fotoverbese

Uma paixão pela fotografia, outra pela palavra.

Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com

Salão de beleza é um imperativo pra você?

Porque é uma delícia brincar de dondoca. Porque é imprescindível permitir-se colocar a mão na massa.


IMG_1246.jpgPaulo Andrade/fotoverbe-se.com

Hoje é dia de ir ao casamento de uma amiga muito querida. Passei a tarde me arrumando sozinha. A gente se arruma sozinha em tantos sentidos na vida, por que não ousar dar um tapa no visual sem a maestria de terceiros, né?

Me arrumei sozinha para o casamento de uma amiga muito querida e foi tão legal. Primeiro porque fazer o meu melhor parecia ser um modo de expressar carinho: ao me arrumar para a cerimônia e para a festa, eu também me arrumava para a noiva, com o desejo de que ela pensasse que eu caprichei. Segundo, porque foi uma tarde de ponderação junto àquela do espelho e não é sempre que nós duas temos disposição para esse tipo de diálogo frente a frente.

Mulherada vaidosa, eu não nego: ir ao salão é uma delícia. Sempre saímos lindas, mimadas e confiantes. Mas foi importante lembrar que, assim como muitas amigas, com o tempo aprendi que ninguém conhece tão bem os traços do meu rosto quanto eu, então, fazer uma auto-maquiagem bacana não pode ser algo tão complicado assim.

Isso também vale para os meus cabelos, embora eles pareçam ter vontade própria. Basta ter paciência - e ter paciência é que não é pouca coisa. Paciência, por vezes, é algo mais raro que conseguir um horário com a cabeleireira preferida em pleno sábado. Na verdade, pode ser divertido aprender a colar cílios postiços (ou não aprender e nem por isso achar que falta algo).

Importa mais é tentar. Brincar. Provar. Nem que seja para descobrir que esse lance de olhão preto e delineador não é contigo! Exige uma certa coragem ver-se diante do espelho no maior empenho para realizar em algumas horas e sem qualquer garantia de resultado o que uma profissional faria com total destreza em poucos minutos.

A cena até me remeteu àquele tempo em que éramos menininhas que admiravam e desejavam imitar a autossuficiência e beleza de mulheres como as nossas mães, tias e avós. Por que será que elas eram tão lindas? Não importando se calçavam saltos agulha, botas, botinas ou rasteiras?

Crescemos, por isso é boa essa sensação de botar fé na nossa própria produção, essa coisa de assinar não apenas o que dá certo, mas o que ousamos fazer.

Sabe essa mulherada que passa a tesoura na própria franja, descolore o cabelo, corta batidinho, faz permanente e até passa a máquina? Se nunca cheguei a experimentar assim, não quero esquecer que é bom exercer a vaidade pelas próprias mãos, nem que seja diante dessa simples paleta de sombras cintilantes - especialmente para lembrar que força de vontade também vale para pequenos esforços de delicadeza na obtenção de resultados efêmeros e não apenas para obtenção de recompensas grandes porém dolorosas para o corpo e, às vezes, para a alma. Academia, regime e silicone, são como salão: você não precisa, faz e coloca se quiser, combinado?

Desencanar da "necessidade de salão" para toda ocasião, pode ser bastante simbólico no sentido de fazer as pazes com uma certa angústia de estar/ser impecável e no sentido de reforçar um tipo de feminilidade especialmente interessante: a da mulher que não precisa esconder que não nasceu de unhas feitas ou cabelo escovado. Da mulher que tem pelos, manchas, flacidez, celulite, cicatrizes. E que ao mesmo tempo gosta de hidratante e/ou perfume e/ou rótulo de shampoo. Da mulher que não curte nada disso e nunca deixará de ser linda por estar de cara lavada. Tenhamos, sim, a cara lavada de sermos nós mesmas, de cara limpa e na cara dura! Não somos menina, nem bonecas. Tenhamos a liberdade da mulher que desfila (e desfruta) seu corpo com liberdade, ainda que ele não seja de passarela (nem de mulher-fruta).

Não é preciso estar irretocável para estar cuidada, bonita e confiante. Por tudo isso: Imperativo, só se for o de estar sempre bem (e de bem) com a gente e na companhia de quem a gente gosta e de quem gosta de nós por tudo que não sai com água (ou demaquilante). Nenhuma novidade, eu sei. Nisso que escrevo, a intenção não era descobrir o Brasil. É apenas que, por falar em nacional, garotas, nesses tempos de padrões de beleza fixados com laquê extra-forte, não custa nada reafirmar que, indefectível, só mesmo o vestidinho preto (o pessoal do Skank há de concordar comigo).


Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com.
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