fotoverbese

Uma paixão pela fotografia, outra pela palavra.

Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com

Coisas que aprendi sobre amizade.

Sobre relações, ética e o valor do outro; sobre amizade.


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Dentre todas as lições de bons modos e de todas as interdições com as quais tentaria marcá-lo na tentativa de oferecer algum preparo para o indomável mundo, se eu tivesse um filho eu diria a ele que, dentre todas as ousadias do livre arbítrio, dentre todas as missões que escolhesse para dar sentido a cada adormecer e despertar, não se recusasse nunca a comparecer à tarefa de compartilhar amigos.

Compartilhar amigos é uma coisa tão importante quanto fazer amigos. Apenas a oportunidade de ser ponte entre pessoas transforma o mundo numa verdadeira comunidade. Não se trata exatamente de apresentar pessoas que possam ter algo em comum, ou prestar mutuamente um serviço… Muito menos se trata de fazer arranjos ou rearranjos – é, no mínimo, pretensioso demais quem se arvora a pensar que sabe o que melhor casa com o desejo e necessidade do outro. Trata-se, apenas, de permitir que amigos desconhecidos ocupem o mesmo espaço, dividam o mesmo espaço [simbólico e físico]. O contato será feito entre quem assim quiser fazer – se assim quiser fazer. Aliás, apresentar até mesmo pessoas que a princípio nada tem em comum é uma linda aposta no poder da diversidade, da tolerância, da convivência, da quebra de paradigmas e, principalmente, de preconceitos.

Há alguns anos fiz uma amiga muito querida nas aulas de inglês. Um dia a levei para um churrasco da faculdade. Felizmente não cometi um engano comum: às vezes costumamos catalogar as pessoas como se elas estivessem presas a um determinado círculo social de onde provém. A convidei de modo instintivo para fora do contexto, sem tentar prever se ela “se enturmaria” ou se eu ficaria a “ciceroneá-la” em prejuízo do meu contato com os demais.

Apresentei a ela minhas amigas e um amigo. O amigo virou namorado (estão juntos há mais de três anos) e as amigas da faculdade hoje são amigas dela tanto quanto minhas. O único carnaval que passei na praia foi com elas e aquele feriado em que “moramos” juntas por alguns poucos dias produziu transformações. É bom lembrar: compartilhar amigos não acontece a partir de um movimento individual. Porque aquele que aceita chegar numa roda na qual conhece apenas uma pessoa é alguém capaz de aceitar improviso, de estar disponível ao outro, de ser curioso, de se abrir, de correr o risco de “ficar perdido”. Correndo o risco de ficarmos perdidos é que podemos ir a lugares onde nunca estivemos e sermos surpreendidos positivamente. Correr o risco de ficar perdido é o preço a ser pago por quem não quiser ter uma vidinha previamente esquadrinhada e insossa. Ir a lugares onde nunca estivemos é também abrir portas sem medo de encontrar o feio e, acaso encontrá-lo, tomar um táxi e seguir pra casa na certeza de que a frustração faz parte. Compartilhar amigos é um movimento que precisa do outro para se completar.

Compartilhar amigos é entender que dividir os amigos que fazemos é multiplicá-los – não é correr o risco de perder um amigo para outro amigo. Em amizades genuínas não existem diferentes “graus de amizade”, nem predileções egoístas e produtoras de isolamento. Uma relação exclusivista entre amigos é extremamente empobrecedora. Se eu tivesse um filho eu gostaria de contar a ele que a amizade que se tem com uma pessoa não encontra parâmetro naquela que se tem com outras. Cada amigo tem conosco uma química que resulta numa joia preciosa irreproduzível. Compartilhar amigos é dar início a uma brincadeira na qual mais facilmente teremos a chance de um dia nos aproximar de pessoas cuja história ou trabalho só conhecemos de longe e de estarmos disponíveis àqueles que, desde antes das primeiras palavras, nos querem algum bem.

Compartilhar amigos permite que pessoas queridas ampliem sua rede de contatos e de acolhimento, mas, para ser bom nem precisa ser tudo isso: às vezes basta uma única interação. Há pessoas com quem em alguma ocasião conversei por 20 minutos, me esqueci de perguntar nome e nunca mais vi… Mas as palavras e olhares trocados foram suficientes para me dar novas perspectivas sobre novos ou velhos temas. Falando sobre si e sobre suas questões o outro, sem perceber, nos dá pistas sobre como lidar com situações da nossa própria vida – situações essas muitas vezes completamente distintas daquelas narradas mas que a despeito de serem diferentes em fatos e personagens, apresentam dinâmicas parecidas.

Compartilhar amigos é um jeito de descobrir que ao longo dos anos desenvolvemos relações que no quesito afeto durarão uma vida inteira mas, a depender das novas leituras e desejos que tivermos, aquele amigo para o qual doaríamos um rim não é a pessoa com quem temos vontade de tomar um cafezinho toda sagrada sexta ou brindar as últimas novidades com um vinho no sábado.

Compartilhar amigos é entender que na vida todos buscamos relações capazes de fazer alguma efetiva diferença em quem somos. Precisamos entender que a diferença marcada por um amigo precisa ser em nós, em nossa subjetividade, em nosso modo de enxergar o mundo. Quando identificamos que a diferença que algumas pessoas podem produzir em nossa vida se resume às circunstâncias, ao apoio em uma causa ou em alterar algum estado de coisas, então não temos amigos, temos aliados. E nesse caso, muito cuidado! Alianças, ao contrário de amizades, nem sempre se pautam por vínculos de afetividade sincera. Basta ver mundo afora a quantidade de gente que se une para propósitos sórdidos e batiza de amigo aquele com quem, em verdade, está mancomunado. Nesse tipo de relação interesseira e devoradora, quando o outro deixa de ser útil ele pode, instantaneamente, tornar-se um inimigo. Não se batiza de amigo aquele que em qualquer tipo de relação utilitária pode ser descartado depois de consumido. Por essas e outras, a palavra amizade é tão sagrada: pessoas, sentimentos e histórias de vida não são pares de sapato – mas na lógica do consumo muita gente se esquece disso.

Não quero dizer que amizades genuínas não possam nunca ter um fim. Quando Lulu Santos canta o verso “não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais”, enuncia com simplicidade um acontecimento muito natural. Já diz uma pichação que circula pela internet numa foto viral: “amadureci com o passar dos [d]anos”. O passar do tempo indica em quais amigos podemos continuar a encontrar eco; em quais relações subjetivamente é interessante investir – isso não implica mal querer. Uma relação de amizade, tal como certos amores, para ter valido a pena não precisa durar uma vida inteira. Amigos de verdade sabem até mesmo a hora de partir ou deixar que o outro parta sem cobranças desnecessárias – e que volte, se assim um dia rolar de acontecer.

Seja como for, qualquer amizade para durar positivamente uma vida inteira precisa da nossa compreensão de que o que caracteriza o outro é sempre a sua divergência, a sua diferença perante nós. Caso contrário, só conseguiremos nos relacionar com pessoas que aceitem funcionar como um espelho a nos apresentar nada além de nós mesmos. Há pessoas que usam o outro assim e não o descartam nunca: carregam-no pela vida, devorando-o cotidianamente num ritual de simbologia canibal. Isso é tão cruel quanto aqueles, já mencionados, que devoram o outro como uma laranja e depois o descartam.

Compartilhar amigos, portanto, é não ter qualquer medo de perder o outro a partir das outras versões de nós mesmos que as pessoas que nos conhecem ou com quem convivemos apresentarão. Fôssemos um livro e compartilhar amigos seria permitir que fluam por aí diversas leituras sobre quem somos, para além do personagem frágil e solitário que em nossa fantasia construímos para nós mesmos. Assim, descobrimos qualidades que sequer imaginávamos e defeitos que jamais tivemos condições de prever.

Compartilhar amigos é ser, diariamente, um cupido. E se cupidos são anjos, compartilhar amigos é nossa única chance de, humanos e passageiros, nos aproximarmos um pouquinho do divino.

Se eu tivesse um filho eu diria a ele que, dentre todas as ousadias do livre arbítrio, dentre todas as missões que escolhesse para dar sentido a cada adormecer e despertar, não se recusasse nunca a comparecer à tarefa de compartilhar amigos.

Publicado originalmente em: http://www.fotoverbe-se.com/coisas-que-aprendi-sobre-amizade/


Andressa Barichello

Acredita na possibilidade infinita da palavra, sempre [des]construtora. É autora de "Crônicas do Cotidiano e Outras Mais" (Scortecci Editora, 2014) e co-fundadora do projeto cultural fotoverbe-se.com.
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