a infância, faz no tempo atual a colagem de películas que um dia haviam sido cortadas pelo padre da cidade por conterem cenas de beijos? Bastava pedir, portanto, que casais se deixassem filmar num beijo autêntico. Foi o que fizemos.

Ao longo de vários finais de semana nos dedicamos a compartilhar todas as informações do nosso projeto e realizamos as filmagens, sempre alertando a todos para o fato de que talvez nada saísse dali, afinal, era tudo novo para nós: a câmera nunca mais havia sido utilizada e não sabiamos se o filme havia sido corretamente armazenado. Era preciso lidar com uma aposta – e encontramos amigos dispostos a fazê-la conosco.

Especialmente durante esse trabalho percebemos que o filme, para além de ser a releitura de um clássico do cinema arte, também tinha a importante função de valorizar o afeto, de valorizar o beijo e sua autenticidade, o beijo e sua liberdade, o beijo como simples beijo que é diverso (e por isso mesmo lindo) e cheio de emoção.

Durante esse trabalho aprendemos que com curiosidade e atenção a tudo que temos ao nosso redor é possível construir novos sonhos ou novas modalidades de sonhar. É preciso estarmos atentos aos subsídios que a vida nos oferece para não os desperdiçarmos. Fico feliz em saber que a ida a Lisboa, as câmeras do meu pai, meu filme preferido, o olhar artístico e estético apurado do Paulo, a boa vontade de profissionais, a boa vontade e a entrega dos amigos… Tudo – tudo isso – tomado em conta pela nossa atenção, pôde nos levar a uma soma que resultou na realização de uma homenagem ao cinema arte, a produção de um filme sobre amor, a criação de uma película com valor estético e de memória. Fico feliz em saber que por meio de uma câmera Super 8 foi possível a construção de um vínculo simbólico entre meu pai e meu namorado, os quais nunca foram e nem poderão ser fisicamente apresentados. Fico feliz em saber que com o apoio dos casais que se deixaram filmar, criamos uma possibilidade de sonhar que nos motivou, que nos encantou e que, fim de contas, tornou-se um resultado palpável do nosso amor e companheirismo (fizemos esse trabalho inteiramente juntos, de corpo e alma!).

O resultado dessa produção em Super 8?

Alguém diria que foi gravado em 2014? Em tempos nos quais estamos tão habituados a vídeos instantâneos, a capturar imagens em qualquer hora e lugar e compartilhá-las com o mundo, vale a pena nos permitirmos ao encantamento de uma estética granulada - vale nos permitirmos submeter a lidar com a expectativa de um modo de produção artesanal. É preciso lembrar que capturar a imagem da vida em movimento - a despeito de toda a tecnologia - continua a ser algo dotado de magia, de ilusão, com um quê de milagre. Vale a pena desacelerar - é como descer um dia do ônibus, do táxi, do carro, e descobrir que para além da calçada, detrás de um murinho baixo, há um jardim, um cachorro, uma casa, uma janela, uma senhora, um universo inteiro - a silenciar por instantes o barulho alucinante da avenida.


Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @obvious //Andressa Barichello